Professores recebem formação para prevenir suicídio nos jovens

Projetos-piloto. Alertam para sinais de risco e ensinam o que fazer. Experiências avançam em Aveiro, Setúbal (meio escolar), Évora e Porto (saúde infantil). Faltam psiquiatras e pedopsiquiatras

Professores e profissionais de saúde vão receber formação para detetar e encaminhar para acompanhamento crianças e jovens com sinais de sofrimento ou de depressão. A medida faz parte do plano de prevenção do suicídio em meio escolar e é também uma das áreas que a coordenação nacional de Saúde Mental quer ver reforçada.

O pedido de prolongamento do Plano Nacional de Saúde Mental até 2020, com especial enfoque nos cuidados comunitários e prevenção, já foi feito ao Ministério da Saúde. Este é dos temas a ser debatido nos dois dias da Conferência Nacional de Saúde Mental, que começa hoje com a presença do ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes.

"Queremos ter melhor capacidade de fazer diagnóstico e tratamento da depressão e apostar na promoção e prevenção nas escolas com o aprofundamento de dois projetos de saúde escolar e saúde infantil e juvenil que começaram em dezembro de 2015 e que já têm financiamento garantido para este ano, com cerca de 40 mil euros cada", disse ao DN Álvaro de Carvalho, coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental.

O primeiro é um trabalho desenvolvido com a direção-geral da educação, o segundo com os cuidados de saúde primários. O objetivo é o mesmo: "Capacitar os professores e os profissionais de saúde a encontrarem e valorizarem sinais de sofrimento emocional nas crianças. Ainda há muita iliteracia nesta área. São manifestações que podem resultar em perturbações do sono, da alimentação, comportamento, autoinfligir lesões.". Aveiro e Setúbal são as zonas escolhidas para o projeto em meio escolar, Évora e Porto para os projetos-piloto na saúde infantil.

"Tiveram muito êxito. A ideia é estender o projeto a todos os agrupamentos de centros de saúde", adiantou, referindo que estão a ser desenvolvidos estudos para perceber a prevalência de perturbações mentais em crianças e adolescentes e para avaliação de prescrição de psicofármacos infantil, por causa do consumo de alguns medicamentos para a hiperatividade.

Há uma outra questão que preocupa Álvaro de Carvalho. O envelhecimento dos psiquiatras e pedopsiquiatras. De acordo com inventário de pessoal da saúde da Administração Central do Sistema de Saúde, em 2014, existiam no SNS 799 psiquiatras (incluindo internos), mas a maioria (222) entre os 50 e os 59 anos. Já pedopsiquiatras eram 161, com a maioria dos profissionais entre os 40 e os 59 anos.

"Existem 40 serviços de saúde mental em hospitais, 36 com unidades da infância. Algumas só têm um pedopsiquiatra, pelos mesmos motivos de faturação. Procuro que esta seja uma das áreas de prioridade de formação. Só temos dois centros com capacidade formativa", refere.

"Vários psiquiatras saíram em poucos meses de Beja porque outros países ofereceram residência, mais férias, viagens ao país. Santiago do Cacém tem um serviço de psiquiatria criado desde 1998 e apesar de várias tentativas nunca conseguiu profissionais. Portalegre tem carência e o Algarve não chega para as encomendas. Vila Real, Bragança, Castelo Branco têm um ou dois psiquiatras. Se existisse garantia de equipas multidisciplinares não seria tanto um problema", aponta. As normas indicam um psiquiatra por cada 25 mil habitantes e um pedopsiquiatra por 65 mil.

Nova forma de pagar saúde mental

Outro tema em debate na conferência é o financiamento. Os hospitais não estão a apostar tanto nos cuidados na comunidade em saúde mental como a lei prevê por causa da forma como são pagos, diz o coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental. É por isso que vai propor uma nova forma em que os hospitais não recebem apenas por consulta ou internamentos, mas um valor médio pelos cuidados previsíveis que o doente vai precisar, incluindo continuados.

A lei da saúde mental coloca os cuidados na comunidade como uma prioridade - aponta para equipas comunitárias por cada 50 mil habitantes (zonas menos povoadas) a 200 mil (zonas urbanas) - e os hospitais apenas como uma referência para internamento e urgências. Mas a aposta não tem acontecido como desejado. "Há uns anos a Administração Central do Sistema de Saúde reforçou o preço das consultas para apoiar o trabalho não médico, mas nos hospitais não se encontram psicólogos ou enfermeiros porque só os médicos faturam. Os hospitais não recebem por atos não médicos e por isso evitam o trabalho comunitário. Os hospitais em parceria público-privada, por exemplo, não fazem consultas na comunidade", frisou Álvaro de Carvalho.

O apoio em casa torna-se ainda mais importante quando a aposta foi desinstitucionalizar os doentes. É por isso que vai propor um novo modelo de de financiamento e gestão dos serviços de saúde mental, criado no âmbito do EEA-Grants [programa de financiamento europeu]. "O dinheiro segue o doente e os hospitais não recebem por ato (internamento ou consulta) como acontece agora. Este projeto vai propor - a decisão será depois da tutela - um modelo de financiamento que tem em conta a realidade prática da saúde mental. A ideia é que não seja por ato nem per capita, mas uma espécie de preço compreensivo dos cuidados previsíveis a que cada doente tenha direito e que inclua cuidados continuados. O objetivo é que seja aplicado a todas as doenças mentais", concluiu.

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