O Presidente à procura do tom. Entre os afetos e a política

Em Roma, houve presente pessoal para o Papa. Vaticano recordou debate sobre eutanásia. Não é altura para falar, diz Marcelo

Há uma multidão que mergulha na imensa nave da Basílica de São Pedro, no Vaticano, mas só o facto de os seguranças irem abrindo caminho para a passagem de Marcelo Rebelo de Sousa torna notada a presença do Presidente da República. Acompanhado do chefe de protocolo da Santa Sé, monsenhor José Bettencourt, Marcelo pôde admirar a Pietà de Miguel Ângelo para lá do vidro que protege a obra das multidões, e, por instantes, recolhe-se junto do túmulo de João Paulo II, numa das capelas laterais da basílica - benze-se e ajoelha-se.

Marcelo Rebelo de Sousa deixou para trás o encontro com o Papa Francisco e a reunião com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Patrolin. Aí, a dimensão oficial e política da viagem à Santa Sé é justificada, uma vez mais, por reafirmar, "volvidos mais de oito séculos", "de um relacionamento entre a Santa Sé e Portugal".

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Mas há uma dimensão pessoal e afetiva, que se reconhece nas palavras do católico Marcelo. O Presidente fez questão de oferecer ao Papa (a quem se refere quase sempre como Santo Padre ou Sua Santidade) um registo de Santo António, da sua coleção privada. Foi "um presente pessoal, meu, afetivo, expliquei isso primeiro ao Santo Padre", relata depois aos jornalistas. "Eu tenho uma coleção de registos, faço-a há muitos anos, escolhi talvez um dos mais bonitos, alusivo a Santo António de Lisboa, para oferecer ao Santo Padre, para ser um presente pessoal, personalizado, e que ele entendesse o seu significado." Para além de ter levado seis paramentos desenhados por Siza Vieira, de cores diferentes para os vários tempos litúrgicos.

Marcelo reconhece ainda que "ficou muito patente o modo como o Papa acompanha o que se passa em Portugal". Será o Vaticano a revelar, no seu site, o quanto Francisco acompanha a atualidade portuguesa. Segundo os seus serviços de informação, "durante a visita, a primeira no estrangeiro do Presidente Marcelo depois da inauguração do seu mandato, foi expressa grande satisfação pelas boas relações existentes entre a Santa Sé e Portugal, bem como pela contribuição da Igreja na vida do país, com especial referência para o debate na sociedade sobre a dignidade da vida humana e da família". Está lá dito, sem estar escrito: o debate que, neste momento, se faz é o da eutanásia e o da procriação medicamente assistida.

Só à noite, já em Madrid, depois de jantar com o rei Felipe VI, Marcelo justifica a sua omissão. "No momento que entender como adequado pronunciar-me-ei sobre o tema", escusando-se a revelar o conteúdo da conversa mantida com Francisco. "Em Roma já tive ocasião de dizer que não entrava em pormenores sobre o encontro, não entrarei em pormenores. Até agora não considerei adequado pronunciar-me sobre ele."

Com o Papa fala em espanhol e depois em inglês com o cardeal italiano, que exerce uma função que equivale a um primeiro-ministro, como explica o próprio Marcelo, num registo de professor que ainda se lhe entranha. Sobre o encontro com o Bispo de Roma, sublinha que "o Papa Francisco referiu-se a Portugal e aos portugueses com muito apreço". Segundo o Presidente, que manteve uma conversa "a sós", o Papa tem recordações "de infância" com portugueses. Em Buenos Aires "lidou de muito perto com portugueses", numa área porteña onde havia muitos portugueses emigrados na Argentina, e nele o jovem Jorge Maria Bergoglio aprendeu a ver nestes emigrantes "um povo trabalhador, humilde, sério, fraternal e solidário". Francisco falou de Portugal "de um modo quase carinhoso".

É este Papa que o Presidente gostava de ver no país, por ocasião dos cem anos dos acontecimentos de Fátima. O "centenário das aparições" é, pois, o pretexto para a viagem: "Tive a oportunidade de entregar a Sua Santidade um convite formal do Estado Português para a visita em 2017 a Portugal", reiterou na conferência de imprensa que teve lugar na Embaixada de Portugal na Santa Sé.

"Não estou, neste momento, autorizado a poder dizer publicamente qual a posição do Santo Padre. O máximo que posso dizer é que saí muito feliz." E nada mais disse sobre esta viagem: "Com isto respeito o teor da audiência, nos termos em que ela decorreu." É isto: Marcelo procura o tom para a sua Presidência, entre o teor que se lhe conhecia e os termos em que ela está a decorrer.

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