Uma das consequências mais comuns dos períodos de crise consiste no exacerbamento das identidades de grupo..As incertezas e angústias sobre um quotidiano penoso e as dúvidas e inseguranças sobre o futuro provável produzem, em regra, tentações proteccionistas e reacções de hostilidade perante o estrangeiro, perante os que são diferentes do grupo que se sente instável ou ameaçado..No espaço de uma semana, a chanceler alemã, Angela Merkel, alertou para os perigos do proteccionismo e elegeu a conclusão das negociações do comércio internacional como a sua prioridade na cena internacional, ao mesmo tempo que decretou a "morte do multiculturalismo" na Alemanha, reportando-se especificamente às dificuldades de integração dos muçulmanos (em especial os de origem turca) na sociedade alemã..Contraditório? Aparentemente sim, embora seja claro que Angela Merkel, nas suas intervenções, se dirigia a audiências distintas: sobre o proteccionismo falava para os seus parceiros na cena internacional e sobre a imigração visava, sobretudo, a sua opinião pública nacional..Sabe-se que a Alemanha tem tido um percurso difícil na definição da sua identidade face ao fenómeno migratório. Até há sete anos, a doutrina oficial era a de que a Alemanha não era um país de destino de imigrantes. Os estrangeiros não comunitários eram apenas "trabalhadores convidados" (Gestarbeiter). Mesmo perante a evidência de que a mais relevante das comunidades migrantes presentes no seu território, a de origem turca, já tinha chegado à terceira geração... .Depois de uma limitada alteração da respectiva lei da nacionalidade, permitindo, em certas condições, o acesso à cidadania alemã plena dos descendentes de imigrantes já nascidos na Alemanha, foi sendo progressivamente aceite que não havia de facto, neste domínio, nenhuma "excepção alemã". Todos os países europeus se tornaram, nos últimos dez a quinze anos, países de destino de fluxos migratórios..A proclamação, feita na semana passada, da "morte do multiculturalismo" constitui, pois, o reconhecimento da falência daquela política de negação da evidência e o efeito pernicioso da ausência (ou insuficiência) das políticas públicas de integração dos imigrantes na sociedade alemã..Contudo, aquilo que bem poderia ser uma autocrítica tardia mas, sem dúvida, necessária foi apresentada num tom e envolta numa retórica que constitui a mais grave cedência de um chanceler alemão às tentações populistas nas últimas décadas..As concessões dos partidos ditos do mainstream à pressão populista, no espaço europeu, não são, infelizmente, inéditas. .Desde há mais de dez anos que os governos liberais dinamarqueses dependem do apoio parlamentar do Partido do Povo Dinamarquês, um partido anti-imigração, que tem influenciado decisivamente as políticas daquele país ao arrepio do que havia sido sempre a tradição nórdica..A instabilidade política na Holanda tem estado ciclicamente associada à emergência de partidos populistas e xenófobos, culminando no actual governo, em que liberais e democratas-cristãos dependem do apoio de um desses partidos, liderado por um personagem controverso, que responde perante a justiça por incitamento ao ódio rácico, e que preconiza a expulsão de todos os muçulmanos da Holanda..Na própria França, a retórica do Presidente Sarkozy sobre a imigração permitiu à direita francesa clássica esvaziar o principal tema de combate da Frente Nacional de Le Pen, pagando um preço que esteve bem patente nos acontecimentos deste Verão sobre o caso das expulsões de ciganos..Também na Bélgica, o impasse na formação de um governo, que dura há quase seis meses, resulta do peso decisivo no cenário político de um partido flamengo de clara inspiração populista..E até na tradicionalmente tolerante Suécia as últimas eleições colocaram numa posição charneira um partido xenófobo e racista que surge do nada e ao arrepio das mais sólidas credenciais de integração de que há décadas se ufanam os suecos. .De igual modo, em Itália, o Governo de Berlusconi está hoje totalmente dependente do apoio da Liga Norte, movimento político de clara inspiração xenófoba e racista..Este panorama preocupante revela uma tendência que convém não só não subestimar mas sobretudo contrariar enquanto é tempo. Porque quem semeia ventos não pode depois dizer que não sabia o que acabará por colher!