Se aprendermos o efeito psicológico do risco, lidaremos de outra forma com os produtos bancários

Francisco Miranda Rodrigues, recém-empossado bastonário da Ordem dos Psicólogos, fala sobre como a psicologia pode ser importante para melhorar a sociedade

Nos últimos meses, a vida do novo bastonário dos psicólogos não tem ficado longe da de um qualquer político em tour pelo país, a mostrar projetos e trabalho feito, a dispensar parte do seu tempo para se dar a conhecer, a ouvir as principais preocupações de quem representa. Menos de um mês depois de ter tomado posse para o mandato 2017-2020, quando nos encontramos no À Parte - as salas pequenas por onde se divide quem também ali almoça dão a sensação de estar em casa, ajudam a conversa a correr desde o primeiro momento sem aquele incómodo que por vezes se instala entre quem não se conhece - acaba de chegar do Porto, onde liderou a apresentação da direção regional do Norte. "Para a semana sigo para Coimbra, depois para Ponta Delgada, Funchal e Faro", conta. Manteve dos tempos de faculdade o interesse de ir de porta em porta, o gosto pelo contacto direto que lhe traz "um conhecimento muito mais fino da realidade".

Aos 42 anos, depois de um congresso em que ia voltar à consultoria em empresas, mas de onde saiu candidato a bastonário, assume uma posição que nunca imaginou vir a ocupar, apesar de ter estado envolvido na criação da Ordem "desde o primeiro momento" - um processo demorado e difícil que exigiu três tentativas para ter sucesso. "Não foi propriamente um acaso, a vida foi-me preparando para isto", diz Francisco, pai de quatro filhos entre os 4 e os 15 anos, que praticamente todos os dias faz o percurso Lisboa-Santa Cruz - para onde se mudou depois de divorciado.

Enquanto me estreio a sós com as azeitonas deixadas na mesa - "a campanha de seis meses deixou marcas do ponto de vista dos equilíbrios e estou a tentar reduzir excessos", explica, ainda que reconheça que não sofreu humilhações da balança, apenas não resistiu ao fator psicológico -, diz-me que Portugal está ainda numa fase muito embrionária da utilização das ciências psicológicas para benefício das pessoas e das comunidades. "Nos Estados Unidos, que têm a maior associação de psicólogos do mundo, a APA, há até uma tradição de contributo junto do presidente americano, naquela lógica do addressment", compara. "Sempre com esta perspetiva do contributo que estes profissionais podem dar. E revejo-me muito nisso." Razão pela qual quer marcar o seu mandato por este ganho de influência, como adiante tornará claro.

Por enquanto, vai-me contando como escolheu estudar na área de saúde sem nunca ter querido ser médico e se tornou psicólogo depois de no 10.º ano, ter ficado "fascinado com a hipótese de entender como funcionava o comportamento humano, que processos tornavam determinadas decisões mais ou menos prováveis". Há nele muito pouco de conversa de divã, o que provavelmente resulta de uma vida profissional a pôr a psicologia ao serviço das pessoas, não tanto a quem o pudesse procurar num consultório, embora também o tenha feito, mas muito mais intervindo já então diretamente na sociedade - foi diretor de recursos humanos de empresas, consultor de grandes grupos como a Jerónimo Martins, diretor de Qualidade, Ambiente e Sistemas de Saúde e Segurança da Fundição de Dois Portos, em Torres Vedras, onde viveu quase toda a vida. E é a essa transversalidade e à capacidade de entendimento e modificação de comportamentos que encontra na psicologia que quer dar gás. De que forma? Como homem prático que é, materializa a teoria num acontecimento recente que, de uma forma mais ou menos profunda, nos tocou a todos: a crise financeira.

"O dinheiro desmaterializado cria uma distância que propicia acontecimentos como a crise financeira"

Já decidido pelo risotto de alheira com espargos, depois de uma luta mental em que este derrotou outro, de caril, e com a autoimposta austeridade a exigir-lhe que o acompanhasse com água - eu opto pelo bife e a costumeira cerveja -, descreve em que medida pode existir esta ligação entre psicologia e finanças. "Há profissionais que podem dar contributos até na arquitetura dos sistemas financeiros, aplicando conhecimentos que os próprios bancos usam para vender os seus produtos aos clientes. Porque a regulação na verdade não os utiliza para nos proteger; o Banco de Portugal comporta-se por vezes mais como uma associação de bancos do que como um regulador."

Vinca que há documentação que demonstra essas falhas, nomeadamente apontando a origem da crise financeira nos Estados Unidos e citando o trabalho de Dan Ariely, "que há muito tempo trabalha a economia comportamental e estudou precisamente a crise e os efeitos psicológicos por trás dela". Uma das questões é o facto de o dinheiro se ter "desmaterializado, o que cria uma maior distância". "Esse distanciamento é altamente propício a que aconteçam situações destas. Isso e o facto de não haver grandes exemplos de punição face à dimensão dos acontecimentos."

Francisco Miranda Rodrigues defende portanto que é preciso trabalhar a literacia - financeira e não só - e que os psicólogos devem ter nisso um papel relevante. "O Banco de Portugal tem um programa dirigido às escolas, para dar literacia financeira aos miúdos, mas depois há um enorme hiato até se tornarem clientes bancários, e nada nesse programa toca estas dimensões dos efeitos psicológicos ligados ao risco. Se aprendêssemos isto não lidaríamos com os produtos bancários da mesma forma."

Daqui à política é um saltinho e reforçar e ampliar a influência dos psicólogos a este nível é um objetivo assumido - "Há sistemas em que o impacto é tão brutal que não se percebe como nos passa ao lado." Não só estabelecendo "uma ação, mais do que de governo, de regime - que permitisse trabalhar a longo prazo e resolver problemas da população que não têm resposta hoje" -, mas também avançando com propostas e contributos para ajudar em temas específicos. Nesse sentido, revela que a Ordem está a preparar um plano de prevenção de violência em contexto escolar e tem vindo a trabalhar junto dos grupos parlamentares para que se crie a figura do psicólogo do trabalho. "Todos já disseram que estão, por princípio, de acordo mas agora é preciso fazer acontecer, temos de ter medidas abrangentes que permitam trabalhar continuamente estas dimensões de riscos psicossociológicos no local de trabalho." Exemplifica a necessidade recorrendo a estudos europeus recentes que revelam que mais de 90% das entidades empregadoras concordam que o stress e o burnout penalizam muito a competitividade, mas uma percentagem semelhante assume que só toma medidas na área de segurança e saúde no trabalho quando a legislação a isso obriga. E para o bastonário, os profissionais que melhor podem fazer esse trabalho de avaliação, planeamento de intervenção e da própria intervenção são os psicólogos.

"As intervenções da psicologia têm tanto ou mais sucesso do que as psicofarmacológicas no tratamento da depressão, mas há pressão para ter resultados muito rápidos e práticos"

Ainda antes de a comida ocupar o seu lugar à mesa, já é evidente que vê a psicologia como uma área de ação alargada, que vai muito além da saúde, mental ou geral, e da educação. Para Francisco, é a disciplina mais transversal que existe e a que mais aposta em prevenção, um aspeto fundamental para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Razão pela qual diz estar a preparar um documento para criar uma agenda nacional de prevenção e desenvolvimento das pessoas e de coesão social. "Os psicólogos são os profissionais de referência para trabalhar transversalmente diferentes áreas e têm o dever de assumir perante a sociedade contributos para a melhoria do bem-estar dos cidadãos. Isso passa por um melhor acesso aos serviços dos psicólogos."

Há crítica na voz do bastonário para a falta de relevância dada à profissão que representa - "também porque é uma ciência mais recente e sofre do problema de não ser material, as pessoas não sabem muito bem o que faz o psicólogo, por oposição à imagem de um médico", concede. Mas defende que é preciso rever prioridades para contratar mais psicólogos e começar a mudar realidades, garantindo-lhes condições para o exercício da profissão.

"Na educação, por exemplo, não estão assegurados os serviços mínimos: um profissional com meio horário anda por várias escolas, faz quilómetros no seu próprio carro, sem despesas pagas, e recebe o que ganha um técnico superior à entrada da carreira; e o contrato é de nove ou dez meses, nem contratos plurianuais há." Esta realidade torna impossível o acompanhamento efetivo e a continuidade das intervenções, diz, o que "põe todos os objetivos em causa logo à partida". Também nas prisões encontra problemas: profissionais contratados por empresas a cinco euros/ hora para trabalhos que são de desgaste rápido e alto risco psicossocial. Uma realidade que revela que "o Estado não está de facto a garantir o que diz cumprir no papel".

Lembra uma promessa na Educação - "há um protocolo assinado connosco" - de contratar mais de 200 psicólogos neste mês, "o que seria significativo para começar a resolver problemas", e diz estar à espera da abertura dos concursos. Mas enquanto elogia a relação que a Ordem tem com a Direção-Geral de Educação, lamenta que Tiago Brandão Rodrigues não lhe dê a atenção que considera necessária. "Era bom que o ministro da Educação começasse por responder ao novo pedido de audiência que lhe dirigimos, para receber os nossos contributos."

"Nas escolas e prisões não estão assegurados os serviços mínimos. O Estado não está de facto a garantir o que diz cumprir no papel"

Já a saborear os cozinhados do chef do À Parte, Francisco Miranda Rodrigues diz entender que há uma dependência histórica e de construção da forma como alguns psicólogos entraram nos serviços ligados à saúde mental, mas defende que precisamos deles "em largo espetro e com serviços autónomos para cumprir estratégias mais amplas e transversais. Para a saúde em geral, e não apenas a mental." Fala, por exemplo, do papel que a psicologia pode ter em áreas como as doenças crónicas. "Na diabetes ou na obesidade, condições que estão ligadas a comportamentos e em que uma intervenção preventiva e de apoio à mudança de comportamento pode ser fundamental." Nesta área, tem até um projeto pessoal: para o doutoramento escolheu o estudo do gaming (jogo) no apoio à mudança de comportamentos. "O que faço é estudar de que forma as apps que pretendem ajudar a mudar comportamentos, nomeadamente na diabetes, podem ser mais eficazes, se podem sê-lo usando a gamificação num contexto de jogo sem o ser, com mais engagement."

É assim que o bastonário vê a psicologia ganhar corpo "numa dimensão política". "Vamos iniciar a participação de psicólogos no grupo de trabalho da Direção-Geral da Saúde para participar na saúde pública. As questões comportamentais têm de ser vistas como essenciais." Na lista de projetos da Ordem, há por exemplo planos para criar um grupo de trabalho para as áreas de eHealth - "já houve projetos-piloto como o Stop Depression, liderado pelo João Salgado, que funcionava com uma app para apoiar os profissionais no terreno. E nos EUA até já se regula as apps nesta área". E outro dedicado às questões ligadas à internet, que traga à discussão temas como o bullying nas redes sociais ou a dependência de determinados jogos online.

"O life coaching está em roda livre. É feito por pessoas de outras áreas, mas toca dimensões de ajuda que são atos psicológicos e o consumidor não está protegido"

Di-lo sem dar ares de demasiada seriedade a um assunto que não vê como dramático - "fez-se uma discussão parecida quando a televisão se generalizou", lembra. Ainda assim, reconhece que, uma vez que "todos temos necessidade de ter vida social e de sermos aceites pelos outros, de termos laços e sentimentos de pertença", e que às vezes podemos ter dificuldades que nos inibem, é normal que nos agarremos a respostas alternativas que aparentemente evitam as partes de que não gostamos e dão a ideia de substituir as que gostaríamos de ter. E a internet resolve? Não há resposta cabal. "Depende muito das situações."

É já com o prato principal despachado e os cafés a caminho - a contenção dele e a minha falta de vontade não deram hipótese às sobremesas - que a conversa chega a um problema bem maior do país: os números negros da depressão. "Ainda ontem, na cerimónia que fizemos no Porto, João Salgado questionava como olhamos para uma coisa que teve tanto impacto em nós como o que aconteceu aos bancos e não nos preocupamos com a depressão, cujo custo é muito superior." O que nos traz a outro projeto da Ordem: um programa nacional de prevenção e combate à depressão. O bastonário dos psicólogos reconhece que os números são dramáticos e lamenta que a maioria dos casos ainda vá parar às intervenções psicofarmacológicas, quando "toda a literatura científica diz que as intervenções da psicologia têm tanto ou mais sucesso e em fases iniciais e ligeiras são mesmo recomendáveis". Diz que há uma inversão da lógica - "ainda que, em alguns casos, seja preciso recorrer a psicofármacos". Porque é que isso acontece? "Porque não há recursos no Serviço Nacional de Saúde e dificilmente um privado resolve os problemas de uma população que não tem, maioritariamente, recursos para os pagar - e os seguros não cobrem de forma minimamente satisfatória as consultas nesta área." Reconhece também aqui "uma dependência injustificada da psiquiatria" e "uma pressão muito grande para ter efeitos rapidamente" que frequentemente conduz aos medicamentos - e em vez de se tratar a doença tenta-se acabar com os sintomas.

Com todos os cuidados durante a refeição, permite-se um excesso: acompanhar-me no segundo café, que uso como argumento para abordar um último tema antes de Francisco voltar para a Ordem, onde tem muitos projetos para alinhavar. A intervenção e influência que livros de coaching e motivational speakers têm ganho na nossa sociedade. Não é questão exclusiva de Portugal, mas é um assunto que preocupa o bastonário. "Temos alguns problemas, sobretudo com o life coaching", assume. E a razão é justificada: começou a ser feito em áreas, por pessoas de todas as esferas profissionais, mas de uma forma que "toca dimensões de ajuda que são atos psicológicos". Em alguns casos, em que chegam a sair da esfera da ética, há mesmo o risco de produzirem efeitos semelhantes aos de uma seita. A principal preocupação vem do facto de este tipo de atividades não estarem reguladas. "É a lei do mais forte e não há controlo ou proteção do consumidor." Razão pela qual esta é outra área sobre a qual a Ordem quer debruçar-se: "Estamos a tentar promover o papel do psicólogo enquanto coach e até já criámos o coaching psicológico para que o mercado possa distinguir os especialistas (dos amadores), para trazer alguma forma de proteção a uma área que está em roda livre."

À Parte

› Pão e azeitonas

› Água

› Imperial

› Bife à café

› Risotto de alheira com espargos

› 4 cafés

Total: 28,1 euros

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