Solteira e cercada por homens

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do the New York Times. Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

Às vezes gosto de fazer um jogo um bocadinho assustador em que penso sobre como a minha vida seria diferente se eu tivesse feito outras escolhas. Uma coisa leva a outra, até aí imprevisível.

Depois de passar os meus 20 anos como aspirante a música profissional, fui para a Faculdade de Direito em Nova Iorque. Quando me formei devia cerca de cem mil dólares em empréstimos estudantis. Felizmente, arranjei um emprego num escritório de advocacia fantástico mas exigente, onde fui partilhar um gabinete com um associado chamado Daniel.

Daniel e eu estabelecemos uma ligação como dois soldados que partilham uma trincheira durante a guerra. Éramos os dois tímidos, mas o facto de trabalharmos juntos dias, noites e fins de semana fez que a reserva se desvanecesse. Ele enviava-me e-mails falsos de sócios aterrorizadores e eu saltava de gabinetes vazios e assustava-o.

Não tivemos nenhuma ligação romântica, mas falávamos um com o outro sobre os problemas nas nossas relações respetivas. Ambos concordávamos que a socialização em ambientes desconhecidos era particularmente assustadora. Assim, escondíamo-nos no nosso gabinete e evitávamos a hora do cocktail semanal da empresa. A perspetiva de conversar com colegas de trabalho que nos eram estranhos colocava-nos aos dois numa posição defensiva.

Mas mesmo as melhores alianças do tempo da guerra acabam por esmorecer. Depois de três anos, Daniel deixou a sociedade e mudou-se para outra cidade. Eu levei mais dois anos a pagar os meus empréstimos. Cerca de cinco segundos depois fugi do campo de batalha e juntei-me ao departamento jurídico, de ritmo mais lento, de uma editora.

Com mais tempo livre, arranjei coragem e inscrevi-me num encontro para solteiros, organizado por um grupo que realizava encontros regulares. Eu estava com 37 anos, a meio da minha vida, e, de onde estava, parecia-me que a partir dali esperava-me um declive descendente e aborrecido. Assim, esqueci as minhas dúvidas e apareci na reunião seguinte.

Ela tinha nove participantes - cinco homens e três outras mulheres além de mim. Cada um de nós falou sobre si próprio a um microfone. Depois veio a parte que eu sempre odiei: a convivência. O organizador do evento fez as advertências habituais. Nenhum de nós devia ser rude. Se alguém se aproximasse de nós, devíamos falar com a pessoa pelo menos durante um minuto.

Ouviu-se o arrastar de cadeiras e levantámo-nos. Vi um sujeito atraente e aproximei-me dele. Ele sorriu, veio na minha direção e, em seguida, desviou-se para falar com a mulher que realmente lhe interessava. Eu vi um segundo homem e avancei.

"Olá!", cumprimentei-o.

"Desculpe", respondeu e continuou a andar. Fui-me embora e jurei que nunca mais participaria num encontro de solteiros. Enviei um e-mail ao Daniel, que me respondeu que o mesmo grupo estava a organizar outro encontro no próximo mês e que eu devia ir. Ah, ah, pensei. Comecei a pesquisar a adoção monoparental e assinei um contrato para um pequeno apartamento de uma cooperativa habitacional.

Numa tarde de sexta-feira, algumas semanas mais tarde, eu estava sentada à minha mesa, no meu trabalho abençoadamente calmo. Aqui, ninguém precisava urgentemente de um memorando com o resumo de uma pesquisa jurídica. Ninguém esperava que eu ficasse a trabalhar naquela noite. Aquilo era advocacia em tempo de paz.

Decidi limpar a minha caixa de entrada de e-mail. E ali estava: o e-mail do Daniel sobre o encontro para solteiros. O evento teria início às seis horas naquela mesma tarde, no centro de Manhattan.

Eu estava vestida com uma camisa de flanela, calças de ganga e ténis. Mas que importância tinha isso? Eu não iria encontrar ninguém. E quem precisava de amor, afinal? Mas, por outro lado, talvez fosse divertido. Mas não teria de falar com as pessoas? Poderia sair a qualquer momento, lembrei-me.

Esta reunião tinha cerca de 80 participantes, sentados em cadeiras no auditório de uma escola secundária. Demorou uma hora a passar o microfone em redor. Eu rabisquei umas notas sobre o que certos homens disseram sobre si mesmos: um era um empreiteiro que gostava de Shakespeare, outro era um advogado que gostava de ópera.

Depois veio a temida convivência. Um homem de ar irritado aproximou-se determinado e exigiu saber como é que eu estava. Momentos mais tarde, um outro homem, este com um sorriso fixo, perguntou-me de que tipo de filmes eu gostava.

Era suposto a reunião durar 30 minutos, mas eu não conseguiria fingir ser alegre e descontraída durante tanto tempo. Se não saísse rapidamente, em breve começaria a contar histórias pessoais impróprias, como aquela sobre a freira na escola primária que me disse que eu nunca conseguiria nada porque falava muito baixinho. Depois de conversar com mais alguns homens, nenhum dos quais me interessou, corri para a casa de bano e tranquei-me numa cabina.

Por que razão é que estava a obrigar-me a passar por aquilo de novo? Era cansativo. Talvez o amor fosse sobrestimado. Talvez o amor fosse apenas o que as pessoas afirmavam sentir por quem as aturava. Encostei-me à parede e fechei os olhos. Conseguia ouvir a conversa das mulheres que abriam torneiras e descarregavam autoclismos. Vou esperar aqui, pensei, até a reunião terminar. Depois vou lá dentro e vejo se alguém escreveu o meu número de identificação como o de alguém que gostaria de namorar.

Regressei ao auditório e descobri que a sessão de convívio ainda não tinha acabado. Imediatamente, o advogado que gostava de ópera posicionou-se à minha frente. Ele estava impecavelmente vestido, de fato, cabelo escuro cortado curto e uns olhos castanhos penetrantes. Enquanto isso, eu podia muito bem estar a representar o papel de um moço de estrebaria.

"Olá!", disse eu. "Eu lembro-me de si. Você é advogado."

"Sim", disse ele, e o seu rosto permaneceu fechado.

"Eu também sou advogada. Estive num grande escritório. Agora estou no departamento jurídico de uma editora. Que tipo de direito é que você pratica?"

"Imobiliário", disse ele sucintamente.

"Ah. E você gosta de ópera. Qual o período de que mais gosta, ou de que compositor?"

A expressão dele descontraiu um pouco. "Gosto de Puccini."

Surgiu-me uma vaga lembrança de estar sentada numa biblioteca de música há uma década a ouvir uma ópera que achei terrível. "Lembro-me de ouvir a Tosca uma vez, anos atrás", disse eu. "Achei tão exagerada."

Seguiu-se uma longa pausa. Atrás do advogado, os organizadores incitavam as pessoas a retomar os seus lugares.

"A Tosca é a minha ópera favorita", disse o advogado.

Era tudo tão deliciosamente horrível: a convivência, a forma como eu estava vestida, a futilidade de tentar encontrar alguém. Até quando tentei mostrar interesse por uma pessoa sem querer lancei-lhe um insulto.

Não consegui evitar, tive de me rir. "Sinto muito", disse-lhe. "Era provavelmente uma má gravação. Ou eu estava de mau humor naquela tarde."

"Sem dúvida", disse o advogado.

Retomámos todos os nossos lugares, anotámos devidamente os números de identificação das pessoas que nos tinham agradado e entregámos os nossos cartões com a pontuação. Em seguida, esperámos que o computador ordenasse os resultados.

Eu combinava com o advogado, cujo nome era Richard. Uma semana depois, tivemos um agradável jantar num restaurante italiano. Richard usava um outro fato impecável e eu estava de vestido. Perguntei-lhe: "Se não tivesse falado comigo durante a sessão de convívio teria escrito na mesma o meu número de identificação?"

"Oh, não", disse ele. "Eu nunca sairia com alguém com quem não tivesse pelo menos falado primeiro." Ele inclinou a cabeça, recordando. "Foi difícil para chegar até si, naquela noite."

É verdade, pensei, porque eu estava escondida na casa de banho.

"Você estava cercada por homens", continuou ele.

Estás muito enganado, pensei.

"Eu tive de passar por uma muralha de homens", disse ele.

Aí decidi optar pela honestidade. "Não havia nenhuma muralha de homens."

"Sim", insistiu ele, "havia!"

"Eu estava escondida na casa de banho", confessei.

"Havia uma muralha de homens."

Isso é provavelmente o início do amor: quando se vê alguém de uma forma que desafia a realidade mas que para nós faz todo o sentido.

No nosso segundo encontro fomos à Metropolitan Opera e vimos a Tosca. Saímos com a multidão para uma noite agreste de outono. As ruas laterais estavam quase vazias, mas nós os dois caminhámos, conversando animadamente sobre como Scarpia era mau e sobre o terrível destino que se abateu sobre Cavaradossi.

"É bonito da tua parte perdoares-me por ter insultado a tua ópera favorita", disse eu.

Richard encolheu amavelmente os ombros. "Pelo menos tu já tinhas ouvido falar dela."

Enquanto caminhávamos demos as mãos e conversámos sobre musicais. Sem saber como, demos connosco de volta à fonte, agora deserta, em frente à ópera. Era meia-noite.

"Canta alguma coisa de Rodgers e Hart," pedi-lhe.

Richard ficou a pensar. "Estou livre, de novo. Enfeitiçado, de novo. Uma criança tímida e mimada de novo", cantou.

Dois anos depois, casámo-nos. Mais de uma década depois disso, somos pais de uns rapazinhos gémeos de 10 anos.

Quando me pergunto como consegui ter tanta sorte, penso: Porque a minha vida na música não deu certo. Porque fui para uma Faculdade de Direito cara, embora não tivesse dinheiro. Porque precisava de um emprego bem remunerado. Porque o escritório de advocacia me atribuiu o Daniel como colega de gabinete. Porque o Daniel me enviou aquele e-mail.

Mas o principal, penso eu, foi ter deixado de me esconder na casa de banho antes que fosse tarde de mais.

Exclusivo DN/The New York Times

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