Escolas que agora são o ponto de encontro da aldeia

Mértola é o segundo concelho do país com menos habitantes por quilómetro quadrado. A história e a arqueologia não chegam para evitar a debandada, ainda assim dão alguma dinâmica.

Uma escola primária fechada passou a ser a casa da Sociedade Recreativa de Espírito Santo, uma das sete freguesias de Mértola e das que têm menos habitantes. Luís e Patrícia exploram o espaço em mais uma tentativa de se agarrarem à terra que os viu nascer. Os clientes, idosos, bebem um cafezinho, contam histórias de quando a vila era grande. Alguém estacionou uma pedaleira à porta. Também veem os jogos da bola e jogam xisto e à sueca. E bailam. No último Natal juntaram-se 300 pessoas no salão.

A Sociedade Recreativa de Espírito Santo tem 15 anos, passou-se mais recentemente para a antiga primária, uma estratégia da Câmara Municipal de Mértola para evitar a degradação total destes edifícios cobrando uma renda simbólica, agora que já não tem crianças no recreio. Encerraram 22 escolas primárias no concelho entre 2001 e 2015, a última em Corte do Pinto, agora sedes de associações, na maioria, mas também de juntas de freguesias. Duas estão desocupadas, uma foi vendida a um casal estrangeiro, talvez para turismo rural.

Francisco Palma, 77 anos, é um dos clientes, vai lá para desentorpecer as pernas que não querem andar. Tem tanto para contar que já pensou em ligar para a televisão. Herdou do pai uma fábrica de moagem e de ração, "a única do Pais que ainda laborava com farinha de trigo em rama". Ele juntou-lhe uma panificadora. "Tinha 30 empregadas, oito furgonetas. Fazíamos sete mil pães por dia, distribuía pelo Alentejo e Algarve e até vendia para Lisboa. Dava vida a 30 famílias, esteve aberta 30 anos. As pessoas começaram a desaparecer e a haver muita concorrência, fornos em todo o lado, não podia competir". Fechou há dez anos.

Fechada, poiso dos pombos, a ganhar pó e ferrugem, continua a ser o orgulho de Francisco. Insiste numa visita à fábrica, uma área coberta de mais de três mil metros quadrados. Tem máquinas industriais, material de apoio aos trabalhadores, muitos objetos antigos. Permanecem os vestígios das bombas de combustível para abastecer os próprios veículos. Francisco ofereceu a fábrica à autarquia para um museu - "era o Museu da Farinha"-, responderam-lhe que não tinham meios. A filha, engenheira agrícola, vive em Beja. "O que eu já fui. Tinha dinheiro e muitos amigos. Foi tudo para pagar as indemnizações aos empregados, 60 mil contos [300 mil euros] e ainda tive que vender um terreno do meu pai."

A fábrica de moagem e de ração foi desativada, a panificação vendeu-a a um empregado, Paulo Rodrigues, 50 anos. "Comprei mas tive de a fechar há três anos, não dava. Passei de empregado a patrão e voltei a empregado".

Trabalha numa padaria em S. Pedro de Sólis e que distribui para todo o País pão alentejano e bom. "Temos ganho vários prémios", certifica Paulo a quem encontramos pela segunda vez no dia. Agora na Sociedade Recreativa de Espírito Santo, que também abastece, a beber um café e conversar com o antigo patrão e antigos empregados, com clientes e amigos.

Tribunal sem audiências

A primeira vez que encontrámos Paulo Rodrigues foi junto ao Tribunal de Mértola, que fechou as portas aos julgamentos. Converteram-no numa secção de proximidade em 2014 com a alteração do mapa judiciário. Mais uma dificuldade para a população. "Vivo em Alcaria da Javarrez [aldeia da freguesia do Espírito Santo, feita de pedra e rocha e que tem um núcleo museológico] a 18 km de Mértola que não são em linha reta. E agora temos de nos deslocar a Beja [mais 53 Km] Tenho carro, mas e quem não tem? As poucas condições que tínhamos vão piorando".

Mértola pertence ao Baixo Alentejo e é o segundo concelho do País com menor densidade populacional. Fecharam as escolas, os centros de saúde (o único está na cidade), recentemente, o tribunal. "Tem condições que o de Beja não tem e é sede de comarca", reclama Rui Colaço, 39 anos, um dos dois funcionários.

Eram quatro, mas dois reformaram-se. Saíram os magistrados e deixaram de ali ser feitas audiências e de despachar processos, a sala serve agora para a audição de testemunhas em videoconferência. Para quem ali trabalha pouco se alterou, continuam a fazer a tramitação dos casos, o problemas são as pessoas que ficaram mais longe do acesso à justiça, muitas delas sem transporte e que têm de ir a Beja ou a Ferreira do Alentejo.

Rui Colaço conta que chega a percorrer 80 Km para entregar notificações, penhoras, o mesmo acontece com a GNR para fazer as intimações. "Há freguesias que só têm transporte da câmara uma vez por semana. Chegam cá às 10.30 e têm que se ir embora às 15.00, tínhamos essa sensibilidade ao convocar as pessoas para de manhã e nos dias de transporte". Não tem dúvidas que a alteração é mais um contributo para o despovoamento do concelho. "Os julgamentos implicavam com as dormidas, com a restauração, com muita coisa".

O edifício foi inaugurado em 2000 e está demasiado degradado para o seu tempo de vida. Serve de morada também à GNR, da Conservatória e das Finanças. Mesmo assim falta-lhe vida, gente.

"Trabalhei numa farmácia 40 anos e era agente de seguros nas horas livres. Conheço o concelho de ponta a ponta, corria todos os montes, em que havia 20 moradias habitadas, agora só quatro ou cinco. Hoje há eletricidade, estradas, mas tenho dúvidas se vivemos melhor. É uma população muito idosa, a maioria vive só". Diagnóstico de Armando Rodrigo, 68 anos, ali "nascido e criado". E que sentencia: "O fecho do tribunal é mais um golpe".

O Alentejo é a região mais envelhecida, mas Mértola, embora despovoado, não está entre os concelhos mais envelhecidos (ver entrevista). Mas os jovens que se vão formando têm cada vez mais dificuldade em encontrar trabalho e menos ainda a fazer tarefas bem pagas. Luís Ventos, 28 anos, e Patrícia Ribeiro, 23, são a prova disso. Tiveram um café junto à estrada que liga Mértola a Alcoutim que só aguentaram um ano. O que ganhavam mal dava para pagar a renda, 200 euros mensais. Pagam uma renda simbólica de 50 euros mensais para explorar o bar da Sociedade Recreativa de Espírito Santo, a nova esperança. Abre todos os dias às 09.00 e fecha quando não há clientes. Luís tem também uma carrinha para vender peixe nas aldeias e de verão distribui bolas de Berlim na praia. Chegou a despachar mil destes bolos num dia, agora quase cinco vezes menos, mas também os vendedores são o dobro, 12 ou 13 no total.

Patrícia tirou um curso profissional de Técnica e Gestão do Ambiente há três anos. Gostou mas só pode exercer em estágios. "Aqui não há emprego, em especial na minha área. Mandei currículos para todo o lado e estive um ano à espera. Não obtive resposta, resolvi emigrar para a Alemanha".

Vivia com familiares e trabalhava numa geladaria por 700 euros mensais, um pouco mais no verão. "A emigração pode ser boa, mas não é se trabalharmos para portugueses, como foi o meu caso." Patrícia regressou a Mértola e mais uma vez sem conseguir trabalho. Voltou à Alemanha, nessa altura já namorava com Luís. Decidiu tentar de novo Portugal, agora para um negócio próprio. Com o companheiro tomou conta da Sociedade em outubro. "Fazemos campeonatos do jogo do xisto [um pouco maior que a malha], que só se joga no concelho de Mértola, bailes com um tocador, convívios, é uma forma de chamar as pessoas", explica Luís.

Filhos, para já, não, embora a autarquia incentive com 500 euros para uma conta bancária por cada recém-nascido. Apoia também no infantário e até à universidade, com livros gratuitos no 1,º ciclo e apoio de material, de alimentação e de transporte até ao ensino superior. São atribuída 30 bolsas por ano aos estudantes universitários, 220 euros mensais e desde que se candidatem à bolsa da instituição onde estudam. O município entra com o que falta para os 220 euros.

S. Pedro de Sólis à mina

S. Pedro de Sólis, que tem pão premiado, é a freguesia mais distante da sede de concelho, mesmo encostada a Almodôvar. Tem 229 habitantes (Censos de 2011), 3,6 pessoas por metro quadrado. Na reforma administrativa agregaram-na a S. Miguel do Pinheiro e S. Sebastião dos Carros. É a única união de freguesias do concelho.

Ruas brancas e limpas, como só se encontram no Alentejo, estas bem cuidadas por Maria Luís Silva, 53 anos, e Maria Ana Teresa, 59. "Está tudo a funcionar como antigamente, vamos à mesma à junta pagar a água, luz, telefone, a tratar disso tudo", conta Maria Luís a propósito da reorganização administrativa do território.

"Varremos, fazemos a caiação dos balneários públicos, escolas e poços, limpamos as ruas e as juntas de freguesias", explica Maria Ana, que mora num monte de S. Pedro de Sólis e exerce as tarefas nas três localidades. Maria Luís reside em S. Miguel. Fazem as compras do dia a dia em Almodôvar, para as grandes vão a Beja. Médico de Família só em Mértola, se for uma urgência têm de ir a Castro Marim. "Chegou a vir um médico à freguesia, tudo acabou. Os filhos abalam, ficam os idosos e com muitas dificuldades", diz Maria Ana.

No lado oposto está a Mina de S. Domingos, localidade onde a extração de minério fez nascer uma aldeia. A mina deixou de funcionar em 1966 e as habitações foram ficando vazias. Mas ainda hoje faz da freguesia a que pertence, Corte do Pinho, a mais populosa do concelho. Tem 857 habitantes e uma densidade populacional de 12 por Km2, com escola, uma extensão de saúde, correios, comércio, movimento e, sobretudo crianças".

"Mas isso agora não é nada", adverte Manuel Palma, 88 anos. Trabalhou na mina sem nunca descer às galerias ou ao subterrâneo. "Nunca me interessou trabalhar debaixo do chão, tenho tempo de ir para debaixo do chão quando morrer. Era carpinteiro por conta da mina. Trabalhei neste casario todo que foi feito por conta da mina", diz apontando as casas em frente desde o largo principal.

A vida mudou. "A maioria das casas estão fechadas. A mina acabou e o pessoal teve que se desenrascar, há um ou outro velhote como eu, o resto desandou. Teve farmácia, hospital, bombas de gasolina e agora não tem nada. O médico esteve de férias e há quase um mês que não vem."

Manuel chegou à localidade aos 11 anos, entrou para a mina com 18 anos, esteve lá 36, muito tempo depois de ter sido desativada. Sete filhos, entre os 40 e 60 anos, só três permanecem com ele na aldeia, dois estão na Suíça, um em Lisboa e um em Vendas Novas. Visitam a terra nas férias e nas festas. "Olhe que isto no domingo de Páscoa parecia a baixa de Lisboa, com tanto carro e pessoas". Conhece bem Lisboa? "Não, mas fui lá há uns anos numa excursão da Câmara. De vez em quando fazem umas excursões e andamos por aí". Acaba por revelar que muitas horas passou a jogar ao xisto. Promete ir a Espírito Santo quando lhe dizemos que aí se fazem campeonatos da modalidade.

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