Rosa-choque

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Este fim-de-semana encomendei duas olaias. Estou só à espera de que, lá no viveiro onde me esperam, botem a primeira flor. Com a minha sorte, saíam-me ambas brancas, como aconteceu com a magnólia.

Ainda bem que a plantei a um canto.

Às vezes lembro-me dos primeiros dias deste jardim. Trabalhava para a Grande Reportagem e volta e meia convencia o director do quão importante, imperativo e inescapável era vir às ilhas escrever sobre não sei o quê. Os fotógrafos acabavam sempre de botas de cano. O Jordi Burch plantou-me a linha de abrigos sozinho, rindo.

Paguei tudo em cerveja fresca.

Hoje, sou penalizado pela falta de planeamento. Demorei muito a plantar um plátano e agora tenho de esperar que cresça. Abati uma tipoana para, cinco ou seis anos depois, plantar outra quase no mesmo lugar.

Entretanto, não sei o que fazer aos dois ficus que se desenquadraram, e também não tenho a certeza de que o araçaleiro esteja no sítio certo. Ou a pitangueira. Ou a macadâmia.

Mas sei que duas feijoas vão dar razão a Darwin e ceder lugar a duas olaias. Ao fim de dois anos e meio, já ultrapassei o número de vezes que um homem consegue passar entre as quintas de São Carlos sem ir a correr comprar duas olaias.

São lindas, as olaias. Diz-se que foi numa que Judas se enforcou, o que só demonstra que tinha redenção. E também são um pouco de Lisboa, aqui connosco. Como é o jacarandá que pus à entrada.

Só que nenhum jacarandá, nesta humidade, faz aquele mosqueado roxo como os da D. Carlos I. Já as olaias crescem como bonsais em ponto grande e, por esta altura, cobrem-se de um naperon rosa-choque.

O meu consumismo é este, hoje em dia. E é bom. Tenho sítio para me enforcar e ainda aprendo que as olaias não são apenas uma estação de metro.

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