Rendas afastam jovens do centro histórico de Lisboa

Aos 25 anos Ana Lima não pôs a hipótese de comprar casa. Não só por razões financeiras, mas porque projeta que eventualmente o futuro pode não passar por Portugal

Entre os preços mais caros e o peso do alojamento local, é cada vez mais difícil arrendar casa no centro das grandes cidades

Ana Lima começou a procurar casa há oito meses. Foi vendo apartamentos, sem pressas, mas agora quer acelerar, pois para quem procura é evidente que os preços do arrendamento estão a subir e a dificultar a procura de autonomia. Um objetivo que cada vez se torna mais difícil pelos preços praticados, que acabam por "atirar" os jovens para zonas limítrofes da capital.

Em busca de um T2 para dividir, com um orçamento máximo de 650 a 700 euros, a jovem de 25 anos tem duas exigências: que a casa seja "dentro de Lisboa e com transportes". O "dentro de Lisboa" foi entretanto ganhando novos limites geográficos: pode ser Benfica, Lumiar, eventualmente Telheiras. Não será, por exemplo, o Saldanha: "As casas são caríssimas."

João Almeida, 27 anos, chegou à mesma conclusão noutra zona da cidade. Veio do Porto para trabalhar na Expo e tentou arranjar casa por perto. Sem sucesso: "Não encontrei nada viável no Parque das Nações." Estendeu a procura, mas teve dificuldades em encontrar um T1: "O que existe muito é nas franjas. Ou casas muito boas com preços muito elevados, ou casas com preços mais acessíveis, mas muito más." Acabou por desistir e instalar-se em casa de familiares. Da experiência nas duas maiores cidades diz que são realidades muito distintas: "No Porto o mercado é completamente diferente, os preços são claramente mais acessíveis. Em Lisboa os preços são muito elevados para alguém em início de carreira que quer viver sozinho."

Já Gabriel Silva tinha, desde o início, uma certeza. Ou se mudava para o centro da capital ou nem chegava a sair de casa dos pais, no Pinhal Novo: "Estava à procura de uma casa o mais central possível. Para ir para Benfica não ia para lado nenhum." Talvez pela determinação, transformou-se no que parece ser uma exceção à regra.

Do muito bom ao "inenarrável"

A procura deste jovem de 27 anos foi feita pela net, através de sites especializados. Garante que viu "imensas casas" de que gostou, mas "700 euros por um T0? Nem pensar". No polo oposto também viu "coisas de 400, 450 euros", mas a roçar o "inimaginável", "ninguém merece aquilo". Exemplo? "Vi uma casa perto do Marquês por 450 euros que era medonha, um buraco. Eram 50 euros e com sorte."

Foram cinco meses à procura, mas conseguiu o que queria. Instalado desde finais de abril num T1 perto do Saldanha, alinha pela mesma ideia: "Regra geral as casas são caríssimas." Sobretudo para o bolso de quem está a começar uma vida autónoma dos pais e a subir os primeiros degraus da carreira. Bolseiro de doutoramento, Gabriel nunca pôs outra hipótese que não a do aluguer. "Não me deixam comprar um telemóvel a prestações, quanto mais uma casa", diz entre risos. Mesmo para alugar um apartamento "a expressão bolsa de doutoramento assusta muita gente". Mas a questão financeira não é a única a ditar a opção pelo arrendamento. "Queria uma coisa provisória. Quero acabar o doutoramento e depois logo se vê."

Com um orçamento máximo de 600 euros, acabou por alugar um apartamento a 550, com 55 metros quadrados. Gabriel diz que está a pagar "mais a zona do que a casa" e admite que podia ter optado por uma solução mais barata: "Em Alcântara havia casas relativamente mais baratas, mas para mim a questão da mobilidade era importante." E quanto é que pesa a renda no orçamento? "Demasiado", admite. Com uma bolsa a rondar os mil euros mensais, os pais "ajudam bastante". Gabriel Silva diz ter "consciência de estar a brincar às casinhas", mas queria ter a experiência de viver sozinho. "Daqui a um ano, quando acabar o doutoramento, se calhar já não posso." Nada que o assuste particularmente: "O hipotético cenário de voltar para casa dos meus pais não me choca nada."

Mesmo que isso aconteça, Gabriel ainda estará abaixo da média de idade em que os jovens portugueses deixam a casa dos pais. Segundo os dados do Eurostat, o gabinete de estatísticas da União Europeia, os portugueses deixam a casa da família aos 29 anos, uma das médias mais altas da UE. Há, porém, um fator que faz antecipar em muito essa saída - os jovens que mudam de cidade para prosseguir os estudos na universidade.

Voltemos a Ana Lima. É o caso desta madeirense de 25 anos. Veio para Lisboa estudar, viveu num quarto em casa de uma amiga, agora que já trabalha (na área da gestão e marketing) anda à procura de um T2. Novamente para partilhar casa, que é o mesmo que dizer dividir renda e com a intenção de se candidatar ao programa Porta 65. Como no caso de Gabriel, Ana Lima não pôs a hipótese de comprar. Também por razões financeiras, mas não só - o futuro, pelo menos nos anos mais próximos, pode não passar por Lisboa, nem por Portugal. "Não tenho estabilidade financeira para comprar, mas além disso gostava de ter uma carreira internacional", conta ao DN, após uma visita a um T2 nas Laranjeiras.

Autónomos... mas não muito

Saida Morais é a agente imobiliária da Remax Cycle que está a tentar arranjar casa a Ana Lima. Já com mais de uma década de experiência, identifica características comuns neste tipo de cliente, jovens em início de vida autónoma. "Procuram rendas económicas, entre os 400, 500 euros, se for uma pessoa só. O que acontece com frequência é serem duas pessoas" - não necessariamente casais, mas amigos que partilham casa para dividir renda. Neste perfil há outros dois requisitos comuns: "Querem uma casa próxima de transportes, metro ou autocarro. E querem o apartamento mobilado ou pelo menos equipado."

Olhando para o mercado, Saida Morais reconhece as dificuldades de que falam os jovens. "Nesta faixa etária a procura é muito grande e não há assim tanta oferta." A grande dificuldade é encontrar casas a baixo preço, mas com condições aceitáveis, que não sejam um "buraco" como o caso apontado por Gabriel. A agente imobiliária ainda acrescenta outro dado à equação: "São jovens que vêm de casa dos pais, onde tinham boas condições, e não aceitam baixar muito." E, em muitos casos, podem estar a sair da casa dos pais, mas os pais não estão a sair da vida económica deles. Pai e mãe são habitualmente os fiadores (uma exigência que também é feita no arrendamento) e muitas vezes continuam a prestar ajuda financeira aos filhos.

Inês (que não quer dar o sobrenome) não tem essa ajuda porque os pais não têm capacidade financeira para isso, mas foi arranjando outras formas de fazer face às despesas. Boa parte dos ganhos e gastos desta jovem de 26 anos têm lugar na economia paralela. Saiu de casa há um ano, tinha então 25, para casa de uma familiar que emigrou, "foi uma sorte". A renda de 400 euros mensais é "preço de amigo". Como tinha um quarto livre, alugou-o a uma amiga: cem euros, "preço de amigo" também. Escusado será dizer que o fisco desconhece estas amizades e os valores que elas transacionam. Inês não tem problemas com isso, excetuando talvez o de ser "apanhada pelas Finanças". E ri-se, ri-se muito. Numa situação normal, de aluguer no mercado, nunca teria condições para alugar aquela casa. O resto são "pormenores".

"Há falta de casas em Lisboa"

Rui Brito Lança é vendedor na Preditur, depois de ter passado vários anos na Remax. Olhando para o mercado imobiliário atual, destaca duas evidências: "Há falta de casas em Lisboa para arrendar"; as rendas na capital "subiram muito e continuam a subir". Mas destaca que "há zonas da cidade que são muito mais baratas do que outras. Nas Olaias, nos Anjos, é possível encontrar preços mais acessíveis".
De acordo com dados da Confidencial Imobiliário, relativos ao último trimestre de 2015, os preços pedidos por metro quadrado em Lisboa (para arrendamento) alcançam o expoente máximo na freguesia da Misericórdia (mais de 12 euros) e o valor mínimo em Marvila (7,5). Uma especificação: são valores médios que assentam nas rendas pedidas pelos proprietários, que normalmente sofrem um decréscimo por negociação com o inquilino. Mas dão uma boa amostra do ranking das freguesias e da disparidade entre os locais mais centrais da cidade e os mais periféricos.

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