Partido da Terra contra árvores que atraem pássaros à 2.ª Circular

Projeto da Câmara de Lisboa está em discussão

Eurodeputado diz que segurança aérea está em risco e vai levar discussão a Bruxelas. Projeto sai do papel em junho

Vegetação na 2.ª Circular sim, mas não de uma espécie com folha caduca e capaz de atrair aves.

Para o Partido da Terra, ecologista na sua génese, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) deveria plantar naquela via endros em vez de lódãos-bastardos, que, a concretizar-se o projeto atual, representará 70% das árvores a florescer no novo separador central com 3,5 metros de largura. A explicação? A sua toxicidade, que repele os pássaros que, defende o eurodeputado do grupo com representação na Assembleia Municipal de Lisboa, podem vir a pôr em risco a segurança dos aviões na aproximação ao aeroporto. Ainda esta semana, José Inácio Faria questionará os comissários europeus dos Transportes e do Ambiente, Violeta Bulc e Karmenu Vella, sobre a intervenção em consulta pública até sexta-feira. Até ao último dia 15, a autarquia recebeu cerca de 250 contributos.

Foram duas as razões apontadas ontem pelo Partido da Terra para considerar que o lódão-bastardo - a árvore que os autores do projeto da 2.ª Circular defendem ser a ideal por se "adaptar bem em meio urbano" e tolerar "alguma poluição" - não deve ser a espécie que deve predominar na remodelada 2.ª Circular: o facto de ter folha caduca e bolotas que, ao caírem sobre a via, tornariam a estrada mais derrapante e de, pela sua quantidade, poder vir a atrair mais aves para perto do aeroporto da Portela. Raul Santos, especialista em ambiente do partido, sugeriu, por isso, a opção pelo endro, um arbusto com cores diversas que é tóxico para qualquer espécie de pássaro.

A recomendação foi apresentada ontem numa conferência de imprensa que contou com a presença do único eurodeputado do Partido da Terra, que se mostrou bastante crítico de um projeto que afirma ter sido "feito em cima do joelho" e sem que tenham sido consultadas entidades como a Associação de Pilotos Portugueses de Linhas Aéreas e e o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA).

José Inácio Faria revelou ainda que, durante esta semana, irá perguntar à comissária europeia do Ambiente "se sabe da existência de algum estudo prévio de impacte ambiental do projeto" e ao dos Transportes o que "acha de um projeto que pode pôr em risco a segurança aérea" em Lisboa.

Poucas horas depois, o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado (PS), escusou-se a comentar a intenção do eurodeputado que integra a bancada dos Liberais, mas reiterou, à entrada para um debate na Ordem dos Engenheiros (OE) sobre o projeto de remodelação da 2.ª Circular, que a questão está acautelada. "Não vamos plantar nada à volta do aeroporto", frisou, recordando que nas suas imediações até já existe, por exemplo, a Mata de Alvalade. O autarca adiantou ainda que reuniu já com o GPIAA, a ANA - Aeroportos de Portugal e a Navegação Aérea de Portugal, seguindo-se outras entidades do setor.

Ao todo, referiu ontem Manuel Salgado durante o debate, a CML recebeu entre 23 de dezembro e 15 de janeiro, cerca de 250 contributos no âmbito da discussão pública da intervenção que deverá começar a sair do papel em junho - 20% referiam-se à plantação de 570 árvores no separador central . A medida visa sobretudo dar um caráter mais urbano à via rápida percorrida, em média, por 105 mil veículos/dia.

Qualidade ambiental é objetivo

Ao todo, são três os aspetos que a autarquia pretende melhorar com a remodelação da 2.ª Circular, que prevê ainda a redução da velocidade máxima permitida de 80km/h para 60km/h e a reabilitação do sistema drenagem: a segurança dos automobilistas, a fluidez do tráfego e a sustentabilidade ambiental da estrada que atravessa a capital de nascente a poente.

Para Francisco Ferreira, do Colégio de Engenharia do Ambiente da OE, a plantação de espécies arbóreas não é, porém "muito relevante" quer quer no aumento da qualidade do ar quer na diminuição do ruído. As melhorias previstas dever-se-ão, respetivamente, a um menor "para arranca" e à repavimentação da via, à instalação de barreiras acústicas e ao menor volume de tráfego. A estimativa é de que, com esta intervenção, a redução no número de carros seja de cerca de 10% (850 veículos).

O eventual congestionamento quer das vias para onde estes serão desviados, como a CRIL e o eixo Norte-Sul, quer da própria 2.ª Circular foram alguns dos temas em destaque no debate promovido ao final da tarde de ontem pela OE. A intervenção está orçada em 12 milhões de euros (com IVA) e deverá ficar pronta em meados de 2017.

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