Zika: agora a emergência é oficial. OMS apela a esforço internacional

Controlo das populações do mosquito transmissor e proteção das mulheres grávidas são as prioridades de atuação

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou ontem os surtos do vírus zika - bem como os casos de microcefalia que têm surgido em bebés - uma "emergência de saúde pública de importância internacional" (PHEIC). A decisão foi tomada no final de uma reunião do Comité de Emergência. A OMS já acionou o "sistema de gestão de incidentes", recorrendo a um "fundo de contingência" criado recentemente "para financiar a resposta inicial". No entanto, a diretora-geral da organização, Margareth Chan, defendeu já a necessidade de uma "resposta internacional coorde-nada".

Esta foi apenas a quarta vez que a OMS declarou este nível de alerta desde que o conceito de PHEIC foi introduzido, em 2005, à luz dos regulamentos internacionais de saúde (IHR). A primeira aconteceu em abril de 2009, durante a fase 3 da pandemia de gripe suína (H1N1). Em maio de 2014, voltou a ser dado o alerta devido ao ressurgimento da poliomielite, que já tinha sido declarada praticamente erradicada. Finalmente, em agosto de 2014, o surto de ébola, na África Ocidental, ditou o terceiro alerta.

O estatuto de PHEIC implica que a doença "constitua um risco de saúde pública para outros estados [além dos já afetados] através da disseminação internacional da doença" e configure uma situação "fora do comum e inesperada", que poderá implicar "imediata ação internacional".

E foi precisamente a esta que Margareth Chan apelou ontem, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião de emergência, defendendo que "uma resposta coordenada é necessária para intensi-ficar a vigilância do vírus zika, a deteção de infeções e de malformações congénitas", para além de "intensificar o controlo dos mosquitos [Aedes aegypti, vetores da doença] e tornar mais expedito o desenvolvimento de testes de diagnóstico e de vacinas".

O controlo das populações de mosquitos, "amplamente distribuídas", é considerado "a medida protetora mais urgente no presente". Até porque os restantes meios de resposta são para já limitados: "A falta de uma vacina, testes rápidos e fiáveis e a ausência de imunidade da população nos novos países afetados" são todos "motivos de preocupação", disse Chan.

"Forte suspeita" de microcefalia

O principal grupo de risco a proteger da exposição aos mosquitos são "as grávidas", dada a associação que tem sido feita entre a doença e centenas de casos confirmados e milhares suspeitos detetados no Nordeste do Brasil, em áreas de forte implantação da doença.

Os peritos da OMS consideraram a associação entre o vírus zika e esta doença "um acontecimento extraordinário" e, mesmo ressalvando que "a relação causal entre contrair zika durante a gravidez e a microcefalia [dos bebés] ainda não está provada cientificamente", consideraram que já existem motivos para que haja uma "forte suspeita" dessa ligação.

De resto, segundo David Heymann, diretor-geral assistente da OMS para a Segurança na Saúde e Ambiente, a decisão de se avançar para o atual estado de alerta tem tudo a ver com o risco de o vírus estar a causar problemas neurológicos aos fetos: "O vírus zika, por si, não seria uma emergência pública de importância internacional, porque sabemos que não é uma condição grave do ponto de vista clínico."

Os sintomas da doença em adultos incluem conjuntivite (vermelhidão dos olhos), dores nas articulações e febre. Duram habitualmente entre alguns dias e uma semana, sendo raros os casos que implicam a hospitalização e ainda mais invulgares as situações graves ou mortais.

Por isso, mesmo com a OMS a projetar "até quatro milhões" de casos neste ano na América Latina, os peritos do Comité de Emergência não viram motivos para desaconselhar viagens para os países afetados. Com exceção do grupo de risco das grávidas. De resto, esse é um conselho que já está a ser dado pelas autoridades de saúde de muitos países, nomeadamente pela Direção-Geral da Saúde (DGS), em Portugal, tendo a TAP também já prometido restituir, através de vouchers, os valores pagos por mulheres que tinham voos marcados para os países onde a doença está ativa.

270 confirmações no Brasil

O Brasil, um dos destinos internacionais preferidos pelos portugueses, é também o mais seriamente atingido pela doença. E, sobretudo, aquele onde a possível relação da doença com a microcefalia começou a ser estabelecida.

De acordo com dados divulgados pela imprensa brasileira, o país já registou 4180 casos suspeitos de microcefalia - condição que afeta o desenvolvimento neurológico das crianças, conduzindo a limitações que podem implicar a absoluta dependência de terceiros por toda a vida - desde o início da atual epidemia. Destes, 462 foram entretanto descartados.

Atualmente há 270 casos com diagnóstico confirmado e 3448 em investigação. Os casos foram sinalizados em praticamente todo o país, embora a grande maioria se concentre no Nordeste (86%), em particular no estado do Pernambuco, com mais de 1100 diagnósticos. Independentemente das conclusões finais, os números atuais já traduzem muito mais casos confirmados do que aqueles que tinham sido descobertos no conjunto de vários anos.

Bactéria para combater vírus

O vírus está presente em mais de duas dezenas de países da América Latina. Alguns já estão a desenvolver estratégias para o combater. É o caso da Costa Rica, que está a aplicar nos depósitos de água comprimidos com a bactéria spinosad, que ataca as larvas de mosquito.

A secretária-geral ibero-americana, Rebeca Grynspan, defendeu ontem, em Lisboa, que tem de haver muita colaboração entre os países" para se vencer esta batalha.

Em Portugal foram até agora confirmados seis casos, todos "importados" de países afetados.

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