Marcelo contra aproveitamento político das vítimas de Pedrógão

A Marcelo não lhe "passa pela cabeça" que alguém possa esconder o número de vítimas. E diz que "deve haver cabeça fria"

Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito da contagem das vítimas de Pedrógão Grande, diz que não lhe "passa pela cabeça que, quem quer que seja, a pretexto de desdramatizar, possa minimizar o apuramento cabal dos factos e das responsabilidades". O Presidente da República, em entrevista ao Diário de Notícias que será publicada no próximo fim de semana, lembra que vivemos numa democracia e, "portanto, em democracia não há desaparecimento de vítimas, não há, como se contava de algumas ditaduras estrangeiras, aviões a lançar corpos no mar. Isso não existe".

O Chefe do Estado entende que se trata de "um facto particularmente relevante e grave", mas pede "cabeça fria". "É verdade que há debate político, em democracia há debate político, há período pré-eleitoral, estamos a dois meses das eleições autárquicas", recorda Marcelo, que pede "serenidade" nesse debate.

Sobre a polémica que se gerou com a possibilidade de existirem mais mortos relacionados com o incêndio de Pedrógão do que os 64 contabilizados pelo Ministério Público e anunciados pelo governo, para Marcelo Rebelo de Sousa é claro que "ou está vivo ou está morto, não pode haver uma terceira qualificação". É, por isso, que o Presidente insiste que não pode ficar a sensação de que, "por razões políticas, se minimiza o que não deve ser minimizado", mas, pelas mesmas razões, não pode ficar a sensação de que se "maximiza e se lida com uma tragédia que pode correr o risco de ser considerada desrespeitosa para as próprias vítimas e para os familiares".

O Presidente, que partiu para Mação logo que a entrevista terminou, já tinha dito naquela localidade do distrito de Santarém que em democracia não se pode passar nada parecido com o que vivemos em ditadura. Ao DN, Marcelo tinha recordado que pertence a uma geração "em que se vivia com censura e em que relativamente a alguns dos factos nunca houve nenhum inquérito independente, como ficou sempre uma dúvida enorme sobre o funcionamento da máquina da Justiça, porque havia a perceção de que a máquina da Justiça não era própria do funcionamento de um Estado democrático. Não havia um Ministério Público autónomo, não havia juízes independentes".

O Presidente da República insiste que "é preciso apurar tudo cabalmente", aceita que "há matérias que são polémicas", e dá um exemplo: "Aquele ato foi criminoso ou não? Há um problema de qualificação jurídica." Mas acrescenta: "Agora, ou está vivo ou está morto. Quando muito pode estar desaparecido e a família diz que está desaparecido. Vamos apurar onde é que está."

Na entrevista que o DN vai publicar nos próximos sábado e domingo, o Presidente da República fala igualmente do défice que "é preciso respeitar", do sistema financeiro, do valor da estabilidade política, da justiça, da relação com o governo e com a oposição e até do desconforto que parte do eleitorado de centro-direita sente em relação a ele. Fala ainda da comunicação social e do negócio da Altice, de Donald Trump, da Venezuela e de Angola.

Sobre o incêndio de Pedrógão Grande que teve na contagem das vítimas a mais recente polémica, Marcelo Rebelo de Sousa quis ser muito claro, afirmando que não pode haver "um apuramento parcial", tem mesmo de ser "um apuramento total, até onde for possível esse apuramento, por um lado pelo Ministério Público e por outro lado pela comissão independente".

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