O "candidato terno" regressou ao seu gabinete: às pedras da calçada

Dias depois de ser uma das surpresas na noite eleitoral, Vitorino Silva - Tino de Rans - voltou a ser calceteiro nas ruas do Porto. Os mais de 150 mil votos obtidos são "a semente e a terra" para novas ambições eleitorais

De martelo na mão, agachado a consertar a calçada de uma das transversais da seleta Avenida Marechal Gomes da Costa, no Porto, está um homem acabado de ser candidato a presidente da República. Três dias depois de ter sido a escolha de 152 049 eleitores (3,28% dos votos) para ocupar o cargo de mais alto magistrado da nação, Vitorino Silva já estava a pendurar o fato e a vestir a farda cinzenta e laranja de funcionário da câmara municipal.

"A rua é o meu gabinete. Não gosto de dar passos de gaiola. Por isso é que sou calceteiro, para falar com as pessoas e andar pelo Porto todo. Quem está num escritório, num sétimo andar com ar condicionado, pode ver mais longe, mas não vê tão perto como nós", explica ao DN Vitorino, aliás, Tino de Rans.

Quem para o carro para o cumprimentar e tirar fotografias conhece-o pela alcunha desde que em 1999 "o filho da dona Gertrudes" subiu ao palanque do congresso do PS para fazer um discurso acalorado e abraçar com todo o entusiasmo o então secretário-geral António Guterres. Tino ficou a ser uma personagem do país real desde essa altura. Lançou livros e um álbum, participou em reality shows. Agora, além de popular, diz-se respeitado.

"Dantes já era conhecido, as pessoas passavam e apitavam, mas agora param o carro, tiram fotos, agradecem-me... Algumas dizem "não votei em si, mas parabéns pela dignidade com que esteve nesta campanha". O próprio D. Manuel Martins [ex-bispo de Setúbal], que é um conselheiro meu, ligou para me dizer "formidável campanha, Tino!"", conta, antes de ser interrompido por mais um telefonema - enquanto fala da afinidade que sentiu com Marcelo, Nóvoa e Marisa.

"Saco azul" cheio de ideias

É quinta-feira, hora de almoço, e sucedem-se as congratulações pelo telefone ou pessoalmente pelos resultados da noite eleitoral - o candidato ficou a poucos votos da ex-presidente do PS Maria de Belém e de Edgar Silva, apoiado pelo PCP.

A agenda de Tino está mais preenchida do que nunca por esta altura. Nessa noite, tem uma entrevista num canal de televisão, seguida de uma conferência sobre humor e política no cineteatro de Albergaria-a-Velha: "Aquilo vai estar cheio. É uma conversa entre mim e o Manuel João Vieira. Ele é o candidato eterno às eleições. Eu sou o candidato terno..."

Tino não aceita que o mediatismo lhe prejudique o trabalho como calceteiro. Cumpre rigorosamente os horários, por isso só à hora de almoço aceita conversar. O ritual é o de sempre: chega ao Café Parque, junto às oficinas da câmara, na zona das Antas, e dirige-se ao balcão não para escolher o que vai comer mas para, como de costume, pedir um papel, uma caneta e o jornal. O prato é o do dia: bife com cogumelos e massa, uma caneca de vinho tinto e uma sopa, que acaba por ser engolida à pressa porque o tempo aperta e a entrevista durou quase toda a hora de almoço.

Tino rabisca enquanto conversa e no final guarda o papel. Vai juntá--lo a milhares de folhas que coloca num "saco azul" (sem segundas interpretações) porque se não o fizer "as ideias evaporam-se". Tem ideias na gaveta e um livro com esse título para um dia publicar. Para já está trabalhar noutro sobre as suas andanças, que será editado em breve com o título "15 Anos de Roda no Ar". Além disso, tem também pronto um argumento para uma longa--metragem chamada "Santo António à Deriva".

Uma campanha com três mil euros

"A grande piada da campanha é ver como o Tino funciona como um íman para o Vitorino, que é um homem normal, que vive intensamente e quer deixar a sua marca", declara o ex-candidato, que não parece surpreendido com o resultado eleitoral, em particular na sua terra - 60,9% na freguesia de Rans e 22,7 no concelho de Penafiel.

O que fazer com todo esse capital de votos? Candidatar-se à presidência da câmara, depois de ter sido presidente de junta entre 1994 e 2002? Tino não abre o jogo: "Temos semente e terra. Há que esperar pelo tempo certo."

Sem máquina, o Tino conseguiu reunir as condições para pôr de pé uma candidatura à Presidência da República. E tudo com um custo insignificante. "Posso dormir descansado em relação a não ter a subvenção (estatal). As despesas do orçamento de 50 mil euros que foi entregue no Tribunal Constitucional corresponderam a um gasto mínimo. Contei com a colaboração de cerca 30 pessoas mas não gastei praticamente dinheiro nenhum. Havia gente que parecia e dizia "Tino, queres que te ajude com o Twitter, com a página do Facebook, na assessoria? Queres que te empreste a carrinha?" Não quis pôr cartazes nem nada... Tivemos muito poucas despesas. Uns três mil euros."

A campanha faz recuar Tino à forma como formalizou a candidatura, com um simbolismo que o caracteriza: "A primeira assinatura foi da minha mãe e a última da minha filha. Se não assinassem não me candidataria, pois não posso conquistar o país sem ter conquistado a família. Entreguei no Constitucional 8118 assinaturas porque 81 é a idade da minha mãe e 18 a da minha filha. Foi uma homenagem aos cabelos brancos de uma e aos cabelos pretos de outra. Branco e preto, como as pedras da calçada com que trabalho todos os dias."

Daqui a cinco anos, Tino pondera candidatar-se de novo a inquilino do Palácio de Belém. Até lá, estará na rua, o seu gabinete. A consertar o chão do país.

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