Tulasi veio de Filadélfia, nos EUA, para conhecer o parque de estacionamento do Chão do Loureiro. Estranho? Não, se lhe dissermos que esta é uma das principais galerias de street art da capital. Precisamente o maior interesse de Tulasi. A norte-americana aproveitou as últimas horas dos três dias que passou em Lisboa para fazer um tour diferente, guiada por um guru..Pelos caminhos da arte de rua, esta visita guiada personalizada há de cruzar-se com grupos de turistas que estão a conhecer a cidade em bicicleta ou que são guiados pelo rei D. Afonso Henriques. Este é provavelmente um dos efeitos do aumento do turismo em Lisboa. E, se andar pelas ruas não chega, os números dão uma ideia: a capital passou de 2,64 milhões de dormidas em 2012 para 3,63 milhões em 2016. Logo, seria mais do que natural que alguns turistas começassem a querer maneiras diferentes de ver a cidade. É isso mesmo que propõem algumas das mais recentes aplicações para telemóveis. O DN viajou por Lisboa com uma delas - a City Guru - e falou com outras sobre as suas ofertas..Há também quem sugira conhecer a cidade através de um audioguia que conta as histórias ligadas aos diferentes pontos turísticos. Para os mais práticos há aplicações que sugerem percursos com base no tipo de viagem que o turista procura (romântica, gastronómica ou histórica) e no número de dias disponíveis para a viagem. A partir daí há sugestões desde o pequeno-almoço até às saídas noturnas..City Guru.Da arte de rua à festa do futebol.Igor Vitorino é o guia personalizado de Tulasi pelos recantos da arte de rua da capital. O caminho começa às 10.00 em frente à sede da City Guru, no Bairro Alto. Logo a dois passos surge o primeiro exemplo: um graffito na parede que evoca a Revolução dos Cravos. Mas ainda na Travessa dos Fiéis de Deus é possível ver os dois exemplos "da primeira street art lisboeta: os azulejos e a calçada"..O percurso vai-se desenrolando pelo Bairro Alto, Miradouro de São Pedro de Alcântara, Mouraria e acaba na Casa do Alentejo. Pelo menos no caso da visita de Tulasi, porque "é sempre diferente, tem a ver com os sítios que os turistas já conhecem". O objetivo final é mostrar os segredos do guru (guia) ao turista. "És minha amiga e eu vou mostrar-te os meus locais secretos de Lisboa", promete Igor a Tulasi..O conceito da City Guru é mesmo esse juntar guia e turista. Por isso, descrevem-se como a Uber dos guias turísticos. "Dar às pessoas uma ferramenta para poderem fazer algum dinheiro extra e gerirem o seu tempo da forma que acharem melhor" e ao mesmo tempo dar aos turistas a possibilidade de conhecer uma cidade pelos olhos de alguém que a conhece bem e tem segredos para partilhar, explica João Moedas, o criador do City Guru. Um conceito que em Lisboa já atraiu 80 gurus, mas que pode ser replicado noutras cidades. "Por exemplo, se temos uma pessoa que tem uma gôndola em Veneza e está registado como guru, pode fazer tours de gôndolas. Os temas que cria são da sua responsabilidade", exemplifica João Moedas..Mas também podem ser os turistas a sugerir passeios: "Como a Lisboa gay, a rota do bacalhau ou até para fazer compras." Ou então, como aconteceu no final desta semana, uma visita especial para os fãs do Celtic de Glasgow. Os adeptos deste clube estão a celebrar os 50 anos da vitória da Liga dos Campeões no Estádio do Jamor e pediram à City Guru para criar um roteiro especial. Longe dos habituais pontos turísticos, este tour inclui uma visita ao Jamor, local da vitória, depois um almoço na cidade do futebol, uma visita ao museu do Benfica e ao estádio do Sporting..Este é um dos princípios da City Guru: dar aos turistas o que eles querem ver, através dos olhos de uma pessoa que conhece verdadeiramente os locais. Um mantra que já os levou aos roteiros dos cemitérios - da arquitetura faustosa dos Prazeres às referências maçónicas do Alto de São João, passando pelas histórias das almas mais atribuladas - ou da música, onde, sim, o fado entra, mas também se dança ao som de kuduro e kizomba..A aplicação e site criados por João Moedas já estão disponíveis no Porto e em Amesterdão. Quando o turista usa a aplicação - não foi o caso de Tulasi, que marcou pelo site - o preço é definido pela própria aplicação e é cobrado pelo cartão de crédito, como acontece com a Uber ou a Cabify..Pelas três horas e meia em que passeou pelos locais secretos de Igor, Tulasi pagou 25 euros, mais os 2,5 euros do bilhete para visitar os Jardins do Palácio da Independência, local quase secreto onde existe a única porta ainda preservada de entrada nas muralhas do castelo e - diz a lenda - a mesa original sobre a qual foi planeada a restauração da independência em 1640. Subindo as escadas da muralha, uma surpresa: uma vista panorâmica sobre toda a Baixa Pombalina, com o Arco da Rua Augusta, a estátua de D. José I emoldurada pelo arco e o rio ao fundo. Um achado que levou Tulasi a ultrapassar a sua ligeira fobia de alturas e a levou a agradecer a Igor pela descoberta..Tulasi deixou o marido no hotel para este último olhar sobre a cidade. Teria de seguir para o aeroporto às 14.00 e passou a manhã (das 10.00 às 13.30) a percorrer pela última vez duas das sete colinas da capital. A visita guiada foi invulgarmente pequena, mas estas experiências não são vendidas a mais do que seis pessoas em simultâneo..Guide4u .Saber da cidade pelos auscultadores."O atual arco do triunfo da Rua Augusta construído no estilo neoclássico é a segunda versão do mesmo, a primeira seria demolida em 1777. As esculturas que encimam o arco do lado do rio Tejo representam a glória coroando o génio e o valor. Em segundo plano, as esculturas representam figuras de destaque da história de Portugal. O arco tem também uma inscrição em latim que se traduz: "Às virtudes dos maiores para que sirva a todos de ensinamento." Tudo isto é explicado ao turista no local, sem que seja necessária a presença do guia turístico. Basta fazer o download da aplicação Guide4u..A ideia é passear ao seu ritmo e construir o seu próprio roteiro. Com uma aplicação que tem não só a explicação do que está a ver, mas ainda lhe conta uma história ligada ao local. Assim, no Castelo de São Jorge pode ficar a saber mais sobre a independência e a conquista de Lisboa, conhecer a história de amor de Pedro e Inês na Praça da Figueira ou o processo dos Távoras nos Jerónimos..Saber mais de cada um dos 18 locais disponíveis custa 1,99 euros, mas para avaliar o funcionamento da aplicação pode experimentar a versão gratuita sobre o Miradouro de São Pedro de Alcântara, a Rua Augusta, o Bairro de Alfama, o Castelo de São Jorge e a Praça do Comércio. O guia pessoal dentro do smartphone está disponível em cinco línguas: inglês, francês, espanhol, italiano e português..Um dos objetivos desta aplicação "é transformar a cidade num museu a céu aberto", explica Nuno Bonifácio, um dos fundadores da Guide4u. Como o projeto que lançou é uma aplicação, está em constante crescimento e Nuno Bonifácio anuncia que em breve vai "ter mais histórias e mais locais". "À medida que vamos contactando parceiros e interessados são sugeridos conteúdos como de trekking ou cycling e não há limites de conteúdos." Para já é este o caminho da aplicação que surgiu há poucos meses (abril) depois de Nuno Bonifácio ter feito uma viagem a Barcelona e ter pensado que seria bom conhecer a cidade por um audioguia..Lisboa Cool.Um guia feito à medida das escolhas.Para quem chega a Lisboa sem uma ideia definida do que quer fazer, a aplicação Lisboa Cool pode ser a maneira ideal de conhecer a cidade. Para ter acesso a um roteiro basta responder a duas perguntas. Que tipo de roteiro procura, com as opções romântico, gastronómico ou histórico, e quantos dias vai ficar em Lisboa. Com base nestas respostas, a aplicação promete criar "a melhor viagem da tua vida"..Daí surgem sugestões para locais onde tomar o pequeno-almoço, monumentos, até espaços para sair à noite. Tudo para que o turista crie as melhores memórias de Lisboa. Até porque "uma memória feliz não tem preço", como defende Júlia, a criadora da aplicação..Só entram na aplicação as sugestões cool. Definidas pelo "respeito pelo detalhe e critérios que vão desde a universal higiene, limpeza e decoração, atitude do staff e eficiência, comida, serviço, ambiente, valor, aparência, paixão... e o feeling que se interpreta a partir de todos estes fatores", explica a fundadora deste conceito no site.