O bairro, que é uma aldeia, vive entre o antigo e o trendy

Bairro tem mais de 22 mil habitantes

Moradores e comerciantes sublinham a vida de bairro e estão orgulhosos com a sua popularidade. Queixa só há uma: o estacionamento, que o presidente da junta quer melhorar com mais parques e mais transportes públicos

O movimento nas ruas é contínuo e as esplanadas e jardins estão cheios. Quem passa na rua espreita para dentro das lojas e vai cumprimentando quem está atrás do balcão. É "uma aldeia dentro da cidade e temos aqui de tudo", descrevem os moradores. Campo de Ourique está, sem dúvida, na moda - não é de hoje, é certo, como lembra o presidente da junta de freguesia -, tanto que é uma das áreas mais dinâmicas de comércio de rua e tem um dos metros quadrados mais caros da cidade. A maior valorização dos preços das casas aconteceu nesta zona de Lisboa, onde o preço médio se situa nos 4958 euros/metro quadrado, segundo um estudo da consultora Prime Yield, apresentado no início do mês, em Londres.

Os moradores mais antigos vão dando conta destes aumentos e falam dos estrangeiros que agora por aqui moram e os mais recentes lamentam não ter dinheiro para comprar e terem de se limitar a arrendar. Nada que os faça perder o encanto por Campo de Ourique.

O próprio presidente da junta, Pedro Cegonho (PS), fala da necessidade de "haver um mercado de alojamento que permita que todos possam viver na cidade" e que os preços devem ser diferenciados para quem está à procura de uma habitação permanente e quem pretende um arrendamento temporário para turismo.

Mas o problema mais sério da freguesia de mais de 22 mil habitantes é o estacionamento. "Sabemos das dificuldades e estamos a criar novas formas de estacionamento e a investir mais nos transportes públicos. Temos em perspetiva, com a EMEL, a inauguração de um parque com 250 lugares junto às piscinas e noutros locais podem ser feitos parques mais pequenos, para 60/70 carros. Ainda assim, isso não será suficiente e sabemos que a solução passa por explorar o transporte público", explica o autarca.

Sérgio e Luísa nasceram e moram no bairro

Apesar das queixas sobre a dificuldade de estacionamento, os moradores admitem ter-se adaptado e arranjado alternativas. Sérgio e Luísa Gomes arranjaram uma garagem para deixar o carro e Catarina e Higor optam por usar o táxi ou a Uber quando saem à noite.

Dos nados e quedos aos recém-chegados

Sérgio Gomes nasceu em Campo de Ourique, há 72 anos, o mesmo para a sua mulher Luísa Gomes, de 65. Apesar disso, não foram as ruas planas do bairro que os juntou. "Eu vivi em Moçambique e ele foi lá fazer a tropa", foram os únicos anos em que estiveram longe do seu bairro natal. "Somos nados e quedos aqui", sublinha Sérgio. Um orgulho que faz que o casal ainda hoje more na mesma casa para onde ele se mudou aos 9 anos.

Mais recente é a experiência de Catarina Machado. De Aveiro, veio estudar para Lisboa, mas nessa época vivia em Alvalade. Campo de Ourique estava-lhe, no entanto, no sangue. "Os meus avós viveram aqui e lembro-me de a minha avó contar que era vizinha de Fernando Pessoa, ela era miúda e ele era já um senhor. Eles falavam-me do Canas e a mãe do meu avô era a florista da rua."

Catarina e Higor mudaram-se em 2012

Catarina, de 38 anos, comprou casa na Rua da Páscoa, em 2010. Dois anos depois, mudava para a casa onde agora mora com o marido e o filho, mais no centro do bairro. "Sempre achei piada ao bairro e na altura comprei a casa de que mais gostei", recorda. Na mudança, "já não deu para comprar" e mesmo arrendar "não fomos para as casas maiores". Catarina e Higor conseguiram mesmo assim um achado. Pagam 650 euros por um T2+1. "Temos a noção de que tivemos imensa sorte." Por isso, hoje sair de uma zona da cidade, onde "se faz vida de bairro", que "não é fechada", só se precisar de uma casa maior e não conseguir pagar as rendas de Campo de Ourique.

Também Sérgio e Luísa não compraram casa. "Já era alugada pelos meus sogros e quando quisemos comprar o senhorio não quis vender. Hoje, não teríamos dinheiro para comprar", refere o casal de ex-tripulantes da TAP e pais de Duarte, que os acompanha na vida de bairro, tal como o cão Dóri.

Para Sérgio não há dúvidas de que vive "no centro da capital do império". "Tem tudo, há bom convívio, amizade, todos se conhecem. É uma aldeia dentro da cidade. É um bairro seguro, arejado e fresco." Há 60 anos, alimentava os bichos-da-seda com as folhas das amoreiras que ornamentavam as ruas, "hoje já não existem", lamenta. Mas "recomendaria Campo de Ourique a qualquer pessoa".

A barbearia moderna e os livros com séculos

A alfarrabista Crissálida Filipe tem a loja desde 1986

Crisálida Filipe foi a primeira mulher alfarrabista em Portugal. Ocupou o espaço na Rua Saraiva de Carvalho, em 1986. Uma época em que "não era bem vista pelos homens da área". A loja que tinha era suposto ser papelaria e livraria, mas Crisálida estava à procura de uma alternativa. No Canadá já tinha o gosto pelas antiguidades e um dia um cliente disse-lhe que a loja era excelente para ser alfarrabista.

E assim nasceu o negócio de Crisálida, que aos 62 anos quer trabalhar "até aos 70". Na sua loja tem livros "de um euro até aos 50 mil". Especializou-se em livros de Direito, nas ex-colónias de África, mas o grande tesouro que nos mostra é uma coletânea com poemas, textos e desenhos de nomes ilustres da cultura do século XIX. "Este livro era da esposa de um diplomata espanhol que viveu em Lisboa em 1800 e tal e fazia serões literários. Tem poemas de Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, D. Pedro de Alcântara, desenhos de Thomaz da Anunciação ou [Luís] Tomazini." Está à venda por 50 mil euros, depois de Crisálida ter gasto 700 euros na sua restauração. São estas relíquias que a deixam orgulhosa, mas são os livros técnicos mais antigos que atraem os clientes habituais. "O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa era meu cliente, estava sempre a dizer que dava uma volta por Campo de Ourique passando pelo alfarrabista. Agora ganhei um Presidente e perdi um cliente", brinca.

A sua loja é já um clássico do bairro, que "tem tudo". "Já não saio daqui há imenso tempo, saímos à rua e há de tudo. É um bairro muito tranquilo e as pessoas conhecem-se", elogia Crisálida, que para aqui veio morar em 2011.

Quem achava que ainda faltava alguma coisa ao bairro foi Unique. O barbeiro tem duas barbearias: uma em Campolide e outra em Campo de Ourique. Decidiu lançar-se a solo no negócio e em dezembro inaugurou o espaço de Campo de Ourique. A dividir o tempo entre os espaços, quem estava na barbearia era Michael que não teve mãos a medir. Um bom prenúncio do que Unique considera ser "uma experiência muito positiva, até agora".

Michael trabalha na Barbearia do Mercado, aberta desde dezembro

Pelo barbeiro passam "muitos locais, mas também muita malta que procura um barbeiro com pinta, que sabe fazer um fade, que é um dégradé, do mais curto para o maior e fazer barbas que também é muito trending", explica.

O novo mercado é o espelho do bairro

Inaugurado há três anos e meio, o mercado é o coração do novo bairro. E ao mesmo tempo o espelho de tudo o que se passa lá fora: integra o novo e gourmet com o tradicional. Se António Barros chegou ao balcão do Al Dente há dois anos e meio, Maria de Fátima Brito está atrás da banca da fruta há 44. Tinha 20 anos quando aqui chegou, diz.

António e Maria de Fátima trabalham no mercado. Ele desde 2014, ela há 44 anos

Viu o mercado nos tempos áureos, depois viu-o cair no esquecimento e agora ganhar nova vida com os bares e restaurantes. "Temos outro horário, mas há sempre gente, esta mudança foi muito boa", defende. Antes tinham só clientes do bairro e agora já têm de fora, pessoas que vêm pelos restaurantes.

António também vê as diferenças na vida que o mercado traz a Campo de Ourique. "Isto está sempre cheio, é um espaço descontraído e familiar e temos sempre gente."

Talvez por estar sempre ocupado, António não passeia muito pelo bairro. Já Maria de Fátima Brito nem saberia fazer vida no seu bairro, Marvila. "As compras que faço é aqui, nem conheço o bairro onde moro", diz. Lamenta já ter perdido muitos clientes, "eram pessoas mais idosas", mas alegra-se por ver que "os mais novos já gostam de vir fazer as compras ao mercado".

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Sociedade
Pub
Pub