Espécie humana tem mais cem mil anos do que se pensava

Cientistas descobriram em Marrocos os fósseis mais antigos de sempre de Homo sapiens. O achado põe em causa a noção de que espécie humana surgiu na África Oriental há 200 mil anos e mostra que ele passou por um processo evolutivo que envolveu todo o continente africano

Uma equipa internacional de cientistas fez um achado surpreendente numa gruta de Jebel Irhoud, em Marrocos, entre a cosmopolita cidade de Marraquexe e a costa atlântica marroquina. Trata-se de um conjunto de fósseis de Homo sapiens - a nossa espécie - que datam de há cerca de 300 mil anos. Eles são agora os mais antigos que se conhecem e a sua descoberta faz recuar em cem mil anos o surgimento dos humanos modernos. O achado põe, assim, em causa a noção até agora aceite de que a humanidade moderna nasceu há cerca de 200 mil anos em terras da África Oriental.

Os fósseis de Homo sapiens mais antigos que se conheciam até agora, com 195 mil e 160 mil anos, respetivamente, foram encontrados na Etiópia, os mais antigos na localidade de Omo Kibish, e os outros em Herto. Aquela região de África tem sido, por isso, encarada como uma espécie de berço da humanidade, mas essa, vê-se agora, é uma noção errada. O achado de Marrocos, que é hoje divulgado em dois estudos publicados na revista Nature, vem pulverizar essa ideia e mostra, além do mais, que que a história inicial dos humanos modernos deverá ser bem mais complexa, com a possibilidade de várias migrações dentro do território africano e a possibilidade de evolução destro da própria espécie.

"Costumávamos dizer que houve um berço da humanidade há 200 mil anos na África Oriental, mas os nossos dados revelam que o Homo sapiens se distribuiu por todo o continente africano há cerca de 300 mil anos", afirmou o paleantropólogo Jean-Jacques Hublin, líder da equipa que fez a descoberta e investigador do Instituto Max Planck de Leipzig, na Alemanha, e do Collège de France, em Paris. "Muito antes da sua migração "out of Africa", o Homo sapiens dispersou-se através de África", sublinhou.

O sítio de Jebel Irhoud, em Marrocos, era há muito conhecido dos antropólogos. Território de uma antiga mina, foram ali encontrados em 1961 alguns fósseis, entre os quais um crânio, cuja datação, sem a precisão das atuais tecnologias, os situava há cerca de 40 mil anos.

O estudo do crânio também não foi conclusivo. O seu formato não permitiu uma classificação definitiva e acabou por ser descrito como uma provável espécie de Neandertal africana. Sabe-se hoje que essa foi uma classificação errada. E Jean Hunlin, que se deparou a certa altura com o achado, pensou que havia ali algo mais para contar e decidiu ir para o terreno para estudar a questão. Teve o impulso certo, porque o que aguardava era esta grande descoberta.

O estudo dos fósseis encontrados nas mais recentes escavações - entre eles parte de um crânio e uma mandíbula, além de vários artefactos - mostra uma combinação de padrões ao mesmo tempo modernos e arcaicos, que os cientistas interpretam como fazendo parte de um processo evolutivo dentro da própria espécie Homo sapiens.

O resultado do estudo do achado "reforçam a hipótese de uma alteração anatómica rápida [na morfologia facial e crânio do Homo sapiens] e a ideia de uma história evolutiva complexa do H. sapiens que envolveu todo o continente africano", concluem os autores no artigo que publicam hoje na Nature.

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