O paraíso dos bancários que a Europa matou

Na viagem ao interior de Portugal, o DN continua rumando a norte. Ontem o destino foi Almeida, distrito da Guarda. Aqui sentimos as consequências do fecho de um banco.
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A dependência da CGD continua lá, fisicamente. Uma pequena antecâmara com duas caixas multibanco, uma do banco, outra da SIBS, e depois a dependência propriamente dita, grande - e deserta.

O banco público cumpriu a promessa de fechar a sua dependência em Almeida. Mais uma manobra de retirada do Estado de um interior já se si despovoado. À porta, o senhor Horácio Nascimento, 76 anos, conversa com o DN. Indignado, retrata-nos como agora funciona ali o banco público.

De manhã chega, todos os dias úteis, uma funcionária, que transporta de dentro da dependência para a antecâmara onde estão as caixas multibanco uma pequena mesa, uma cadeira, um computador portátil e um telefone. Liga tudo e fica à espera dos fregueses.

Esses são geralmente idosos. Pessoas que pedem ajuda para usar as caixas multibanco ou atualizar as cadernetas - essa eterna instituição da CGD - ou que vêm resolver os seus problemas. Pessoas sem capacidade de se deslocaram a Vilar Formoso, onde fica a dependência mais próxima.

"O que eu sinto é pura vergonha. As pessoas ficam ali a amontoar-se, não há privacidade nenhuma, fica tudo a saber dos problemas uns dos outros. E o sigilo bancário, como é?" Não é. E isto ao mesmo tempo que outros - turistas, por exemplo, que são muitos - usam os atendedores automáticos, os quais, agora com muito mais uso porque se deixou de levantar dinheiro nos balcões, se esgotam muito mais depressa.

Acontece que Horácio Nascimento até sabe do que fala. Toda a vida foi bancário, profissão de que é reformado. Almeida, diz, tem o problema de, sendo capital de concelho, não ser na verdade a maior vila do município. Essa é Vilar Formoso, porventura a principal fronteira terrestre de entrada e saída em Portugal. Foi lá que trabalhou a vida, começando pelo Banco Pinto Magalhães, que quando se reformou já se chamava Banco Mello.

"Aquilo - diz - eram bancários por todo o lado. Chegamos a ser aí uns duzentos!" Mas depois Portugal entrou na CEE - e deixou de haver fronteiras, mudança fatal para algumas profissões, como a Guarda Fiscal. E mais tarde, na viragem do século, Portugal acedeu ao euro.

Ora o que fazia de Vilar Formoso o paraíso dos bancários era o negócio cambial. Muita gente que entrava ou saía de Portugal ali parava para converter pesetas em escudos ou vice-versa. "Quando veio a moeda única acabou-se tudo. Foi uma razia, despedimentos, reformas antecipadas, etc. Eu reformei-me."

O que ainda sobrevive em Vilar Formoso - extremo leste da autoestrada A25, que cruza o país todo na horizontal até ao mar (Aveiro) - são restaurantes para os camionistas. Mas na capital do concelho isso já não faz sentido. Na verdade, a Almeida o que permite ainda a sobrevivência é o turismo. As estatísticas indicam uma população notoriamente mais envelhecida do que a da região em que está inserida.

Almeida é na verdade uma espécie de vila museu, como Óbidos ou Marvão ou Monsaraz. Quem gostar de história militar e de como se construíam fortificações deve por lá passar. O essencial da vila está dentro de uma fortaleza construída, no século XVII, sob a forma de estrela de doze pontas. Foi por aqui que, em 1810, as tropas francesas conseguiram finalmente entrar em Portugal. A guarnição portuguesa, comandada pelo coronel William Cox, defendeu-se bravamente mas as tropas francesas conseguiram, bombardeando de fora para dentro, destruir um importante paiol, e isso deu cabo das hipóteses de Cox e dos seus homens. Só depois no Buçaco é que o inglês Wellington conseguiria vencer o francês Massena, travando o avanço das tropas napoleónicas.

Num setor onde a restante economia assenta na agropecuária mas onde, como é habitual em toda a raia, os principais empregadores são os poderes públicos e a economia social, todas as fichas foram colocadas no turismo. Almeida - com Marvão, Elvas e Valença - protagoniza uma candidatura das Fortalezas abaluartadas da raia a património da humanidade da UNESCO. A decisão será para o ano que vem.

Notas da Viagem, dia 7: 1800 quilómetros

Ontem partimos da Guarda com destino a Bragança - mas, como é costume, sempre pelc caminho mais comprido e mais encostado à fronteira. Resumindo: 323 quilómetros percorridos, muitos dentro do Parque Natural do Douro Internacional, com passagem por Almeida, Figueira de Castelo Rodrigo, Freixo de Espada à Cinta, Lagoaça, Mogadouro, Sendim e Miranda do Douro.

Encontro imediato com um ex-PM

Já aqui falamos nestas notas da importância que as estruturas partidárias locais dão à presença nas suas iniciativas das chamadas "figuras nacionais". Ontem qual não foi a surpresa quando, à porta de um restaurante em Almeida, demos de caras com Pedro Santana Lopes. O ex-líder do PSD e ex-primeiro-ministro preparava-se para rumar a Figueira de Castelo Rodrigo, onde daria uma ajuda à campanha do seu partido. Mas a sua jornada ainda tinha, nessa altura, muitos quilómetros para fazer, cobrindo Portugal da fronteira até à costa. O destino final do atual provedor da Misericórdia de Lisboa seria o município que em tempos foi "seu", a Figueira da Foz.

O mapa político de Almeida

Encabeçando uma coligação PSD/CDS, António Batista Ribeiro venceu as autárquicas em 2013, com 56% (cerca de 2800 votos), estando a dias agora de ter de deixar as funções, devido à lei da limitação dos mandatos. O PS foi a segunda força mais votada. No executivo camarário, dos cinco eleitos, três são da coligação vencedora e dois socialistas. O PSD avança agora com António Machado e o PS com Joaquim Fernandes. A CDU tem aspirações a melhorar o resultado porque fez candidatar Aristides Rodrigues, que nos últimos três mandatos foi presidente da junta de freguesia da capital do concelho. Há também uma candidatura independente, de Lourenço Saraiva, um ex-deputado do PS.

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