"Em nome de um Portugal renovado", Mário Soares discursava na Assembleia Geral da ONU a 23 de setembro de 1974. "Poucas vezes", terá talvez exagerado Diaz Nosty, "no grande fórum mundial se haviam escutado tantas manifestações de entusiasmo e simpatia por um país e por um ministro [seu] representante" (Um Combatente do Socialismo). A queda da mais velha ditadura europeia com uma revolução de cravos nos canos das espingardas encantou o imaginário das várias esquerdas, despertou um invulgar interesse internacional pela política portuguesa e abriu caminho à independência de cinco novos países africanos. No fundo, como garantia Almeida Santos, "Portugal era então a coqueluche da cúpula política internacional" (Quase Memórias, 2.º vol.)..Antes mesmo de Mário Soares ser o ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) dos I , II e III Governos Provisórios (nesse período crucial entre maio de 1974 e março de 1975), logo após o 25 de Abril, "a pedido de Spínola", foi enviado pela Junta de Salvação Nacional às capitais europeias (uma ronda de dois dias por Paris, Bruxelas, Londres, Amesterdão, Bona, Helsínquia, Roma, Vaticano) para obter o reconhecimento do novo regime, como contaria a Maria João Avillez (Ditadura e Revolução). "Mesmo antes da sua inclusão no Governo Provisório", escreveu Diaz Nosty, "o papel de Mário Soares seria essencial na hora de dar uma dimensão real à nova realidade portuguesa. As suas declarações, as suas contínuas viagens, a sua comparência nos mais altos organismos mundiais serviriam para transformar o passado desprezo internacional numa quase generalizada resposta de apoio e compreensão por parte do mundo" (idem)..A 16 de maio, quando entra no Palácio das Necessidades pela primeira vez como ministro do Governo liderado por Palma Carlos, tinha parte do corpo diplomático à sua espera. Fez, então, um discurso explicando que não iria sanear ninguém, mas explicando que a política externa portuguesa "iria mudar 180º". Não houve saneamentos e não teve "nenhuma razão de queixa de qualquer diplomata. Antes pelo contrário: todos cumpriram a nova linha política que defini para a política externa portuguesa", lembraria num colóquio sobre o serviço diplomático, na Assembleia da República, em 2008. Esse gesto pragmático, admitiria o embaixador Hall Themido, "contribuiu para tranquilizar os Estados Unidos acerca da revolução ocorrida em Portugal" (Dez Anos em Washington)..Nessa mesma tarde houve "um acontecimento insólito e antes nunca visto": "Entrou no espaço aéreo português o avião pessoal do Presidente Senghor, para [o] transportar a Dacar", onde, sob a égide do primeiro-ministro do Senegal, se encontraria com o dirigente do PAIGC (e futuro Presidente de Cabo Verde) Aristides Pereira, assinando ambos o acordo de cessar-fogo na Guiné, "o primeiro passo concreto no caminho da descolonização" (mesmo discurso)..E, em simultâneo com as negociações com os movimentos de libertação das colónias, estabelecia relações diplomáticas com 26 países, com destaque para a Índia e a União Soviética, demais regimes comunistas da Europa do Leste, países árabes e Estados africanos. Ao mesmo tempo, tinha o cuidado de "evitar conflitos com a Espanha de Franco e o Brasil, em fase de ditadura militar, sem deixar de os condenar por falta de respeito dos Direitos Humanos" (Um Político Assume-se)..Em junho, estava em Otava (Canadá) a participar numa conferência interministerial da NATO e, em setembro, discursava na ONU, numa sala completamente cheia e em expectativa. Mas, após o 11 de Março, no IV Governo Provisório, o MNE seria Melo Antunes, passando o líder do PS a ministro sem pasta - o cargo que sempre teve Álvaro Cunhal e também tivera Sá Carneiro..Mas Vasco Gonçalves, no livro-entrevista com Maria Manuela Cruzeiro, entendia que Soares, como ministro dos Negócios Estrangeiros, "não deu uma imagem fiel do MFA, nem da nova política que se estava a iniciar com o 25 de Abril". E acrescentava "que a História veio a mostrar que ele conduziu uma política orientada, sobretudo, para o estreitamento das relações do PS com a social-democracia internacional e que esta assumiu posições muito negativas em relação ao nosso processo, particularmente no ano de 1975" (Um General na Revolução).