Alterações climáticas. As consequências estão à vista

Erosão costeira, agricultura, energia, saúde pública e recursos naturais são áreas de risco e com consequências identificadas

As ondas gigantes que têm galgado a terra nos últimos dias são um fenómeno cada vez mais usual na costa portuguesa e que se repetirão no futuro. São consequência da subida do nível do mar e também do planeamento do território pelo homem. Os rios, com as dezenas barragens que receberam, já não transportam a quantidade de areia necessária para a costa. É um dos exemplos das consequências das alterações climáticas que irão influenciar o futuro. Na agricultura, energia ou recursos naturais, o impacto da tendência de subida da temperatura e de diminuição da precipitação média, com fenómenos extremos meteorológicos, entre outras mudanças que o clima vem sofrendo, está projetado. E não é teoria, os factos estão à vista e diagnosticados, dizem os especialistas ouvidos pelo DN.
O país tem já vários diagnósticos feitos, com estratégias e planos nacionais para enfrentar as alterações climáticas e os desafios ambientais. "Precisamos de nos preparar mais rapidamente para as consequências", considera Francisco Ferreira, professor universitário e presidente da associação ambientalista Zero, para quem há "trabalho feito em Portugal, mas "ainda não foram tomadas medidas estruturais. Falta implementar e ser coerente". "O assunto está na ordem do dia, é estudado, mas há pouca coisa feita", concorda André Vizinho, investigador do cE3c - Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Climáticas da Faculdade de Ciências de Lisboa.

Erosão Costeira. O mar sobe e a areia fica nas barragens

A subida do nível do mar é uma realidade comprovada que afeta a costa nacional. Portugal é um dos países mais vulneráveis a este fenómeno, seja em zonas de arribas ou mais arenosas. "As alterações climáticas trazem duas situações: os temporais vão ser mais intensos, mais frequentes, e a subida do nível do mar", adianta Gil Penha-França um dos coordenadores do grupo de investigadores do cE3c que têm analisado o impacto das alterações climáticas.
Filipe Duarte Santos, um dos coordenadores do centro, integrou o grupo de trabalho que elaborou um relatório sobre a zona costeira, em que se concluiu ser necessário a deposição de areia em locais específicos. Os sedimentos deixaram de chegar à costa. "A construção de barragens é um dos fatores a que tem sido atribuída mais importância na redução do fornecimento sedimentar para a costa, estimando-se que atualmente as barragens sejam responsáveis pela retenção de mais de 80% dos volumes de areias que eram transportadas pelos rios antes da respetiva construção", lê-se no relatório de 2015. Mas, apesar dos riscos, a construção em zonas costeiras ainda é permitida. "Há uma pressão económica, a pensar no retorno de investimento a curto prazo, mas sem pensar nos enormes custos a longo prazo", diz Gil Penha-França. As previsões apontam para que até final do século a subida das águas do mar avance um metro em média, mas há locais da costa portuguesa onde pode ser superior.


Agricultura e recursos. Interior e sul podem perder culturas

A agricultura sempre foi uma atividade condicionada pelas alterações climáticas ao longo dos tempos. Hoje, a diminuição da precipitação e o aumento da temperatura e ameaça de secas são os piores cenários. "Em Portugal até pode haver uma região. o Minho, que poderá ter aumento de precipitação. E o aumento da temperatura mínima também pode trazer vantagens, há menos geadas", diz André Vizinho, que estudou o impacto na agricultura no âmbito do cE3c. O calor poderá destruir flora e, com a evaporação, a menor quantidade de água nos solos influenciará as culturas. O interior sul será dos mais afetados. O Alentejo poderá ver culturas migrarem. "Há espécies que deixam de tolerar o clima. O sobreiro poderá ter de ser plantado mais a norte. As pastagens, as oliveiras também podem ser afetadas. E o eucalipto pode ter uma diminuição de produção até aos 90%", explica André Vizinho.
O futuro devia passar por aproveitar as vantagens fornecidas pelos vários microclimas de Portugal, para mudar culturas ou usar novas técnicas para as conseguir manter na mesma região. "Em cada região há espaço de manobra para influenciar o clima e o diminuir a suscetibilidade dos ecossistemas. Será necessário adotar práticas diferentes para se tornem viáveis e produtivas." Em geral, o interior e o sul do país vão sofrer mais consequências, "no norte irá chover mais".
Os recursos naturais serão influenciados. Haverá uma provável redução caudal dos rios, escassez de água no verão, uma redução da qualidade da água e também da quantidade de água nas albufeiras. Além disso com o calor, aumenta o risco de incêndio e são criadas condições para a incidência de pragas.

Energia. Apostar na poupança deve ser prioridade

O setor energético é a nível global o principal emissor de gases de efeito estufa. Em Portugal, as "duas centrais elétricas alimentadas a carvão e o transporte rodoviário são responsáveis por quase metade da s emissões nacionais", lembra Francisco Ferreira. O futuro nesta área da produção de energia, na opinião de Joanaz de Melo, fundador do GEOTA, devia passar pela aposta nas energias renováveis e pela eficiência energética. "Mas o que temos é a aposta em barragens, com um enorme desprezo pelas vertentes ambientais", critica, considerando que "vão encarecer os custos da energia" num país com 250 grandes barragens, com mais de 60 centrais hidroelétricas. "Se há fonte mais vulnerável é a hídrica, vai haver menos pluviosidade, a gestão da água será mais difícil. Por isso é estúpido fazer novas barragens", diz Joanaz de Melo. A energia solar e eólica deviam ser apostas. E houve progressos. "A luz solar e o vento não vão ter grande variação, podem existir alterações sem as colocar em causa."
Num país que importa mais de 70% da energia, sobretudo em combustíveis fósseis, "a melhor maneira de lidar com isso é poupar energia. Com a tecnologia existente podíamos reduzir o consumo em 30%. E dar prioridade à política de transportes, setor que mais consome energia". Mas para o professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa "não há ainda uma estratégia séria, o que é muito grave". Diz que o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) reuniu com todos os partidos mas sem grandes resultados. "A tendência geral dos principais partidos, da direita à esquerda, é ignorar o ambiente."

Saúde pública. Da poluição do ar a novas doenças

A poluição do ar transforma-se com as alterações climáticas. "Há poluentes que se agravam. O ozono à superfície atinge concentrações mais elevadas se tiver ondas de calor e temperaturas elevadas", aponta Francisco Ferreira que tem acompanhado as cimeiras da ONU sobre as alterações climáticas. O que se pode fazer para atenuar os efeitos é "ao nível dos transportes públicos", já que o setor rodoviário é o principal responsável. Mas, constata, pouco se tem avançado, "usa-se demasiado o carro, com uma rede de transportes coletivos muito deficiente." Outras questão será a escassez de água e qualidade, apesar de neste momento Portugal ter uma excelente qualidade de água. No futuro pode haver períodos de seca que levem a indisponibilidade de recursos de água. A transmissão de doenças por animais pode ser um problemas devido à deslocação de espécies. Os casos de dengue na Madeira em 2013 foram um aviso. A nível da mitigação, Portugal está no bom caminho, diz Francisco Ferreira. O compromisso assumido em Kyoto em reduzir em 30% as emissões de gases de efeito estufa tem sido cumprida, com uma redução já de 27% quando a meta a atingir é em 2030. "A crise económica e o investimento em renováveis proporcionaram a redução", conclui o presidente da Zero.

Fiscalidade. Aplicar as taxas em medidas ambientais

Não é uma consequência direta das alterações climáticas mas tem sido usada por poder político como uma forma de financiar a adaptação à nova realidade climática. A chamada fiscalidade verde tem crescido - em 2015 atingiu 4,35 mil milhões de euros em receitas, segundo o Relatório Nacional do Ambiente - mas a aplicação dos fundos nem sempre é desejada. "As taxas sobre os combustíveis deviam ir para resolver os problemas dos transportes. Mas servem é para tapar buracos no Orçamento de Estado", diz Joanaz de Melo, como exemplo. Há fundos comunitários, para usar, diz Gil Penha-França: "Um quinto dos financiamentos do orçamento da União Europeia é para as alterações climáticas."
A questão da fiscalidade foi já analisada pelo Centros de Estudos Fiscais, do Ministério das Finanças. "Uma alternativa marcada, porém, pela ameaça de regressividade, visto os tributos ecológicos revestirem de forma predominante a natureza de impostos indiretos. Todavia, reconhece-se que a mudança, em lugar de ditada, de forma predominante e decisiva, por um conjunto de preocupações genuínas de índole ambiental, tem sido influenciada de sobremaneira pela situação do desemprego e pela crise do Welfare State, argumentos que acabam por revelar-se cruciais, "empurrando" as economias para acolher esta solução", alertou a jurista Maria Eduarda Azevedo, que já foi secretária de Estado da Justiça, sugerindo uma reforma fiscal.

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