Silly season vai ser o próximo verão (Episódio 27)

FICÇÃO POLÍTICA. Nas redes sociais portuguesas, a vantagem pendeu para a crítica da proibição do burquíni e menorizou-se a provocação dos criminosos. Em breve, haverá burquínis nas nossas praias e políticos a seguir a brisa já avançada pelos cobardes
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O Palácio de Belém é aqui chamado de Verão por razões de folhetim. Leia o título, percebe a história: este não é um Palácio de Inverno, para ser tomado por insurretos e baionetas. Cem anos depois de o Hermitage ter sido banhado em sangue que desceu até ao rio Neva, o palácio à beira-Tejo vivia a rotina do jeito manso que era só seu. No gabinete de trabalho onde o Presidente recebia os políticos para diálogos privados, os sofás dessas conspirações eram encimados pelo quadro de um pintor comunista: A Rainha dos Ovos de Oiro, de Rogério Ribeiro, que ilustrou os livros de Álvaro Cunhal. E se os pigmentos vermelhos tinham microfones de Moscovo?

A pequena capela que servia o palácio era decorada por oito telas de Paula Rego. O país católico convivia com a república laica nas cenas de Maria, uma delas com a mãe de Jesus com pernas abertas, em pré-parto. Ao lado, na Sala Império, o painel central do teto homenageava o rei D. João VI, rodeado de anjinhos e duas matronas com mamas róseas e oferecidas. Neste palácio, contou o jornalista Rocha Martins, "o príncipe desenhava ou pintava os seus quadros". O príncipe iria ser o rei D. Carlos, que ali pintou a Mulher em Cenário Mourisco. Os olhares saltavam, não para o cenário, mas logo para o belo par de mamas mouriscas.

Palácio de uma civilização em que a talvez maior das conquistas tenha sido levar os homens e as mulheres a tender para a igualdade. Os três últimos presidentes entraram para aquela casa em diversidade conjugal - um casado depois de se ter divorciado, outro casado e o terceiro divorciado e com namorada. Todos esses presidentes mais ou menos de uma geração que se formou também em salas de cinema, que lhes ensinou alguma coisa daquela progressão civilizacional.

Eles viram Até à Eternidade. Esse filme ficou famoso por muita coisa. Uma lenda com Frank Sinatra, com a máfia e a cabeça degolada de um cavalo, oito Óscares, a amizade de homens (Sinatra, Montgomery Clift...), um solo de trompete, um Ernest Borgnine sólido... Demasiadas boas coisas que esconderam o essencial do filme. Um homem e uma mulher apaixonados. Eles são belos (Deborah Kerr e Burt Lancaster) e dão um famoso beijo, enrolados numa praia havaiana. Ela diz-lhe que foi o melhor beijo dela. Ele pergunta quantos já ela dera. Ela pergunta se ele trouxe a máquina de calcular. Eles estavam de fato de banho.

Um dos pilares da civilização em que viveram aqueles três presidentes apoiava-se na naturalidade daquela cena da praia. Se lhes perguntassem se viram o filme, viram. Se lhe perguntavam do beijo, talvez se lembrassem. Já o diálogo era duvidoso que conseguissem reproduzi-lo. Bom sinal, entranhou-se-lhes. Mesmo que, neste ou naquele episódio, algum dos três não tenha merecido a maravilhosa lição. O filme antigo, é de 1953, foi para aqui trazido porque ilustra uma atualidade que o Palácio de Verão vivia.

[destaque:A saison burquíni, a estação fascista islâmica, como não se reproduziu nas nossas praias, não teve influência nas discussões e discursos de políticos. Ainda]

O Palácio de Verão era de verão de pleno direito seu. Ele poderia dizer com mais legitimidade sobre a sua bem-aventurada calmaria do que Filipe II de Espanha disse sobre a sua nova quinta: "Portugal é meu porque o herdei, porque o paguei e porque o conquistei." O Palácio de Verão, como aqui tem sido contado, podia viver a arte do compromisso e do discurso de mão estendida porque o seu país também era assim. Dentro da vasta civilização já referida a que pertencia, Portugal ainda podia reclamar--se de vantagens próprias: não tinha conflitos territoriais externos nem pulsões separatistas. Tinha uma só língua e um povo dado ao compromisso. E, o que começava a ser demasiado importante, era um país europeu com pequena comunidade muçulmana e ainda sem notória atividade totalitária islâmica.

Assim, a silly season, a estação parva habitual - que permitiu o folhetim ir por invenções inocentes, imagem do vivido na política nacional - não pôde ser relacionada com um drama vivido perto de casa, na nossa Europa. A saison burquíni, a estação fascista islâmica, como não se reproduziu nas nossas praias, não teve influência nas discussões e nos discursos de políticos. Ainda. Em França, a censura dos radicais islâmicos sobre os "seus" - empurrando-os a não serem franceses - ganhou mais um round. Tornaram a vida das mulheres impossível, agora na forma de se vestir na praia, como já o faziam nas ruas, nas relações entre homens e mulheres, no falar, comer e beber. A um mês do massacre de Nice, a escolha das praias locais para palco confirmou a provocação política.

Nas redes sociais portuguesas, a vantagem pendeu para a crítica da proibição do burquíni e menorizou-se a provocação dos criminosos. Em breve, haverá burquínis nas nossas praias e políticos a seguir a brisa já avançada pelos cobardes. Este episódio é para lembrar que gostar do compromisso não traz só as vantagens contadas no folhetim.

Continua amanhã. Leia os episódios anteriores do Folhetim de Verão em www.dn.pt

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