Mentes que brilham: como se faz um "olímpico" na Matemática

Olimpíadas. Até amanhã, em Viseu, Portugal elege os seus melhores, num desafio com cada vez melhores resultados internacionais

À primeira vista, Henrique Navas e Manuel Cabral têm pouco em comum. O primeiro é tímido, reservado, ponderando nas respostas e poupado nas palavras. O segundo talvez também tenha uma ponta de timidez, mas disfarça-a eficazmente com piadas ocasionais e uma resposta pronta para todas as perguntas.

"A melhor forma de me descrever é dizer que, quando olham para mim, as pessoas pensam que sou um daqueles alunos de 17 anos que ainda estão no 10.º ou no 11.º ano, porque estão demasiado entretidos a fazer outras coisas além de estudar", brinca.

Não é verdade, claro. Embora garanta que, de facto, tem todos os interesses de um adolescente típico da sua idade, nunca teve o menor percalço na escola, e caminha para acabar o secundário com uma média na casa dos 19 valores, que lhe dará livre acesso a praticamente qualquer curso superior do país.

Já tem uma ideia do que quererá fazer: "A maior parte dos alunos que participam nas Olimpíadas acabam por ir parar a [Instituto Superior] Técnico. Estou inclinado para as Engenharias, quase de certeza a Aeroespacial".

Henrique, com um percurso escolar igualmente brilhante, tem menos certezas em relação ao futuro. "Ainda estou a ponderar. O que me apetecia mesmo fazer era continuar a estudar Matemática", admite.

É claramente com os números - não tanto com as palavras - que este último se sente mais confortável. E, talvez por ter esse foco mais acentuado, é ele, entre os dois, quem mais perspetivas de sucesso tem nas finais nacionais das Olimpíadas, que decorrem, até este sábado, na Secundária Emídio Navarro, em Viseu.

Entra em provas "há cinco anos", começou logo no sétimo ano de escolaridade, já não tem muitos desafios a superar a nível nacional. Ganhou uma medalha de ouro, nas finais nacionais do ano passado, e atingiu duas a "Meca" almejada por todos os participantes destas provas, representando o País nas Olimpíadas Internacionais da Matemática OIM). No ano passado, regressou de lá com um diploma de mérito. É um dos nomes a que os juízes estarão mais atentos."Pela forma como as coisas correram no passado, é verdade que sinto uma certa pressão de chegar ao ouro, para não baixar o nível", admite.

Manuel esforça-se por aparentar maior descontração. Garante não atribuir "muita importância" aos títulos. Já ganhou medalhas, nomeadamente a nível nacional, que estão "guardadas numa gaveta no quarto", e tem também um diploma de mérito da sua prestação do ano passado nas Olimpíadas Ibero-americanas - que juntam participantes da Península Ibérica e dos países da América Latina -, misturado com um monte de apontamentos e enunciados antigos que tem guardados num dossiê. Mas não consegue esconder o sonho de imitar os passos do colega de prova, chegando à OIM.

"Nem falo em ganhar uma medalha mas participar numas olimpíadas internacionais, talvez conseguir um diploma de mérito, está na cabeça de qualquer pessoa que entra nestas provas", assume. "Quando comecei, lembro-me de achar que toda a gente que ali estava era melhor do que eu. Depois, quando consegui os primeiros resultados, passei a pensar que afinal talvez conseguisse alguma coisa. Depois, comecei a querer ver onde chegava".

Henrique e Manuel não são assim tão diferentes. O que têm em comum, e os leva a estarem entre os estudantes, do 7.º ao 12.º ano, candidatos a uma das 36 medalhas disponíveis, numa competição que começou com mais de 40 mil participantes - todos eles excelentes alunos a Matemática - é aquela aptidão inata, a que podemos chamar de talento. O que os move, mais do que competição com os outros, e a vontade de continuarem a testar os próprios limites.

Contas desde o pré-escolar

Ambos começaram a aprender matemática, por iniciativa própria, muito antes de chegarem à escolaridade obrigatória. "Muitos dos meus colegas do pré-escolar gostavam de desenhar. Eu, talvez porque sempre tive algumas dificuldades nessa área, virei-me para os números e para as letras. Ultimamente são mais os números", conta Manuel.

"Os meus pais não são da área, não é uma coisa que me tenham tentado incutir", acrescenta Henrique. "Sempre gostei de matemática. Ao início, como tenho um irmão mais velho, pedia-lhe para me explicar algumas coisas. Depois continuei a querer aprender".

Significa isto que a Matemática é fácil para eles? Depende. Na escola, assumem, nunca sentiram dificuldades de maior. Mas nas provas das Olimpíadas o desafio é elevado a outros patamares. E não há genialidade ou talento que cheguem. É mesmo preciso trabalhar muito. Antes e durante o desafio.

"Lembro-me que, da primeira vez que olhei para os problemas, na primeira prova em que participei, pensei: "Nunca vou conseguir resolver isto", confessa Manuel. "Nas provas da escola, quando olhamos para as perguntas, sabemos a que áreas estas dizem respeito, e como se resolvem os problemas dessas áreas. Nestas provas há muito menos informação. São três perguntas, para provas que chegam a durar quatro horas, e nós fazemos o resto", acrescenta, arriscando usar a palavra "criatividade" para descrever o esforço que é exigido aos participantes.

"Nas provas da escola as coisas são um pouco mais mecânicas. Aqui, é claro que é preciso perceber para conseguir resolver o problema. É preciso fazer bem todos os passos", explica Henrique. "Mas muitas vezes, para resolver, é preciso ter uma ideia nova".

A experiência de participações antigas é uma vantagem na altura de preparar uma prova. Há conteúdos de edições anteriores que podem ser consultados "online", a própria Sociedade Portuguesa de Matemática, com a Universidade de Coimbra, organiza estágios do projeto Delphos para preparar os finalistas (ver entrevista) e há muita troca de informação entre os participantes. "Acabamos por nos conhecermos todos e vamo-nos ajudando uns aos outros", confirma Manuel.

Na altura das finais, no entanto, o desafio é solidário. E a experiência não basta para garantir o sucesso. "Às vezes ficamos nervosos. Às vezes ficamos presos a uma ideia e ela não funciona. É sempre difícil sair de uma ideia", conta Henrique.

Provas perfeitas

Olhando para o currículo de Miguel Moreira, atual estudante de Matemática Aplicada e Computação - no Técnico, pois claro - dir-se-ia que pelo menos para alguns alunos as coisas vêm mesmo com naturalidade.

Finalista de provas nacionais desde o 9.º ano - estreando-se logo com uma medalha de bronze -, medalha de prata nas Olimpíadas Internacionais de 2012, de ouro em 2013, e há três anos consecutivos medalha de ouro nas Olimpíadas Universitárias Ibero-americanas, com provas consideradas perfeitas pelos juízes, garante que nada disto aconteceu com facilidade. "Foi sempre com muito trabalho e numa perspetiva de desafio pessoal", diz o estudante, que atualmente integra as equipas de monitores que acompanham os participantes das Olimpíadas.

É verdade: também começou a fazer contas "no pré-escolar", sempre gostou da disciplina e sempre teve boas notas. Mas antes de conquistar "com sorte" a medalha de bronze no nono ano, garante, "não conhecia assim tanto a disciplina. Foi nessa altura que entrei para o Projeto Delphos e deram-me a oportunidade de aprender matemática um bocadinho mais a sério do que a que era dada na escola".

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