E se as compras no bairro fossem feitas numa moeda local, que até pode ir buscar ao banco, ou que lhe chega a casa como "prémio" anual por reciclar o lixo ou denunciar à junta os buracos nas ruas? Esta é a proposta que um grupo de moradores do Areeiro apresentou à junta de freguesia como forma de dinamizar a economia local e promover comportamentos cívicos..Rui Martins, primeiro subscritor da proposta dos Vizinhos do Areeiro - assim se chama o movimento informal que lançou a iniciativa - sublinha que a criação de uma moeda própria "não é ilegal" e foi aliás uma prática bastante seguida em Portugal nos anos 1920. A proposta sugere que a moeda seja "desenhada por um artista local", com um nome votado pelos residentes no Areeiro. A nova divisa poderia ser adquirida "por 95 cêntimos cada unidade" (uma forma de incentivo à aquisição) na junta ou nos bancos com balcões no bairro que aderissem ao projeto. Seria usada nas lojas locais aderentes, com "câmbio direto para o euro"..A moeda local poderia também ser obtida de "forma gratuita como pagamento de comportamentos cívicos". Ou seja, cada residente na freguesia ia acumulando créditos, que no final do ano seriam convertidos em moeda local. Por exemplo, com a denúncia de situações como lixo na via pública, sujidade ou danos em passeios, anomalias em jardins ou bancos. A mesma recompensa seria atribuída "contra a entrega de materiais (lixo) recicláveis nos postos de recolha de lixo em atividade na freguesia"..Esta última vertente do projeto foi recentemente posta em prática na Freguesia de Campolide e Rui Martins admite, aliás, que este foi o "gatilho" para a iniciativa, noticiada pelo jornal online O Corvo, "surgir agora", numa versão "híbrida" e mais alargada..Campolide vai duplicar moeda.Passadas as primeiras semanas sobre o lançamento do projeto de Campolide - em que é possível trocar lixo por moeda local -, o presidente da Junta de Freguesia, André Couto, diz ao DN que as três mil notas de "lixo" já impressas (equivalentes a um valor monetário de três mil euros) já estão quase totalmente em circulação, pelo que a junta já está a preparar uma segunda emissão de mais três mil notas. A iniciativa "está a superar as expectativas", diz ao DN o autarca, defendendo que enquanto incentivo à reciclagem "está a mudar mentalidades". E André Couto sublinha que "há comerciantes que já começam a gastar o lixo [leia-se as notas] noutras lojas". "É um efeito engraçado, que mostra que a moeda já vai circulando com autonomia.".Moeda local. É possível?.A experiência proposta no Areeiro é mais ampla, mas será exequível? Cláudia Soares é investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, especializada em finanças solidárias e desenvolvimento local. Ao DN, diz que a moeda local é um "instituto que pode ser muito interessante" pela capacidade de estimular uma economia local. Cláudia Soares explica que "a moeda [nacional] tem tendência a acumular-se onde há mais atividade económica", ou seja, "concentram-se mais recursos onde eles já existem". Já uma moeda local não sofrerá esse feito, mantendo-se em circulação estritamente dentro de um espaço geográfico e de uma comunidade..A investigadora sublinha que é necessária "alguma dimensão e diversidade do público-alvo" (no sentido em que tem de integrar produtores/prestadores de serviços e consumidores) para avançar com uma experiência deste género. E sublinha um elemento essencial para o sucesso de uma experiência deste género, "confiança".