Doentes assustados evitam urgências do hospital de São José

Médicos e outros profissionais admitem que haja doentes com receio após o registo de mortes e falhas na resposta a aneurismas

Um doente chegou ao Hospital de São José com um ferimento no braço. Nada de grave, mas ficou internado numa sexta-feira para ser operado na segunda. "O doente entrou em pânico. Achou que não havia médicos para o operar e começou a chamar pelos enfermeiros com receio de lá ficar", conta um médico do hospital ao DN. O caso não será o único. E os profissionais de saúde acreditam que há menor procura na urgência, onde ontem se esperava duas horas, em parte porque os doentes ficaram assustados com as notícias sobre problemas de resposta e mortes na área dos aneurismas."Acho que os doentes estão a vir menos e a evitar ir à urgência ", diz o mesmo clínico.

Tal como o DN noticiou ontem, vários hospitais atingiram o limite na resposta, chegando a ter mais de 12 horas de espera nos casos menos urgentes ou não urgentes. No entanto, segundo vários profissionais da unidade, a urgência de São José esteve relativamente calma. Fonte do Ministério da Saúde confirma que não têm sido relatados problemas com este hospital, até porque existem relatórios periódicos sobre a procura. Apesar da tentativa, o Centro Hospitalar de Lisboa Central não respondeu às perguntas enviadas nos últimos dias."

Um administrativo disse ao DN que "a urgência não tem estado complicada, nem nestes dias e muito menos quando comparada com o ano passado". Na altura em que o DN visitou a unidade, a espera era de duas horas mas já havia poucas pessoas a inscrever-se. Sobre as notícias relacionadas com a falta de resposta nos aneurismas cerebrais, disse apenas que "não há dúvidas de que terá tido algum impacto na procura. As pessoas estão mais sensíveis e evitam vir", refere.

Um outro profissional confirma a redução da procura. "Não há dúvida que este ano a resposta tem estado muito abaixo do ano anterior. E que não se têm registado os problemas que aconteceram noutras unidades, ainda longe do que se espera do pico da gripe. Não aconteceu nada como em Santa Maria ou como o Amadora-Sintra". Mas refere que os internamentos têm sido complicados, porque os doentes graves continuam a chegar. No ano passado, houve dias em que a espera ultrapassou seis horas. Foi num desses que ocorreu uma morte de um doente com AVC. Este ano, até julho, registou 145.128 urgências, menos 3500 do que em 2014.

Se na segunda-feira o Hospital de Évora chegou a quase 15 horas de espera, Santa Maria teve dez e várias outras ultrapassaram as quatro. Em São José, uma fonte disse mesmo que a urgência estava "às moscas", em relação ao habitual. E admitiu que as pessoas possam estar com mais receio de ir lá.

O impacto das notícias não surpreende os profissionais que trabalham nesta e noutras unidades. Aliás, segundo o DN apurou, quando se registaram os casos de cegueira em Santa Maria, os doentes evitaram ir à oftalmologia da unidade durante algum tempo.

Um outro clínico refere que a unidade tem tido picos de procura durante o dia, sendo menor de manhã. E se nos últimos dias tem estado mais calma, também admitem que no dia 2 houve problemas com o internamento de doentes e uma procura maior. "Tiveram de chamar profissionais dos pisos superiores e foram abertas mais camas de medicina. É possível que isso também tenha contribuído para fazer desanuviar as urgências."

A mesma fonte confirma ainda o eventual o efeito negativo das notícias, que deram conta da morte de um rapaz de 29 anos e de eventualmente outros quatro doentes por não haver pessoal de prevenção para responder a aneurismas rotos. "Talvez tenha havido alguma desmobilização. Foi um motivo de stress aumentado para os doentes".

Dia mais calmo em Lisboa

Um dos médicos que falou com o DN refere que o stress foi igualmente alto nas equipas. "É desmoralizante. Sentimos todos o impacto porque São José é uma grande escola de trauma, era o mais rápido a responder. As pessoas esforçam-se muito e ficaram desmoralizadas".

O dia de ontem esteve mais calmo de forma geral nos hospitais, mas a procura continuou a ser elevada nos hospitais. No São José, por exemplo, um doente verde (pouco urgente) esperava cerca de duas horas para ser atendido, disse um administrativo ao DN.

Perto das 17.00, a sala tinha bastantes pessoas, mas estava longe de estar cheia. Havia muitos acompanhantes à espera de familiares que estavam a ser atendidos. "Estou à espera da minha mãe, que tem 91 anos. Está com problemas respiratórios, dores de garganta", diz Fernando Figueiredo, que está desde manhã na urgência, porque a mãe está a fazer exames. "Foi atendida ao fim de duas horas e tal, mas é uma doente verde. Há três meses vim cá e ela esperou 12 horas.

Com pulseira verde estava outro doente que vive em Lisboa mas é de Leiria. "Disseram que ia esperar duas horas e quarenta minutos mais ou menos. Não me parece que esteja mal. Isto é o normal em Leiria, não numa urgência de uma cidade como Lisboa".

Administrativos e voluntários, que estavam nos corredores admitiram que a urgência estava de facto calma. "Fizemos as visitas aos serviços de observação e também estava tudo controlado", referiram, mas não deixaram de falar no desânimo das equipas com as notícias de que foram alvo.

Ontem, várias unidades estavam com tempos de resposta mais baixos. No Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN) , retomavam-se os cerca de 400 casos diários, tal como no Amadora-Sintra, que "já não estava a precisar de enviar doentes para o CHLN (Santa Maria)". Já o Garcia de Orta dizia que não chegou a ser enviado nenhum doente, apesar de haver essa indicação por parte de tutela em caso de necessidade. Vários hospitais reforçaram a sua capacidade de internamento, como o CHLN, com 80 camas adicionas no Pulido Valente, e o Curry Cabral, que veio desanuviar São José.

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