Gestão política da Defesa causa mal-estar no Exército

Conselho Superior do Exército reúne hoje para discutir caso, em ambiente de tensão. Marcelo pediu ontem que "se investigue tudo"

A gestão política - quer as palavras do ministro, quer o silêncio do primeiro-ministro - do caso do roubo de material militar dos Paióis Nacionais de Tancos está a ser mal recebida por altas patentes do Exército. Fontes ouvidas pelo DN classificam como "despropositadas" algumas intervenções de Azeredo Lopes e contam que a exoneração dos cinco comandantes, das unidades com ligação direta aos paióis, está a ser lida como uma imposição da tutela ao chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) para evitar, no imediato, consequências políticas para o próprio ministro. Um gesto que, sabe o DN, não foi nada bem recebido pelas chefias militares.

Para esta tarde está marcada uma reunião do Conselho Superior do Exército, o órgão máximo de consulta daquele ramo das Forças Armadas, onde têm assento o CEME, o vice-CEME e todos os generais de três estrelas do Exército. A reunião acontece em ambiente de tensão e alguma incompreensão pela gestão política que o governo tem vindo a fazer deste caso.

Certo é que o CEME, general Rovisco Duarte, disse domingo à RTP que não pensou em colocar o cargo à disposição. E o DN sabe que a tutela, enquanto espera pelo debate político - o CDS anunciou ontem ao final do dia que vai ser recebido hoje pelo Presidente da República para expor a "quebra grave da confiança nas instituições do Estado" que resultou dos casos de Tancos e de Pedrógão Grande - no Parlamento, vai continuar a aguardar pelos resultados dos inquéritos.

A verdade é que o ambiente dentro do Exército também não é o melhor, em especial pela forma como decorreu o processo de exoneração dos comandantes das cinco unidades responsáveis pela segurança dos paióis. Para além de eventuais lutas de poder e para ascensão no topo da hierarquia, o recurso à figura da exoneração temporária dos referidos oficiais - inexistente no Estatuto dos Militares das Forças Armadas (ver texto ao lado) - tem dado azo a manifestações de indignação de pessoal no ativo e, de forma visível, de quem já está fora e recorre às redes sociais.

O próprio Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, pronunciou-se ontem pela primeira vez sobre o caso e no que pareceu ser uma crítica implícita à decisão do CEME de exonerar cinco comandantes.

Defendendo a necessidade de adotar medidas cautelares "que são meramente destinadas a facilitar a investigação", o Chefe do Estado precisou que o seu objetivo visa "criar condições para que se investigue o que há para investigar, sem haver o melindre de expor imediatamente responsáveis por estruturas que estão ligadas ao que aconteceu".

Marcelo Rebelo de Sousa, também já alvo de críticas por não se ter ainda pronunciado sobre um caso de tal gravidade conhecido na quinta-feira, defendeu a realização de "uma investigação que apure tudo, factos e responsabilidades".

Falando à margem da inauguração do novo edifício do Hospital de Sant"ana, na Parede (Cascais), Marcelo realçou a importância de "não haver dúvidas que se deve investigar até ao fim em matéria de factos e responsabilidades".

Citado pela Lusa, o Chefe do Estado - aludindo ao caso da morte dos instruendos no curso de Comandos em setembro passado - deixou depois um alerta: "Tem de se prevenir o futuro para que não haja de seis em seis anos furtos destes e com gravidade crescente", frisou, numa alusão a um roubo ocorrido no Carregado (Alenquer) em finais de 2010.

Marcelo Rebelo de Sousa pediu ainda que se investigue a existência de ligações entre o roubo ocorrido nos paióis de Tancos e outros dois que disse terem acontecido "nos últimos dois anos em países membros da NATO, um deles há poucos meses" - mas sem especificar a quem se referia. "Foram vários os furtos que parecem ter semelhança com este, tem de se apurar se sim ou se não", insistiu.

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