Rui Rio: "Não excluo a possibilidade de legislativas ainda antes das autárquicas"

Rui Rio, ex-presidente da Câmara do Porto

Ex-presidente da Câmara do Porto analisa como a economia vai condicionar o cenário político

Água mole em pedra dura. O ditado encaixa na perfeição na persistente defesa que Rui Rio faz daquela que considera a "grande reforma" a realizar no país. A única que na sua opinião pode fazer Portugal dar o salto. O ex-presidente da câmara do Porto acredita mesmo que se a regionalização "for bem feita" os ganhos de eficácia e de poupança nos dinheiros públicos serão muitos.

Rio admite que esta reforma, sobre a qual já teve dúvidas no passado, tem de ser "bem pensada e muito bem ponderada", mas é com ela que será possível "aproximar as decisões políticas dos problemas reais dos cidadãos". Tem sido esta uma das ideias centrais com que tem corrido Portugal. Desde janeiro, já foram 26 os sítios por onde passou e disse de sua justiça.

A concentração do poder político e decisor em Lisboa foi um dos fatores que o fez desistir da candidatura à presidência da República, não é estranho por isso que defenda com afinco a descentralização. Em outubro do ano passado quando decidiu não avançar para a corrida a Belém escreveu: "Num país profundamente centralizado como Portugal, lançar uma candidatura presidencial vencedora e nacionalmente reconhecida a partir de uma cidade que não a capital do país, é uma tarefa muito próxima do impossível".

Continua a acreditar que a renovação e modernização do regime, que considerava o alfa e o ómega de um mandato presidencial, passa também reforma do sistema político. "É quase uma dedução matemática", afirma ao DN. "Temos de fazer um conjunto alargado de pequenas e médias reformas que, no seu conjunto, acabem por ser uma rutura com o que temos. Uma rutura que signifique, na prática, o renovar de um contrato de confiança entre o povo e a política; que, a médio prazo, possa constituir um banho de credibilidade que lave a sujidade acumulada".

Mas lavar o quê? "Por exemplo, a falta de ética, a escassez de qualidade, a míngua de seriedade ou o défice de verdade e de frontalidade". Mas adverte Rio que, se continuarmos com o habitual discurso de que na política são todos aldrabões e desonestos, a breve prazo, esse perigoso exagero, poderá começar a aproximar-se mesmo da verdade. E isto porque "ninguém está disponível para ir de boa-fé para o serviço público e ser automaticamente considerado um oportunista".

"Não excluo-o a possibilidade de poder haver eleições antecipadas ainda antes das autárquicas"

De que políticos precisamos, então? "A questão de fundo tem a ver com o leque de escolhas que, em cada momento, o povo possa ter", afirma o antigo dirigente e deputado do PSD. Advoga precisamente que sem uma reforma séria do sistema político, não conseguiremos alterar a quantidade e qualidade da oferta, para que o leque de escolha se alargue. "Hoje há uma enorme dificuldade em se conseguir gente séria e capaz para militar desinteressadamente na política, e esse fenómeno é diretamente responsável por essa baixa de qualidade que quase todos identificamos", reforça.

Aquele que é visto como o potencial sucessor de Pedro Passos Coelho na liderança do PSD sublinha que este "desgaste" reflete um "divórcio brutal" entre as pessoas e o regime, seja ele relativo à política, ao sistema judicial, ao sistema financeiro, à comunicação social e à relação de poderes na sociedade. Dá particular destaque à incapacidade do sistema judicial, mas põe à cabeça dos problemas nacionais o endividamento que, afirma "mais não é do que o resultado de um conjunto de políticas irresponsáveis e muito pouco sérias ao longo dos anos; acrescidas de gravíssimos erros de um sistema financeiro, por onde passou muita gente irresponsável e alguma de perfil criminoso".

Mesmo que façamos tudo bem "cá dentro", se a UE não conseguir resolver os seus graves problemas, nós vamos sofrer consequências brutais

Pôr o país a crescer é outro dos desafios que entende imperioso, porque sem crescimento a "dívida será insustentável". E o ex-autarca não vê que isso possa ser atingido pelo consumo, seja ele público ou privado. "Do ponto de vista económico, o Governo arriscou para lá do que seria aconselhável. É justo começar a devolver o que foi tirado às pessoas por força do programa da Troika, mas deveria ter sido de forma mais gradual. Penso que era isso que o PS queria fazer, mas o acordo à esquerda obrigou-o a esse risco desnecessário. Isto gera incerteza e a incerteza é inimiga da confiança que, por sua vez, é a aliada natural do investimento".

Em face de como o país tem sido governado, sublinha que a economia tem tomado conta da política, pelo que vai ser mesmo a evolução da economia que irá condicionar decisivamente a vertente política. "Assim sendo, na análise que faço, não excluo-o a possibilidade de poder haver eleições antecipadas ainda antes das autárquicas."

É no investimento e nas exportações que vê o elemento "nuclear" para o crescimento económico saudável. Compete às empresas o papel principal, acrescenta Rui Rio, sendo que atribui ao governo a responsabilidade de fazer as reformas necessárias e acionar os mecanismos possíveis para a criação de um ambiente macroeconómico favorável. "Seguramente que também não podemos desprezar o papel dos fundos comunitários, que se bem aplicados, podem constituir um poderoso instrumento para o reforço da nossa competitividade nos setores transacionáveis", diz.

Rui Rio condiciona ainda o futuro do país à situação da União Europeia, que na sua opinião, atravessa, de longe, o maior período de instabilidade, de indefinição e de falta de liderança da sua história. "Mesmo que façamos tudo bem "cá dentro", se a UE não conseguir resolver os seus graves problemas, nós vamos sofrer consequências brutais; até porque facilmente começaremos a assistir a experiências extremistas em outros Estados-Membros. A crise de regime não é só em Portugal."

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