"Não existe regulamentação da Internet, são precisas leis para isso"

O sociólogo francês Dominique Wolton esteve em Lisboa para falar dos problemas que as novas tecnologias colocam à comunicação. Em entrevista ao DN, critica o "poder tirânico" das grandes empresas que controlam a internet. Dentro de cinco a dez anos, diz, os utilizadores vão começar a revoltar-se contra esse "império"

Diz que há um paradoxo entre a informação e a comunicação. Que paradoxo é esse?

Durante séculos, informar era comunicar. A grande rutura deu-se nos séculos XIX e XX, com uma enorme explosão da informação e das novas tecnologias, que as democracias e a liberdade de informação favoreceram. Hoje há muita informação, mas isso não é comunicação. É esse o paradoxo. Com as novas tecnologias e a internet, as pessoas passaram a filtrar a informação e cada vez mais a comunicação está nas redes sociais. Mas uma sociedade é muito mais do que isso.

A internet precisa de mudar?

É preciso que a internet saia da comunidade das redes sociais para se interessar pela comunicação mais alargada, em sociedade. Na rádio, na imprensa, na televisão, a lógica é a oferta de informação e abranger todos os públicos. A internet tem uma lógica de procura, cada um só procura o que quer. A internet tem de passar da comunicação das redes sociais à comunicação em sociedade.

E como é que isso vai acontecer?

Por um lado, os media tradicionais têm de conservar o seu papel. Quanto à internet, temos de deixar de pensar que basta difundir mensagens. Tem de haver uma reflexão, e tem de ser feita pelos internautas. Hoje, o que é preocupante, é que há muito mais tecnologias, mas a diversidade do que é produzido e difundido é escassa. É uma espécie de falhanço: muitas tecnologias, muita informação, mas menos comunicação. Isto é um problema político.

Qual é a solução?

Os internautas e os media têm de compreender que existe esta contradição entre a proliferação das tecnologias e a falta de diversidade da informação veiculada. Têm de de alargar a diversidade. Senão há o risco de as pessoas e os povos lhes voltarem costas, por não se reverem neste espaço de comunicação generalizada.

Isso cria riscos, já o disse. Que riscos são?

Um deles é o da saturação de informação e ausência total de comunicação: ainda não chegámos lá. Outro é o de as comunidades das redes sociais se fecharem totalmente sobre si próprias. Um terceiro risco é o da diminuição da diversidade de informação, e já lá estamos. Toda a gente fala das mesmas coisas, na mesma altura e da mesma forma.

O que ensina a história sobre essas situações, em que falha a comunicação nas sociedades?

Diz-nos que não existe vontade política de organizar essa diversidade, e a economia capitalista também não vai fazê-lo porque não está interessada nela, mas no dinheiro. É necessária uma intervenção política. Nos media é preciso preservar a diversidade da programação e obrigar os media privados a fazerem não apenas dinheiro, mas a difundir programas que talvez não tragam muitas audiências mas que têm importância social. Na internet, essa intervenção política deve tornar obrigatória a reprodução de informação de carácter social, e não se depender só dos internautas. É preciso que esse espaço entre os media e a internet seja mais alargado e não cada vez mais estreito e rentável. Não se faz dinheiro com o grande público, mas é o grande público que faz a democracia. Há aqui um problema político.

Mas a internet é um espaço de liberdade.

É um espaço de liberdade de expressão, mas isso não é comunicação. Comunicação é o recetor estar interessado no que diz o emissor. Posso não estar de acordo com o que diz, mas respondo, e há uma discussão. Na internet, na maior do tempo não há discussão. Cada um conta a sua vida, mas não é porque toda a gente se exprime que toda a gente comunica. Cada um está só e podemos chegar a uma situação em que há seis mil e 500 milhões de internautas autistas. Há aqui um desafio político e cultural. Ou, então, o capitalismo vai prosperar com a internet e com as novas possibilidades dos big data, a partir dos quais as grandes corporações vão ficar a saber dos gostos de cada um e dar--nos todos os programas de que gostamos no nosso smartphone.

E qual é o antídoto?

É uma questão de vontade política. Não existe regulamentação da internet e são precisas leis nesse sentido.

Os dirigentes políticos de hoje estarão dispostos a isso?

Não. Ainda estão fascinados com a ideologia tecnológica. O que vai obrigá-los a ter consciência desta questão é talvez uma revolta dos utilizadores, sobretudo dos jovens. Mas, acima de tudo, vamos compreender que o poder das GAFA - Google, Apple, Facebook e Amazon, os quatro grandes atores da sociedade numérica - é tirânico. Conseguem traçar toda a informação da nossa vida privada e pública. Esse império da informação vai obrigar à reflexão. Quem é mais democrata, Snowden, que revelou que os Serviços Secretos americanos usam essa informação, ou as GAFA, que guardam todas as informações sobre nós e não nos dizem?

O que responde a isso?

Snowden é mais democrático, porque coloca um problema político: porque é que o Estado tem o direito de ter todas essas informações? Ele põe a questão em relação ao Estado, mas é preciso fazê-lo relativamente às empresas. Porque é que as GAFA podem ter todas essas informações sobre a nossas vidas? É uma questão política.

Pensa que haverá um debate sobre isso?

Sim. A democracia avança por passos. Vai haver escândalos e crises, com muitos mais casos como o de Snowden e Assange. Vamos aperceber-nos de que toda a traçabilidade da informação na internet é uma loucura. Não é grave, porque isto não pode durar muito, mas neste momento há toda uma geração entre os 15 e os 40 anos que está totalmente rendida à internet.

E quando poderá isso mudar?

A revolta poderá levar entre cinco e dez anos. As pessoas farão outras redes não numéricas e vão fazer campanhas a exigir leis para proteger a vida privada na internet e exigir às GAFA que paguem muito mais dinheiro. Pode haver um controlo democrático da internet se houver essa vontade.

Tem Facebook?

Estou no Linkedin, porque é útil profissionalmente. No Facebook não. Não tenho tempo nem interesse. Mas o sucesso do Facebook e da internet interessa-me imenso, trabalho sobre isso. Se as pessoas passam tanto tempo à frente de ecrãs é porque estão sós e infelizes. Esta hipertecnicização da sociedade é um sintoma de tristeza. Somos livres, mas estamos sós.

E para agravar tudo, este é um momento difícil do mundo, do ponto de vista político.

Sim, há a tirania financeira e das armas e as questões da globalização. Os povos querem a globalização, mas também querem conservar as suas identidades, os seus símbolos e património, e neste momento ela funciona sobretudo para a estandartização. Haverá muitos conflitos políticos por causa disso. Equilibrar as duas coisas é uma batalha política para amanhã.

Como vê, nesse sentido, a União Europeia?

É a maior utopia política da história do mundo. Os europeus detestam-na, dizem que falhou e criticam a burocracia. Mas é excecional que 28 países tenham decidido livre e democraticamente cooperar entre si. Não funciona muito bem, mas nunca na história do mundo, nem em nenhum outro sítio, houve esta vontade política.

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