Quando começou a trabalhar como serralheiro mecânico na Herdade de Rio Frio Luís Pereira tinha 18 anos e acreditava ter garantido emprego para a vida. "Até podíamos comprar a crédito em qualquer lado que ninguém questionava", recorda. Trabalhar na mais célebre herdade do concelho de Palmela era sinónimo de salário fixo ao fim do mês. "Até podíamos casar cedo e ter logo filhos. O dinheiro era certinho e não nos faltava nada. Escola, hospital, padaria, restaurante, muitos amigos. Foram anos tão bons", refere. Mas a vida mudou nos últimos tempos. O império foi caindo à medida que a agricultura perdeu espaço nos 5200 hectares de terra que chegaram a ter a maior vinha contínua do mundo. Abasteceu Lisboa a partir do início do século XX..Hoje Luís Pereira e outros 43 trabalhadores da Casa Agrícola e da Sociedade Agrícola de Rio Frio receiam cair no desemprego, como consequência do plano de insolvência que foi votado na quinta-feira pela assembleia de credores no Tribunal de Comércio de Setúbal, com o banco Millenium BCP e a Parvalorem (entidade pública que herdou os ativos tóxicos do BPN) a reclamarem cerca de 90 milhões de euros perante um passivo que ronda os cem milhões..Trinta e cinco dos atuais funcionários temem ainda perder as habitações no interior da herdade, onde residiram toda a vida, tal como outras 55 famílias de ex-trabalhadores que por lá continuam a viver. A cedência das casas faz parte do contrato de trabalho, mas o representante de Rio Frio descansa os moradores, revelando ao DN que o despejo não está previsto (ver entrevista).."Ao que isto chegou", lamenta Guiomar Fernandes, enquanto abre o portão da escola primária - a uns 20 metros da sua casa na herdade - que fechou há 16 anos. É um edifício fechado onde a degradação avança, mas que chegou a acolher mais de 60 crianças nos anos dourados das décadas de 50 a 70.."Eu estudei aqui, tal como os filhos dos outros trabalhadores. Éramos uma grande comunidade, uma família. Dói-me a alma só de pensar no que a herdade se transformou", diz, embargando-se a voz quando aponta o cenário de ruína que é transversal à maioria dos edifícios, que compunham uma das maiores herdades de Portugal, apontada como "símbolo" na segunda metade do século XIX e princípios do século XX, na qual foram introduzidas as mais modernas técnicas de organização e produção agrícola, entre vinha e montado, continuando a tiragem de cortiça a ser umas das principais referências da "casa", onde também há lugar para produção de arroz, de gado bovino autóctone e de cavalos de Puro-sangue Lusitanos e Anglo/Luso/Árabes de grande aptidão para as atividades equestres..O célebre Palácio de Rio Frio mantém a imponência de outros tempos, depois de a sua gestão ter sido separada da sociedade agrícola, estando aberto ao alojamento turístico. Mas quase tudo à volta está entregue ao abandono. "Caiu a adega, caiu a serração. A casa do secador de arroz e a do descasque também desabaram, tal como a sede do grupo desportivo. Andamos nisto há 20 anos e ninguém quer saber", lamenta, sem esquecer que até a padaria fechou portas e que há anos a herdade é servida com pão do Pinhal Novo (freguesia de Palmela)..Guiomar fala com a sabedoria de quem viveu sempre nesta terra. Nasceu há 48 anos na maternidade do hospital que aqui existiu - passando a posto médico antes de ser encerrado - tendo começado a trabalhar no campo aos 14. Dedicou-se à vinha e por lá continua 34 anos depois. "Há sempre trabalho para fazer, da limpeza à poda e à vindima", diz, recordando os tempos em que a então maior vinha do mundo atraía trabalhadores sazonais de todas partes do país na campanha da vindima..A atual administração, liderada por José Ramos Rocha - com quem o DN tentou falar, mas que remeteu declarações para o administrador de insolvência - terá recebido fundos comunitários no âmbito do PRODER, Programa de Desenvolvimento Rural, que permitiu modernizar a vinha, sendo substituída há cerca de quatro anos, avançando ainda com a construção de um centro equestre. Esmeralda Marques, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras do Sul, sublinha que outro dos projetos dos gestores apontava à reabilitação de algumas casas para turismo rural, mas as dificuldades financeiras em que mergulharam as empresas da herdade inviabilizaram o objetivo. A sociedade acumula já mais de cem milhões de euros de dívidas, sendo o Millennium e a Parvalorem, os principais credores..Henrique Couceiro Margarido está perto da reforma. Tem 68 anos e começou a trabalhar aos 11 na herdade para ajudar lá em casa. Tinha mais cinco irmãos, que nasceram todos no hospital do Rio Frio. "Acabei a quarta classe e fiz-me à vida, porque os meus pais não podiam pagar mais estudos", diz, tendo começado por ganhar 12 escudos (seis cêntimos) como aprendiz de serralheiro. Anos depois estava a prestar apoio a todos as secções..Casou com uma mulher da terra, foi-lhe atribuída uma casa na herdade e já conseguiu dar futuro ao filho. "Hoje tinha saído daqui, como fizeram os meus irmãos, mas acho que fiquei cá por amor à camisola", confessa. Acabou por se separar, garantindo outra casa no território onde ainda vive. "Se nos tiram as casas o que fazemos à vida? Pagamos um preço simbólico e não podemos pagar mais. Está a ser um pesadelo", admite, mostrando-se mais preocupado com a habitação do que com emprego.."Enquanto este imbróglio não se resolver é difícil conseguir dormir. Tenho duas filhas estudantes", desabafa ainda Luís Pereira, 46 anos. Já não foi a tempo de nascer na maternidade, mas ainda reuniu dezenas de amigos à sua volta, jogou futebol no campo e nadou na piscina que continua aberta a banhos. Os pais queriam que continuasse os estudos e a câmara até assegurava transportes dos alunos para Palmela, mas Luís optou por seguir outra via..Deixou o 10º ano incompleto para se dedicar de corpo e alma ao trabalho na herdade, onde pouco depois dos 20 já dava manutenção à maquinaria da empresa. Passava por ali os dias e diz, em tom irónico, que só saiu para ir ao Pinhal Novo buscar a mulher com que casou. "A grande riqueza daquilo sempre foi a agricultura", admite, recordando tempos em que não parava entre a serralharia mecânica e civil, reparações de tubagens e construções metálicas. "De repente o trabalho começou a escassear, eles deixaram de fazer agricultura e no ano passado ainda tivemos quatro meses de salários em atraso"..Desde 2010 que a exploração de vinho voltou a ser a grande aposta da sociedade agrícola a par da recuperação da coudelaria, na esperança de que o turismo às portas de Lisboa chegasse em força. Mas há ano e meio que os problemas denunciados nos últimos tempos se agravaram..A Câmara Municipal de Palmela reclama um "plano de recuperação", segundo o vereador Adílio Costa, que disponibiliza apoio jurídico aos trabalhadores de Rio Frio "em articulação com os advogados já envolvidos no processo". O autarca diz que o município está preocupado com o futuro dos funcionários, mas sobretudo com o direito à habitação de quem ali vive. "Isso tem ser salvaguardado. Esta gente nasceu lá e antes deles estiveram lá os pais e avós. Não podem ficar sem teto", sublinha Adílio Costa.