Consumo de ecstasy é cinco vezes maior do que em 2013

O consumo de droga está a aumentar em Lisboa, revelam análises feitas aos resíduos de esgotos em 50 cidades da Europa

O consumo de droga em Lisboa está a aumentar e a capital é a 16.ª cidade da Europa onde mais se consome cocaína. Também o ecstasy registou uma subida extraordinária em 2 anos: quintuplicou e tornou-a a 19.ª numa lista de cerca de 50 cidades da Europa onde mais se recorre a este estimulante. Muito à frente do Porto (30.º) e de Almada (41.º).

Estes dados surgem no mais recente relatório do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência onde são publicados os resultados de análises efetuadas às águas residuais de 67 cidades de todo o mundo - 43 delas de 17 países da União Europeia. De acordo com esse trabalho, Lisboa era, em 2015, a 16.ª cidade com maior consumo de cocaína na Europa (21.ª em 2013), a 37.ª no que diz respeito às anfetaminas (39.ª em 2013) e a 19.ª no ecstasy (29.ª em 2013). Os resultados agora conhecidos mostram que Londres é onde se consome mais cocaína, Antuérpia lidera nas anfetaminas e Amesterdão no ecstasy.

Em Portugal foram analisados os esgotos de Lisboa, Almada e Porto (nesta, os exames de 2015 foram os primeiros). E os dados obtidos mostram que é na capital que mais se consome cocaína e ecstasy, com os resultados a mostrarem uma grande diferença em relação às duas outras cidades. Segundo as amostras recolhidas na Estação de Tratamento de Águas Residuais de Alcântara pelos técnicos da delegação sul do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, em parceria com a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, os resíduos de ecstasy encontrados mostram que em dois anos a presença desta droga nos esgotos aumentou cinco vezes: de 4,8 miligramas por mil pessoas/dia em 2013 para 22,9 miligramas por mil pessoas/dia no ano passado. Já no que diz respeito à cocaína passou-se de 106,8 miligramas por mil pessoas/dia em 2013 para 264,3 miligramas por mil pessoas/dia no ano passado.

Perante estes dados é possível concluir que o consumo de droga na capital está a aumentar e que regista valores muito superiores ao Porto (92,4 miligramas por mil pessoas/dia e o 29.º lugar) e Almada (63,8 miligramas por mil pessoas/ /dia e a 30.ª posição).

"A análise das águas residuais permite-nos perceber qual a quantidade de droga consumida em determinada comunidade, permitindo também perceber os dias da semana em que há maior consumo e a sua distribuição geográfica", explica ao DN Liesbeth Vandam, coordenadora do estudo. Com esta radiografia é possível perceber tendências e mudar, se necessário, políticas de tratamento e de saúde públicas neste âmbito, frisou.

As duas drogas detetadas são estimulantes, por isso a sua elevada presença em zonas de maior concentração de bares e discotecas. Também não é alheia a estas características o facto de ser ao fim de semana que aumenta o consumo destes estupefacientes.

Uma ideia que também é defendida por João Goulão, o responsável pelo Serviço de Intervenção nos Comportamento Aditivos e nas Dependências. "São ETAR situadas junto de zonas de diversão noturna, daí o aparecimento dos estimulantes. A cocaína e o ecstasy são substâncias associadas a diversões noturnas", recorda o responsável. Destacando a importância deste tipo de estudos. "Esta [a recolha de dados baseada em amostras de águas residuais] é mais uma fonte de identificação, muito interessante, que surge como complemento de outras fontes. Para conseguirmos intervir nesta área que está em permanente mutação temos de usar várias informações. Para termos uma fotografia tão nítida quanto possível. E é uma área promissora para a identificação de tendências e novas substâncias", frisou.

E é essa importância ao nível da monitorização dos consumos e tendências que Liesbeth Vandam também destaca: "A possibilidade de termos resultados quase em tempo real sobre os padrões de consumo é relevante pois ao detetar mudanças podemos ajudar os serviços de saúde e tratamento a melhor responder às tendências emergentes e a mudar as necessidades de tratamento."

Europa dividida

Efetuado em março do ano passado, o estudo mostra uma Europa dividida: a cocaína é consumida principalmente na Bélgica, Reino Unido e Holanda, enquanto as anfetaminas são as drogas preferidas no norte. O ecstasy reina na Bélgica e Holanda. A coordenadora do estudo explicou ao DN essas diferenças e a sua comparação com Lisboa: "As análises mostram que em Lisboa o consumo é maior em comparação com capitais ou grandes cidades do norte e leste europeu (incluindo Oslo, Helsínquia, Atenas e Bratislava), mas já é menor quando comparado com Londres, Amesterdão ou Bruxelas. Já o uso de anfetaminas e MDMA [ecstasy] é mais baixo quando comparado com a maioria das outras capitais europeias."

Outra tendência que surge em Portugal e que confirma os dados já conhecidos é que as maiores cidades de um país têm consumos mais elevados. "Isto pode ser explicado, em parte, pelas diferentes características sociais e demográficas das cidades, como a distribuição etária, as áreas de diversão noturna, etc.", acrescentou Liesbeth Vandam.

Maior consumo ao fim de semana

Os dados recolhidos, que, como frisou ao DN o professor da Faculdade de Farmácia Álvaro Lopes, são "objetivos", mostram que em Lisboa houve um forte aumento nos níveis de cocaína e de MDMA detetados nas águas residuais. "Vimos cargas mais elevadas entre sexta e segunda-feira. Isso está relacionado com o facto de os estimulantes serem utilizados principalmente durante eventos musicais e em contextos de festas. Além disso também pode estar relacionado com uma maior pureza do ecstasy e uma maior disponibilidade de droga", concluiu.

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