Com creme ou chocolate? Bolas comidas na praia são feitas às 04.00

O trabalho para levar o bolo quer mais se come nos areais portugueses começa bem cedo. Só na Costa de Caparica serão vendidas cerca de 300 mil bolas-de-berlim nesta época

Paulo Louro salta da cama pelas 03.30 e às 04.00 já tem as mãos na massa. E amassa, amassa, cerca de 40 minutos, até atingir aquele ponto que o pasteleiro sabe ser o momento de levedar. Mais 20 minutos. De faca em riste vai cortando bocados, mais ou menos, iguais. Com as palmas das mãos faz bolas, quase do tamanho das de ténis. Hão de levedar ainda mais até estarem prontas a entrar no óleo assim que o termóstato atingir os 170 graus. Em sete minutos estão fritas de ambos os lados. Mergulham agora no açúcar, antes do corte a meio para serem generosamente recheadas até ao fundo. As primeiras bolas-de-berlim do dia estão prontas a seguir para a praia da Costa de Caparica, onde os vendedores estimam que sejam consumidos 300 mil exemplares entre julho e agosto.

O pasteleiro de Almada faz uma média de cem bolas-de-berlim a cada duas horas, para garantir que estão sempre no ponto e que ninguém as compra "engelhadas". Mas é enquanto aquela meia dúzia boia no óleo da fritura que Paulo Louro faz parecer tudo fácil. Vira-as quase em simultâneo, mostra como a massa está preparada para ficar seca, não deixando entrar óleo, e até explica aquele círculo central mais claro que divide a bola ao meio. Afinal, não é intencional.

"Enquanto frita, a massa leveda mais um bocado e essa é a parte que fica mais afastada do óleo. Aproveitamos para a abrir por aí para a rechear", diz, pegando no saco de pasteleiro a "rebentar" de creme de ovo. É, aparentemente, a parte fácil do processo. Basta encher até deitar para fora, mas não passa despercebida aquela onda cremosa no topo das bolas.

"Também fazemos com chocolate ou creme de avelã. Olhe que estão a ter saída", garante o pasteleiro que trabalha para a Berlineta, um novo conceito de venda de bolas-de-berlim na Costa de Caparica à boleia de uma Piaggio Street Food, apoiada por uma Renault 4L, com posto fixo à entrada das praias do CDS e Tarquínio Paraíso.

É para lá que segue a carrinha de distribuição carregada de "bolinhas". Sónia Franco, estudante de Lisboa, que aqui arranjou emprego durante as férias, é o rosto responsável por convencer os banhistas a puxar de um euro em troca de cerca de 400 doces calorias. "Valem pelo bem que sabem", diz a jovem depois já ter montado o estaminé, com as bolas perfiladas por sabores nos tabuleiros de verga. De "caras" para quem passa. E os clientes vão aparecendo com apetite. A avó que chega com o neto e quer uma com creme, a família de ciclistas com preferências entre o ovo e o chocolate, ou o avô com a neta, que também come, "mas só para provar".

Entregas em caixas de plástico

É agora tempo de pôr os pés na areia, em plena praia de São João da Caparica. É por lá que anda Ricardo Ferreira, vendedor da Berlineta. Avista-se ao longe, mesmo sem os pregões proferidos pelo colega com quem se cruza vezes a fio a anunciar "bolas com creme e sem creme". Ricardo transporta a bandeira com o logótipo da Berlineta estampado, que integra o kit com uma caixa em polipropileno, com estabilizador térmico mais leve, onde estão as bolas a um euro e meio, exibindo nas costas uma mochila de hidratação com água fresca, dotada da respetiva mangueira. Vestido para proteger-se do sol e calçado com sapatilhas de ténis. Porque caminhar no areal horas a fio, carregado de bolos e à mercê do calor, não é para todos.

"Apostamos numa nova forma de vender bolas. Sou eu que vou ter com as pessoas e explico o nosso projeto. A própria bandeira e a caixa das bolas despertam a atenção", sublinha, mostrando como os guardanapos amarelos de folha dupla também se inscrevem na qualidade com que procura conquistar os areais. Apesar de na sexta-feira a manhã não ter corrido grande coisa. "Ainda só 25 bolas", lamentava, mas era feriado municipal em Almada e a noite tinha sido longa com marchas populares. "Num dia forte vendo 250 ou mais", revela ao DN, quando bate o meio-dia e se faz hora de largar o trabalho.

O gerente da Berlineta, Alessandro Iuliano, com ascendência italiana, mas lisboeta de quase sempre, revela que os vendedores só estão quatro horas na praia. Duas de manhã e duas à tarde. "A ideia é que tenham uma função de promotores daquilo que é o nosso produto", revela o empresário, que lançou a Berlineta em 2013. "Era difícil conciliar a logística, mas conseguimos ter tudo aqui perto. Fábrica e armazém, o que nos permite fazer quatro ou cinco entregas de bolas por dia, consoante a procura das praias. Se desse só para uma entrega não valeria a pena", revela, tencionando já alargar o conceito a outras praias portuguesas.

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