Futebol proibido em dia de eleições. "Vão fechar praias e cinemas?", pergunta PSD

PSD considera intenção do Governo um insulto aos portugueses. CDS não se opõe, mas duvida que futebol seja causa da elevada abstenção

O Governo prepara alterações ao Regime Jurídico das Federações Desportivas para proibir espetáculos desportivos em dia de eleições. Esta iniciativa não se aplicará no imediato, para as eleições autárquicas, mas será para avançar em breve, depois de a Liga de Futebol ter marcado jogos para o dia das eleições legislativas de 2015, das presidenciais de 2016 e, agora, das autárquicas de 1 de outubro.

Para esse dia estão marcados quatro jogos da I Liga de futebol, caso do clássico entre Sporting e FC Porto, às 18:00, mas também Marítimo-Benfica (20:15), Sporting de Braga-Estoril-Praia (16:00) e Belenenses-Vitória de Guimarães (20:30).

"No desporto existe um regime jurídico das federações desportivas e é a esse regime jurídico que vamos propor alterações por forma a que eventos e espetáculos desportivos, sublinho desportivos, não coincidam com dias eleitorais", disse à Lusa o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, em reação à notícia hoje avançada pelo DN.

O governante admitiu que as recomendações da Comissão Nacional de Eleições (CNE) para que não haja coincidência de espetáculos desportivos em dias de eleições "não têm sido atendidas", admitindo que o Governo quer reforçar essas recomendações.

Para o PSD, trata-se de um "insulto aos portugueses" e uma "manobra de diversão".

"Achar que os portugueses, ao fim de mais de 40 anos de democracia, não têm a consciência da importância do seu direito de voto e o possam confundir com outro tipo de atividades lúdicas, é tratar os portugueses como se fossem crianças", disse Marques Guedes.

O deputado ironizou sobre "o que virá a seguir" e deixou quatro perguntas: "Vão proibir os cinemas? Os teatros? Vão mandar encerrar os museus? Mandar encerrar as praias ou os centros comerciais?".

"Isto é profundamente ridículo", sintetizou.

Para Marques Guedes, trata-se também de uma "manobra de diversão" da parte do executivo do PS e de "entreter as pessoas, escondendo as falhas do Governo". "Como não conseguem fazê-las, arranjam este tipo de manobras", afirmou.

O CDS não se opõe à intenção do Governo, mas duvida que a realização de jogos de futebol seja causa da abstenção. "Se o Governo for por diante, não vejo mal nisso, mas também, com franqueza, não acredito que os elevados níveis de abstenção no nosso país tenham a ver com um pontual jogo de futebol", afirmou Assunção Cristas.

A líder centrista defendeu que, "idealmente, no dia das eleições", quanto "menos outras atrações, melhor", mas sublinhou que "as urnas estão abertas muitas horas" e "as pessoas que querem votar têm muitas horas para o fazer e podem organizar o seu dia para votar mais cedo e depois verem o seu jogo de futebol".

"Quando está sol, diz-se que é por causa do sol, porque as pessoas vão para a praia, quando chove diz-se que é por causa do mau tempo que as pessoas ficam em casa", declarou.

"Com certeza que tudo isso terá alguma interferência, mas aquilo que enquanto política mais me preocupa é saber o que é que nós podemos fazer para que a nossa mensagem seja entendida por parte das pessoas a ponto de sentirem que vale a pena sair de casa e organizar o seu dia de domingo para poder passar pela mesa de voto", sublinhou.

O líder parlamentar do PS e também presidente do partido, Carlos César, desdramatizou hoje a realização de jogos de futebol no dia das eleições autárquicas e advertiu que legislar especificamente sobre eventos desportivos, embora possa ser útil, pouco adianta à participação eleitoral.

Na perspetiva do presidente do Grupo Parlamentar do PS, "é claro que seria preferível outros eventos não contribuírem para qualquer perturbação no dia do ato eleitoral".

No entanto, salientou logo a seguir Carlos César, desde que não se coloquem problemas de segurança, não há "um drama no facto de estarem marcados jogos de futebol".

"Até eu, que votarei em Ponta Delgada, poderei estar num estádio em Lisboa. Em maior risco de privação cívica estão os muitos que trabalham ao domingo", sustentou o presidente do PS.

Ontem, o líder do partido, Pedro Passos Coelho, disse não acreditar que a marcação de jogos de futebol no dia das eleições possa constituir "um problema extraordinário".

"Tenho os portugueses numa conta bastante mais elevada do que às vezes se parece poder extrair das enormes preocupações que outros políticos vêm trazendo para o espaço público. Tenho a certeza que os portugueses não deixarão de votar", afirmou, lamentando que as eleições autárquicas "nem sempre mobilizem tanta votação" quanto seria desejável.

Para Passos Coelho, os portugueses "têm já uma maturidade muito grande para saberem o que querem fazer, se querem ir de férias, se querem ir votar, se podem conciliar essas suas escolhas com a própria votação", não havendo "nada que impeça votar e ir ao futebol".

Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, também ontem, defendeu que a realização de jogos de futebol em dia de eleições autárquicas não é a decisão mais sensata.

"Esta é uma situação repetida já em 2015 [eleições legislativas]. Na altura, a posição de todos os partidos - e o Bloco de Esquerda acompanhou - é que essa não era a decisão mais recomendável, mais sensata", afirmou.

Na terça-feira, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) reiterou que é desaconselhável a realização de eventos como jogos de futebol no dia das eleições autárquicas porque podem potenciar a abstenção.

A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) tinha enviado nesse dia uma carta à CNE, na qual justificava os motivos que levaram a agendar jogos para o dia das eleições autárquicas, em especial o 'clássico' Sporting-FC Porto.

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