Presidentes que os portugueses amaram, odiaram e assassinaram

O Zé Povinho põe os políticos na ordem

Sidónio Pais foi um Presidente da República que incendiou paixões e ódios. Foi morto, sucedendo-lhe António José de Almeida, o mais consensual dos antigos presidentes.

Na vila de Caminha há um pequeno bolo servido nos cafés que tem a estranha forma de um caixão. Poder-se-ia pensar que o aspeto poderia desagradar aos clientes mas isso é coisa que não acontece, pois os ingredientes - ovos, açúcar e amêndoa - fazem esquecer qualquer memória por mais mórbida ou polémica que seja. A razão do nome do bolo perde-se nos tempos, mas ninguém nega que a principal razão de o sidónio se chamar assim deve-se ao antigo presidente da República Sidónio Pais, filho da terra e o único presidente português assassinado durante o seu mandato.

O presidenticídio ocorre a 14 de dezembro de 1918 e, se na altura divide o país ao meio, poucos são os caminhenses que atualmente lamentam o homicídio, visto que as atitudes ditatoriais e de repressão não deixaram ninguém indiferente, mesmo que tivesse sido o primeiro e único presidente eleito por sufrágio direto na I República.

Sidónio Pais é por isso o melhor exemplo para se perceber como é a relação dos portugueses com os seus antigos presidentes da República. E o que se percebe da opinião pública confirma que Sidónio é um caso extremo, em que a unanimidade não existe e a preservação da sua memória só se verifica por decisão do governo central ou numa praça a que não mudaram a toponímia para evitar contestações populares.

É pela primeira razão que o Agrupamento de Escolas de Caminha voltou há poucos anos a ter o nome do presidente, mesmo que quem por lá passe só leia na fachada Escola Básica e Secundária de Caminha. De Sidónio Pais nem uma letra, e o professor de História Paulo Torres Bento explica porquê: "O nome deixou de aparecer, era demonizado pelos republicanos e após o 25 de Abril ainda menos consensual ficou. Só nos anos 90 é que o nome reaparece associado à escola e, com o processo de informatização entretanto realizado, um dia damo-nos conta de que Sidónio Pais, o nome do estabelecimento mais antigo, tinha sido escolhido pelo Ministério da Educação para ser a nova denominação."

O professor confessa que não houve grande contentamento, mas não existiu uma contestação pública frontal: "A sociedade civil caminhense olha com relutância o seu nome, sendo os mais velhos contra e evita-se que os mais novos sejam contagiados. É uma discussão que está no limbo."

Quando se escutam os mais novos, três alunos de Humanidades, a reação é de indiferença. Afinal, o mandato de Sidónio Pais está quase a um século de distância e a atitude dos mais antigos não ajuda a esclarecer o estatuto de um dos caminhenses mais famosos. Eduarda e João têm 17 anos e Ying-Ying, que veio de Xangai aos 8 e conta 19, conhecem bem Sidónio. Dos bolos de que gostam e de o estudar. Se Ying-Ying não tem antepassados caminhenses, já Eduarda e João sim, mas esse é um tema que os familiares não comentam. Escolheriam Sidónio para um trabalho escolar? Eduarda diz que é um tema complexo e fala pelos três: "Fico com um pé atrás. Será que estou a glorificar um ditador?"

Certo é que a casa de Sidónio Pais em Caminha está em ruínas, o que leva a dizer que a sua posteridade é amarga na própria terra, e se não fosse o doce dos sidónios ainda o seria mais.

António José de Almeida, o presidente eleito que se segue e o único da I República a cumprir o mandato por inteiro, é um caso oposto ao de Sidónio. É o que se observa em Penacova, onde o seu busto foi retirado do jardim e colocado em lugar bem visível. Uma mudança que lhe deu outro protagonismo, como se pode confirmar quando se pergunta a um estudante o que pensa daquele presidente. Bruno, 15 anos, tem opinião sobre o assunto mesmo que nunca tenha feito na escola algum trabalho sobre a figura: "Já falámos dele, já vi várias caricaturas na biblioteca e sei da sua relevância". E diz outra coisa: "A estátua está aqui há pouco tempo."

É a vereadora da Cultura, Fernanda Veiga, que explica a mudança de local da estátua: "António José de Almeida nasceu aqui perto, em Vale da Vinha, e Penacova tem muito orgulho em fazer parte da história por essa razão." Explica que até há uns anos a ligação do presidente à região era ignorada, mas que a situação foi alterada nos últimos anos: "Estamos a recuperar a casa onde nasceu, divulgamos a sua história e tentamos sensibilizar para a importância do presidente para o país e para a região."

Tal como em Caminha, a criação dos agrupamentos escolares alterou o nome do estabelecimento local, só que em Penacova foi ao contrário e perdeu o título de Escola António José de Almeida. No entanto, é o nome do presidente que se mantém na fachada ainda.

O historiador Luís Reis Torgal é um dos que têm colaborado na fixação desta memória, tendo escrito uma biografia presidencial, que considera um dos mais consensuais: "Tornou-se uma figura canónica e é o mais conhecido porque foi conciliador. Tanto no Brasil, onde é dos presidentes portugueses mais apreciados, como na região onde nasceu, já que três localidades o homenageiam através do feriado municipal".

Presidente que encontrou Jesus

Sidónio Pais é persistente na presença e quando se visita o Museu Bernardino Machado, em Famalicão, o diretor José Leite não deixa de mostrar uma fotografia em que Bernardino Machado dá uma aula em Coimbra - de Antropologia - e os sete alunos estão de pé e com roupas académicas à exceção de um fardado de militar e sentado. Quem é? Sidónio, que irá depor da Presidência o mestre anos mais tarde. Essa é uma das muitas imagens existentes no museu que Famalicão dedicou ao antigo presidente, mas existem muitas outras, interessantes ou curiosas, tal como o quadro que o empresário Grandela mandou pintar em 1909, de Bernardino a passear com Jesus, em que António Baeta pinta Cristo com as feições do comerciante.

Este museu biobibliográfico tem um imenso espólio sobre a I República e em 2015 foi visitado por mais de oito mil pessoas, que assistiram a conferências, debates, exposições e a outros eventos de uma intensa agenda cultural. A que acresce a recuperação de toda a obra escrita pelo presidente, que está a ser publicada sob orientação do catedrático Norberto Cunha. Professor que destaca o espírito de reforma de mentalidades da I República, que tem em Bernardino Machado um dos seus melhores exemplos: "Nunca esteve filiado em partidos e resistiu a alterar o seu pensamento político quando confrontado com as fases da evolução governativa. Possuía uma contemporaneidade no que pensava ser as políticas sociais necessárias e defendia aqueles que dizia ser "os infinitamente pequenos", bem como contestava a bipolarização política." Entre os textos que o museu está a editar, destaca um em que o presidente afirma: "A política não é um Alcorão."

Congestão do rio Zêzere

Sidónio Pais volta a aparecer e, mesmo distante de Caminha, o presidente trágico surge envolvido num drama na região de Ferreira do Zêzere. Ainda criança, vai com o pai a Dornes, onde este se reúne com vários amigos para uma pescaria seguida de almoço. Após a refeição decide banhar-se no rio e morre de congestão. Ainda há quem se lembre de ouvir contar a história, como é o caso de Paulo Alcobia Neves, um conhecedor do património e da história: "O filho sobe a rua que vai do rio à aldeia e pede para chamar o padre de modo a ser dada a extrema-unção ao pai. Há ainda outra ligação, o homem que o matou era daqui."

Sidónio voltará a Dornes porque o pai fica enterrado no cemitério local, tal como vários presidentes estão ligados ao rio e a Ferreira do Zêzere: "É o caso de Bernardino Machado e de Américo Tomás. Este chegou a ter uma praça com o seu nome no centro de Ferreira do Zêzere, mas o nome foi mudado após a Revolução.".Também Mário Soares acompanhava ao Zêzere frequentemente o pai. Mas não fica por aqui a ligação da zona à República, explica Alcobia Neves: "Foi aqui que Alfredo Keil orquestrou o futuro Hino Nacional, A Portuguesa, e que o ensaiou com uma filarmónica local."

Uma avenida para Eanes

A repercussão dos ex-presidentes na sua própria terra natal também pode ser avaliada com os mais recentes, os do pós-25 de Abril. Que, excecionalmente se comparados com a maioria dos antecessores, cumpriram o primeiro mandato por inteiro e viram-no renovado. É o caso do atual Presidente, Cavaco Silva, e dos anteriores: Jorge Sampaio, Mário Soares e Ramalho Eanes. Figuras que destoam quando comparados com Gomes da Costa, que só foi magistrado por dez dias, ou Mendes Cabeçadas por 17, ou os 138 de Spínola em 1974. Os que mais tempo estiveram na Presidência foram Óscar Carmona, 24 anos e 140 dias, e Américo Tomás com 15 anos e 259 dias. Já agora, diga-se que Tomás tem pouca representatividade toponímica, sendo uma das exceções a rua com o seu nome no bairro de Camarate.

O primeiro presidente eleito democraticamente, Ramalho Eanes, esteve em Belém nove anos e 238 dias, tempo suficiente para marcar o país e tornar conhecida a sua terra, Alcains, até então apenas popularizada pela farinha Branca de Neve. Não tem uma estátua, mas a antiga Rua da Levandeira foi rebatizada Avenida António Ramalho Eanes e até teve homenagem local por ocasião dos seus 80 anos.

Segundo Manuel Peralta, que também foi presidente - só que da junta de freguesia -, Eanes está "presente na memória coletiva local, que tem orgulho num conterrâneo que chegou a presidente e reconhecem-se nos valores que defende". Daí que em Alcains as votações em Eanes sempre fossem maciças quando ia às urnas ou no partido que criou, o PRD.

A maçonaria nos presidentes

Na história da Presidência da República não se pode ignorar a influência da maçonaria. O historiador António Ventura destaca na I República três presidentes que foram maçons: Bernardino Machado, da Loja Perseverança de Coimbra, desempenhou as funções de grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido. Quanto a Sidónio Pais, refere: "Teve uma militância maçónica mais curta, iniciada em 1911 na Loja Estrela de Alva, de Coimbra. Pediu atestado de quite em 19 de junho de 1912, poucos dias depois da saída do governo de Augusto de Vasconcelos. Não era por isso maçon ativo quando foi presidente." António José de Almeida, acrescenta, foi iniciado em 1907 e filiado na Loja Montanha, de Lisboa. Foi eleito grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido para o triénio 1929-1931, não obstante a saúde muito debilitada, que não lhe permitiu exercer o cargo. Também Mendes Cabeçadas foi iniciado maçon por comunicação pelo grão-mestre Magalhães Lima, em 1911, e filiado na Loja Pureza, de Lisboa. Após Abril de 1974, só Mário Soares revelou ter sido iniciado enquanto esteve exilado em Paris: "Presumivelmente em 1972, na Loja Compagnons Ardents, mas após o regresso não retomou qualquer atividade maçónica."

A entrevista com Jorge Sampaio

O 18.º Presidente da República, Jorge Sampaio, revela em entrevista como tem sido a sua vida após os dois mandatos. A luta contra a tuberculose e a Aliança das Civilizações por conta do Secretário Geral da ONU.

Leia a entrevista completa na edição em e-paper e papel do DN

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