Governo desfaz em 40 dias política de educação de Crato

Ministro prometeu apresentar novo modelo de avaliação até amanhã

Do anterior ministro, só se manteve o Inglês a partir do 3.º ano e a gestão de escolas pelos municípios - que BE e PCP não querem

Ao fim de 40 dias de governo PS quase não restam marcas da governação de Nuno Crato. O ministro da Educação do PSD/CDS-PP centrou a sua política nos exames e a maioria de esquerda tratou logo de acabar com eles. Fossem para alunos ou para professores. Até ao fim desta semana, Tiago Brandão Rodrigues, o novo titular da pasta, apresenta o seu modelo de avaliação para os alunos e para o sistema. Previstos estão o fim dos exames de Matemática e de Português do 6.º ano e da prova de Inglês do 9.º ano realizada pelo Instituto de Cambridge. De pé deverá ficar apenas o Inglês curricular no 1.º ciclo, medida que reúne consenso à esquerda e à direita.

Estas mudanças têm tido eco no Parlamento. Quer seja por projetos de lei aprovados quer através de propostas de resolução que recomendam o fim das metas curriculares (PCP) ou do exame de Cambridge (Bloco de Esquerda). Para a direita trata-se de uma cedência do PS "à agenda dos partidos de extrema-esquerda", como referiu ontem no Parlamento a deputada do CDS-PP Ana Rita Bessa, que sublinhou a falta de reflexão em medidas como o fim dos exames do 4.º ano.

Na semana passada, David Justino, ex-ministro do PSD e atual presidente do Conselho Nacional de Educação, também admitiu, em entrevista ao DN, existir "uma febre muito grande de revogar e de suspender". Acrescentando que a "Educação não pode andar neste para-arranca". No entanto, a ex--ministra socialista Maria de Lurdes Rodrigues considera não estarem a ser precipitadas as medidas que põem fim às políticas de Nuno Crato. "Não parece que tenha havido agora uma precipitação maior do que houve no governo anterior que aplicou medidas de rutura sem reflexão nem consensos."

Do lado do Ministério da Educação (ME) tem ficado apenas a garantia de que a nova solução de avaliação "não vai interferir com o bom funcionamento das escolas", sublinhada pelo ministro no início da semana. O que deixa antever que as alterações - aplicação de provas de aferição nos 4.º e 6.º anos, por exemplo - devem entrar em vigor apenas no próximo ano letivo. Ainda que neste ano já não se realizem os exames de Português e Matemática do 4.º ano.

Seguro está apenas o Inglês no currículo do 1.º ciclo, que começou neste ano letivo a ser ensinado aos alunos do 3.º ano. E será alargado ao 4.º ano no próximo ano. "O Inglês não levanta problemas porque foi um processo natural de evolução. Começou por ser atividade de enriquecimento curricular e a ideia sempre foi integrá-lo no currículo oficial", aponta Maria de Lurdes Rodrigues.

O que se segue: Metas e Inglês

A par das mudanças anunciadas por Tiago Brandão Rodrigues para esta semana, no Parlamento discute-se amanhã o projeto de resolução do PCP sobre a suspensão das Metas Curriculares do 1.º Ciclo. Deu ainda entrada na segunda-feira um novo projeto de resolução, desta vez do Bloco de Esquerda (BE), para suspender a prova de Inglês realizada pelo instituto de Cambridge e obrigatória para os alunos do 9.º ano. Estas duas medidas devem estar incluídas nas propostas que o ME vai apresentar. Tal como reconhece a deputada do BE Joana Mortágua, cujo partido apresentou este projeto de resolução como indicação "dos pontos essenciais que para o Bloco devem ser revistos pelo governo". Além de pedirem o fim do exame de Inglês, os bloquistas querem ver divulgados os valores gastos pelo Estado para a realização deste exame, que seria da responsabilidade de Cambridge e de empresas privadas associadas ao projeto.

Regressam provas de aferição

Vistos pelo ministério de Nuno Crato como um ponto central de garante da exigência do sistema de ensino, os exames nacionais foram estendidos aos 6.º e 4.º anos. Agora, a ideia do governo PS é que regressem as provas de aferição, que não têm impacto na nota final dos alunos. Antes de anunciar as medidas, o atual titular da pasta pediu pareceres aos parceiros do setor. Um deles - o do Conselho Nacional de Educação - será aprovado hoje.

Para tal este órgão consultivo elaborou um relatório, onde indica que os exames nacionais não alteram de forma significativa as notas finais dos alunos. Mas, num inquérito feito a escolas e professores, reconhecem que a existência de exames no 1.º ciclo leva a uma sobrevalorização das disciplinas de Português e Matemática e cria dificuldades para dar a matéria noutras disciplinas.

Outra das medidas que se despedem depois de ter sido polémica e ter obrigado Nuno Crato a pedir desculpa é a bolsa de contratação de escola (BCE). Esta plataforma de contratação de professores para as escolas com autonomia e territórios educativos de intervenção prioritária foi criada para evitar concursos feitos à medida de um professor específico, mas acabou por se tornar um pesadelo. Apesar de resolvida a fórmula que colocou professores nas escolas de forma errada, em 2014, a BCE não se revelou um sistema ágil. Tiago Brandão Rodrigues considerou que os 21 dias de espera para colocar um professor é a prova de que a BCE não funciona.

Últimas notícias

Recomendadas

Contéudo Patrocinado

Mais popular