Brinquedo da moda com funções terapêuticas até já tem revista

Marta Neto Rodrigues, de 10 anos, diz que gosta de brincar com o Spinner quando está chateada, porque se diverte

É uma espécie de pião dos tempos modernos. Depois da moda dos elásticos e da loucura com o Pokémon Go, há agora uma verdadeira febre coletiva com o Fidget Spinner

Não há ninguém no colégio do Simão, em Aveiro, que não saiba o que é um Fidget Spinner, o brinquedo da moda que tomou conta dos intervalos. "Não podemos usar durante as aulas. Dissemos à professora que era anti-stress, mas ela não deixa", conta ao DN o rapaz de 10 anos. Comprou um gadget verde e amarelo fluorescente na Loja China, mas agora quer um "todo metalizado, daqueles que não partem". É que não se limita a rodar o objeto entre os dedos. "Mandamos ao ar, pomos no nariz, no pé."

Afinal, o que é o Fidget Spinner, o brinquedo que está a conquistar o mundo? Trata-se de um gadget giratório, do tamanho da palma da mão, que assenta num plástico com três pontas. É a mais recente febre entre as crianças, que promete diversão, aliviar o stress e até ajudar menores com características do espetro do autismo, défice de atenção e hiperatividade. O êxito foi tão grande que levou ao lançamento de uma revista de truques, ontem, em Portugal. Chama-se Spinner Power, custa 4,9 euros e foi criada pela editora Goody.

Apercebendo-se do potencial do produto, a empresa AvailableGadget decidiu importá-lo e colocá-lo à venda em lojas de todo o país. "Pensámos numa introdução menor e menos impactante", assume Alexandra Cardoso, responsável pela comunicação da empresa. Projetaram trazer cerca de 40 mil unidades para o país nos próximos meses, mas esse número está prestes a ser atingido. E as vendas só começaram há duas semanas. "A procura está a ser surpreendente", adianta, garantindo a qualidade do plástico e dos rolamentos do produto, que também está à venda online por cinco euros. Distribui para lojas como a FNAC, mas há gadgets idênticos à venda fora da rede, nomeadamente nas lojas de chineses.

Com apenas sete funcionários, "toda a gente está no armazém a contar peças e a retificar material". O caminho, explica, era mostrar o Spinner e introduzir mais tarde o Fidget Cube, que, segundo a Forbes, é o "gadget do ano" para executivos. Mas "o processo acelerou-se" e este cubo - com atividades anti-stress - também já foi lançado.

Proibido em algumas escolas

Nos EUA e no Reino Unido, algumas escolas já proibiram o Fidget Spinner, por considerarem que distrai os alunos. Mas o brinquedo divide opiniões. Criado na década de 90 do século passado por uma mãe para entreter a filha que sofre de um problema neuromuscular, também é visto como um objeto anti-stress e que ajuda a melhorar a concentração. Marta Rodrigues, 10 anos, diz que "é um desafio rodá-lo em equilíbrio em várias partes do corpo". "Quando estou chateada, pego no Spinner e aquilo diverte-me", frisou.

"Se os nossos olhos estiverem cativados num movimento rotativo, pode haver algum apaziguamento nas perturbações emocionais e motoras do cérebro", explica a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. É, por isso, um objeto "que pode ajudar miúdos que têm muita tensão emocional, alguns até com características do espetro do autismo, porque descansa-os ver um movimento rápido e que se repete". Ao mesmo tempo, "a criança dá-lhe o movimento que quer, não fica apenas monopolizada pela perceção visual que recebe". Da mesma forma, acrescenta, pode ser útil para crianças com hiperatividade e défice de atenção.

Segundo a especialista, o novo gadget da moda "tem algumas propriedades de relaxamento físico e psicológico". Pode ser "um objeto apaziguador, anti-stress". No entanto, adverte, apenas deve ser usado fora das salas de aula. "Quando a pessoa sai, ajuda a desanuviar a tensão emocional e motora que a criança pode ter por ter estado muito tempo na aula."

Ao DN, Inês Afonso Marques, responsável pela área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, diz que se trata de um "brinquedo muito simples, mas que tem um efeito muito apelativo visualmente". Compara-o ao ioiô ou ao diablo. "Algumas crianças encontram calma neste tipo de brinquedos." Segundo a psicóloga, quando há défice de atenção, "o que se faz muitas vezes é encontrar um estímulo que faça a criança descer à terra". Com o Fidget Spinner, há uma atenção no aqui e no agora. Por outro lado, destaca, "muitas vezes a desatenção tem que ver com ansiedade e agitação motora", pelo que, "uma coisa pequena, como o brinquedo que se faz girar, tem também a função de libertar tensão interior, diminui a agitação psicomotora, a ansiedade e a dispersão da atenção".

Terá esta febre data para acalmar? "Temos noção de que, enquanto gadget, a moda poderá demorar três a quatro meses, mas enquanto aparelho terapêutico, o Spinner veio para ficar", diz Alexandra Cardoso.

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