O difícil regresso à normalidade

As marcas do fogo estão na terra e na memória das pessoas. O humor pode ajudar a ultrapassar o trauma, mas os funerais reacendem o inferno
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A igreja de Castanheira de Pera encheu-se à mesma velocidade que o fogo galgou, nos últimos dias, as terras da região. Em breves minutos, milhares de pessoas encheram o espaço e o adro, prestando uma última homenagem a Gonçalo Conceição, 40 anos, o bombeiro da terra que faleceu no combate ao mais devastador incêndio de que há memória, mas que as gentes destas terras, paulatinamente, vão querendo esquecer, voltando à habitual pacatez do quotidiano. Mas até lá os funerais vão reavivando a memória.

Horas antes do funeral do bombeiro, quatro amigos repousavam tranquilamente no café A Élia, em Alvares, freguesia do concelho de Góis: dois irmãos reformados da Câmara de Lisboa, Silvino e Vítor Ladeira, mais um amigo da terra, José Martins, e um quarto que não quis partilhar o nome, temendo que alguém o pudesse chamar "para testemunhar qualquer coisa". O fogo fustigou-lhes as propriedades, sobretudo a José Martins. "Tenho 19 hectares, protegidos com um muro, mas mesmo assim o fogo saltou o muro e queimou as árvores e a vinha. Tive um prejuízo de 600 mil euros", começou por dizer, recorrendo, de imediato ao humor: "O que vale é que o vinho já estava no barril."

À medida que o tempo vai passando, a tragédia, o medo, a aflição vão dando lugar àquilo que uns chamam o "regresso à normalidade". Regresso esse que ainda terá de ser acompanhado. Segundo uma fonte da Proteção Civil no terreno, "mesmo depois do choque ter passado é preciso acompanhar estas pessoas, porque haverá sempre momento de quebra, apesar da força que até agora têm revelado".

Aqueles quatro amigos preferem, porém, não recordar o passado recente como uma fatalidade, mas sim como um simples episódio das suas vidas: "Na noite de sábado para domingo, a minha mulher não me falou toda a noite...", disse Martins, ao mesmo tempo que era interrompido por Vítor Ladeira: "Não falou porque não estiveste com ela." Martins continuou no uso da palavra. E já que Vítor lhe tinha espetado uma alfinetada, resolveu dar a bicada ao irmão, Silvino: "Ele estava com a mangueira virada para um lado, se não fosse eu a avisá-lo que o fogo estava nas costas...", mais gargalhada. No meio da boa disposição pós-incêndio, ainda houve lugar para mais uma história: conta-se que num dos dias dos incêndios decorria um velório na freguesia de Cadafaz, ainda em Góis. "O fogo começou a chegar lá, toda a gente fugiu, deixando lá o homem", rematou Martins, provocando mais um momento animado. "Sabe", concluiu com a concordância de todos, "perdemos dinheiro, podíamos ter perdido mais, podíamos ter perdido as casas, mas o corpinho está cá". "Isso é o que interessa."

De facto, o corpo de cada um daqueles quatro estava lá, até bem conservado para idades entre os 67 e 70 anos. O que o fogo deixou, além das 64 mortes, foi uma transformação radical da paisagem. De Colmeal, passando por Sobral da Benedita a Casal da Silva, Castanheira, todas no concelho de Góis, o cinzento queimado é agora a cor dominante. Ainda ao fim da manhã de ontem, os bombeiros combatiam um incêndio entre Moradias e Colmeal. O vento puxava as chamas, a água dos autotanques escasseava. Pelo rádio, pediam-se meios. Do outro lado da linha, ouvia-se: "Espinho está com menos um, Esmoriz também, São João da Madeira está completamente arruinada."

No terreno, um grupo de bombeiros desesperava. O fogo aproximava-se da estrada, puxado pelo vento. Um operacional da corporação de Alcabideche explicava ao DN: "Vocês dizem sempre que é o vento, mas é o próprio fogo a criar o vento, porque o ar quente sobe, fazendo que se forme uma massa de ar frio por baixo." À tarde, finalmente, o incêndio estava dominado.

Mas se a tragédia teve uma dimensão brutal, a resposta solidária também. Isto mesmo vincou o bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, na homilia do funeral do bombeiro da Pampilhosa da Serra. "A solidariedade, a proximidade foram as lições mais importantes que retiramos", disse, referindo-se à mobilização da sociedade no auxílio às vítimas dos incêndios.

Presidente da República, Marcelo rebelo de Sousa, presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, primeiro-ministro, António Costa, e os líderes partidários Pedro Passos Coelho, Assunção Cristas e Jerónimo de Sousa participaram nas cerimónias, assim como o deputado do Bloco de Esquerda José Manuel Pureza.

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