Bento XVI também aceitou preservativo por causa da sida

Da não aceitação à possibilidade das exceções por razões de saúde. Afinal, a Igreja de Roma também se move
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Sida e zika. Até hoje, estas são as únicas exceções admitidas por dois Papas para o uso do preservativo, e apenas como forma de evitar aquelas doenças. Bento XVI assumiu em 2010 essa posição, de forma prudente, em relação à sida. O seu sucessor, Francisco, fê-lo ontem em relação ao zika, aceitando os métodos de contraceção para impedir eventuais casos de bebés com microcefalia. Serão dois pequenos passos, mas eles mostram que a Igreja de Roma, afinal, também se move.

Para o Vaticano, a utilização do preservativo, bem como de todos os métodos de contraceção não naturais, são condenáveis, porque ferem a sua doutrina milenar, que defende o caráter sagrado da vida.

Estas são, portanto exceções. Francisco lembrou ontem, aliás, que Paulo VI também abriu uma exceção, nos anos 60, ao autorizar que as religiosas e missionárias no Congo, em risco de violação por parte de grupos armados, tomassem a pílula para não engravidar.

João Paulo II causou polémica

Interventivo, acutilante e lutador na sua ação geopolítica, João Paulo II foi decisivo para a mudança radical dos equilíbrios políticos no mundo durante o seu pontificado, mas foi também um papa conservador na esfera ética e moral. Nem a tragédia da sida o levou a pronunciar-se sobre a possibilidade da utilização do preservativo.

Foi durante o seu longo pontificado, no início da década de 80, que surgiu a doença, que rapidamente se expandiu a todo o planeta, dizimando milhões de pessoas, sobretudo em África, onde se propagou como um incêndio, destruindo famílias e deixando milhões de crianças órfãs.

João Paulo II quis fazer uma cruzada pela vida, mas, nessa batalha, acabou duramente acusado de conservadorismo e de intransigência por muitos dos seus próprios fiéis, nomeadamente por causa da questão do preservativo no contexto da epidemia da sida.

Como papa, sublinhou sempre a condenação da anticonceção considerada não natural, nunca se referindo especificamente ao preservativo, e os críticos leram aí uma "oposição criminosa" à sua utilização.

Setores mais progressistas da Igreja preferiram, no entanto, considerar que a não nomeação do preservativo poderia ser uma abertura para o seu uso quando a vida está em causa, como acontece com a sida e o seu contágio. Em muitos países africanos foram, aliás, os próprios missionários católicos que distribuíram contracetivos às populações para evitar o contágio da doença.

Por cá, a questão ficou indissociavelmente ligada ao escândalo do cartoon que António publicou no Expresso em 1992, mostrando o Papa com um preservativo enfiado no nariz, quando João Paulo II foi África. Durante essa viagem, numa altura em que a epidemia da sida atingia enormes proporções no continente africano, João Paulo II voltou a criticar o uso de meios contracetivos não naturais. António não perdeu a oportunidade.

Hesitações de Bento XVi

O Papa alemão enfrentou igualmente uma chuva de críticas em março de 2009, quando, também ele, foi em visita pastoral a África, incluindo Angola no seu roteiro.

Ainda no avião, falando aos jornalistas, afirmou que o preservativo "não resolve o problema da sida, pelo contrário, agrava o problema". Mas foi ele, também, que depois veio clarificar as próprias palavras, admitindo claramente, ano e meio depois, o uso do preservativo. Nessa altura, afirmou que "pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização". Fez no entanto questão de sublinhar que essa não é "a forma apropriada para controlar o mal causado pela infeção do VIH".

Os aplausos a Bento XVI foram unânimes. Certamente, acontecerá agora o mesmo com o Papa Francisco.