Humanidade

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Sendo certo que Humanidade significa o conjunto dos seres humanos, não é sobre isso que, nesta circunstância temporal, quero escrever. Prevalecendo-me da polissemia do substantivo antes convoco cada um dos leitores, para a sua, nossa, benevolência, compreensão, quantas vezes compaixão, em relação aos outros, sobretudo aos que nos são diferentes.

Aquando da vinda do Papa Francisco a Portugal, talvez essa jornada tenha ficado marcada na memória colectiva pelo significado que Francisco deu ao advérbio todos. Ênfase e repetição que a todos, crentes e não crentes, invectivou no mais profundo das nossas consciências.

Repetição que mais não foi que a proclamação enfática do seu pensamento. Basta atentar no que disse: “um verdadeiro crescimento na consciência da humanidade não pode basear-se noutra coisa senão na prática do diálogo e do amor  [que] pressupõem o reconhecimento do outro como outro, a aceitação da diversidade.” 

E não, não é uma questão de fé, ter “ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos”. Como não o é atentar e aprender com a encíclica Fratelli Tutti.

Neste mundo que parece caminhar para o pensamento monolítico do politicamente correcto e para modelos de comportamento e de pensamento “a preto e branco”, talvez nos devamos voltar para o outro e compreender a diversidade.

Para o nosso vizinho que apesar de ter emprego e trabalhar não consegue ter uma casa ou alimentar a sua família.

Para os nossos concidadãos aos quais só a solidariedade proporciona uma ceia de Natal.

Para os três milhões de portugueses que vivem em pobreza energética no país campeão das energias renováveis.

Para os que povoam os abrigos em que se transformaram muitas entradas dos prédios das grandes cidades.

Para os que sendo diferentes, são nossos iguais, porque todos somos iguais.

E não, não é uma questão de fé.

O que assalta as nossas consciências é a negação continuada, reiterada e aviltante da dignidade da pessoa humana.

Dignidade da pessoa humana que não é uma consensual abstração.

A dignidade da pessoa humana é um imperativo ético categórico e um comando para a acção, individual e colectiva, que a todos deve interpelar e mobilizar. Pelo respeito pelo outro, pelo respeito por nós próprios e pela defesa e afirmação do nosso modelo de sociedade livre.
Vale a pena, a este propósito, lembrar Alain Touraine: “o esforço de solidariedade é crucial e tem como primeiro objectivo evitar a desintegração da sociedade”.

Ou, noutro registo, recordar o que Mário Soares afirmou há 36 anos, em Dezembro de 1988: “…generalizou-se a noção de que a pessoa humana deve ser respeitada na sua eminente dignidade - qualquer que seja a sua raça, sexo, credo ou condição social - e compreendeu-se, igualmente, que não basta enunciar direitos mas sim, também, criar as condições económicas, sociais e culturais indispensáveis ao seu real exercício.” 

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