Políticos unidos na dor mas desavindos sobre a floresta

Com agendas suspensas, líderes partidários lamentam perdas humanas. Ordenamento do território foi prioridade eleitoral

De luto, o país político uniu-se no lamento e na consternação. Agora é o tempo da dor e das autoridades, não o dos políticos. Antes, sem exceção, todos os partidos fizeram o diagnóstico sobre os fogos florestais.

Em tempo de campanha eleitoral, em 2015, o consenso não existia e as florestas também eram palco de acusações. PSD e CDS - que concorriam em coligação - definiam no seu programa que era necessário "intensificar os esforços ao nível da defesa da floresta contra incêndios, nomeadamente ao nível da sensibilização e da execução das redes primárias e de faixas de gestão de combustível na defesa da floresta contra incêndios". Os fogos mereciam "atenção particular", "atento o risco que Portugal apresenta por força das condições climatéricas".

Já o BE apontava então um culpado: o governo PSD/CDS, que não atuou "sobre as causas dos incêndios florestais e [liberalizou] a plantação selvagem do eucalipto". Os bloquistas prometiam "a revogação" dessa liberalização. Com outra nota: "No plano nacional de combate aos incêndios florestais a componente da prevenção deve ter um financiamento superior à do ataque direto."

O PCP defendia uma política florestal que revogasse "a lei da arborização e rearborização", realizasse "o cadastro rural como condição de um adequado ordenamento florestal" e, entre outras, protegesse "a floresta contra incêndios, promovendo a prevenção".

Depois do verão passado, já com as chamas a serem notícia, o Governo socialista antecipou uma reforma da floresta, que foi aprovada num Conselho de Ministros extraordinário, a 21 de março, no Dia da Floresta, para pôr fim ao inverno do nosso ordenamento do território. Nessa reforma florestal, antecipava-se a "gestão e ordenamento florestal", a "titularidade da propriedade" e a "defesa da floresta nas vertentes de prevenção e de combate aos incêndios".

Depois da tragédia do fim de semana, Passos Coelho cancelou a agenda do PSD para esta semana, tal como Assunção Cristas fez com as iniciativas do CDS. O BE também cancelou a sua agenda até amanhã, último dia de luto nacional. E o presidente do Parlamento convocou para amanhã uma conferência de líderes extraordinária para reagendar os trabalhos parlamentares. Ferro Rodrigues transmitiu a sua "solidariedade para com as famílias das vítimas mortais" e notou que "como sempre acontece numa democracia, no tempo próprio, tudo será objeto de avaliação e escrutínio".

O presidente do PSD, Passos Coelho, deu o mote ainda na noite de sábado, numa iniciativa em Ansião, concelho vizinho dos municípios onde a morte corria célere. "Agora é o tempo das autoridades atuarem, não é o tempo dos políticos", disse.

Também Assunção Cristas, líder do CDS, notou que este é ainda o tempo da dor. "Hoje estamos todos unidos no luto nacional por esta tragédia que está a assolar o centro do nosso país, no distrito de Leiria". E acrescentou: "É o tempo para estarmos unidos em luto pelas famílias, pelos amigos."

A coordenadora do BE, Catarina Martins, também sublinhou que, perante "uma tragédia como nós nunca vimos", este momento é de dizer "o pesar para com as famílias e os amigos das vítimas".

E ao "profundo pesar" que Jerónimo de Sousa transmitiu em nome do PCP pelas vítimas, o secretário-geral comunista pediu que, "tendo em conta que se mantêm condições climatéricas tão hostis é preciso tomar medidas de exceção em todo o país para evitar novas tragédias, canalizando meios que possam dar resposta a esta situação excecional". Para as vítimas desta tragédia, estas medidas e a reforma virão tarde demais.

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