A investigação da Operação Marquês parece cada vez mais apostada em fazer a ligação entre o Grupo Espírito Santo e José Sócrates. Segundo um recente despacho do procurador Rosário Teixeira, que esteve na base de uma nova carta rogatória para a Suíça, os documentos bancários recolhidos no processo "permitiram identificar as contas de origem dos fundos" que, segundo o MP, acabaram à disposição do ex-primeiro ministro. Entre os titulares dessas contas estão, ainda de acordo com o Ministério Público, três entidades ligadas ao Grupo Espírito Santo: a Espírito Santo Enterprises, a Espírito Santo International e a Espírito Santo Financial Group..Foi com base nesta informação que a investigação enviou, no final do mês de março, mais uma carta rogatória para a Suíça, pedindo informações detalhadas sobre contas bancárias tituladas por offshores de Carlos Santos Silva, do empresário Joaquim Barroca, administrador do Grupo Lena, de Armando Vara, ex-gestor da Caixa Geral de Depósitos, de Diogo Gaspar Ferreira, administrador do Grupo Vale do Lobo, e de Rui Horta e Costa, sócio do resort turístico do Algarve - todos constituídos como arguidos no processo..A linha de investigação seguida agora, segundo os dados do processo, aponta para as tais empresas do Grupo Espírito Santo, já que, por exemplo, o empresário Hélder Bataglia já é referido como titular de contas bancárias que integraram "circuitos de branqueamento de capitais complexos", e não como a origem de parte do dinheiro, 12 milhões, que segundo o Ministério Público ficou à disposição de José Sócrates - suspeito de fraude fiscal qualificada, corrupção e branqueamento de capitais. Isto é referido numa informação do inspetor tributário Paulo Silva de 18 março, que, além de Bataglia, incluiu Carlos Santos Silva, Joaquim Barroca e José Paulo Pinto de Sousa (primo de José Sócrates) dentro do circuito de branqueamento de capitais..Porém, a principal dúvida do processo continua a ser: qual é a origem da corrupção? É que, já neste ano, em fevereiro, num despacho que manteve o bloqueio de várias contas bancárias de Carlos Santos Silva, o procurador Rosário Teixeira fez um "bolo" com vários suspeitos em causa, mas não concretizando quais as decisões ou atos praticados por José Sócrates enquanto primeiro-ministro que levantam suspeita: "A prova revela que os fundos acumulados na Suíça tiveram origem em diferentes agentes económicos, abrangendo, para além do ex-grupo GES, também o Grupo Lena, as empresas do empreendimento de Vale do Lobo e os administradores do grupo Escom, todos beneficiários de contratos imobiliários, de obras públicas, de concessões rodoviárias, e de outros negócios com bens e com prerrogativas públicas, que tiveram o suporte em decisões governamentais ao tempo dos governos presididos pelo arguido José Sócrates.".Técnica do ICN nega favor.A nova abordagem do MP ao Grupo Espírito Santo não será alheia ao facto de a investigação não ter recolhido depoimentos que sustentassem a tese de que o Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROTAL), aprovado por um governo de José Sócrates, favoreceu o empreendimento de Vale do Lobo. Uma das últimas pessoas ouvidas foi Teresa Serafim, técnica do Instituto de Conservação da Natureza. Segundo o seu depoimento, a revisão do PROTAL que está sob suspeita "não veio excecionar, nem derrogar as regras já estabelecidas no POOC". Uma declaração que contraria o que o MP tem afirmado..Questionada pelo DN a defesa do antigo governante respondeu o seguinte: "Todos os meios de prova produzidos neste inquérito demonstram a absoluta falta de razão e fundamento de quaisquer suspeitas quanto a Vale do Lobo ou ao grupo Lena. E também quanto a estas especulações relativas ao GES. Trata-se, como é manifesto, de puras calúnias. A investigação que sempre andou à pesca, em mar alto - big game -sem orientação, anda agora literalmente aos papéis. Do Panamá, de Angola, não importa. Desde que sirva de pretexto para arrastar indefinidamente toda esta complexa campanha de difamação organizada contra o Eng. José Sócrates.".Já as defesas dos restantes envolvidos recusaram comentar estes desenvolvimentos.