Força Aérea: corrupção durará há mais de 30 anos

O esquema de sobrefaturação de alimentos fornecidos às messes lesou o Estado em mais de dez milhões de euros

Os crimes de corrupção na Força Aérea - que levaram ontem à detenção de 16 pessoas (12 militares e quatro empresários) - durarão há mais de 30 anos e lesaram o Estado, segundo estimativa da Polícia Judiciária (PJ), em mais de dez milhões de euros. Este é um dos testemunhos que faz parte da investigação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) e que, conforme o DN noticiou logo depois da primeira fase desta Operação Zeus, em novembro passado, foi dado por um sargento da base aérea de Sintra. Nessa altura, recorde-se, foram detidos outros cinco militares, entre os quais um major que está a cumprir a prisão preventiva em sua casa, com pulseira eletrónica.

A colaboração de alguns destes primeiros detidos com as autoridades terá sido determinante para o desenvolvimento da investigação, que resultou nas detenções desta terça-feira. Entre os detidos estão oficiais superiores - um major-general e um coronel, e ainda três capitães e cinco sargentos. Estão indiciados pelos crimes de corrupção, abuso de poder e falsificação de documentos na comercialização de géneros alimentícios nas messes da Força Aérea. Nesta segunda fase da operação, participaram 130 elementos da PJ e dez procuradores do Ministério Público, tendo sido realizadas 36 buscas nas áreas dos distritos de Lisboa, Porto, Santarém, Setúbal, Évora e Faro, das quais 31 domiciliárias e cinco não domiciliárias.

O esquema não era complicado e envolvia vários militares e hierarquia: os fornecedores entregavam determinadas quantidades de alimentos e no final do mês, quando apresentavam a fatura, esta apresentava um valor três vezes superior ao volume de alimentos entregue. "A diferença entre o valor faturado e o dos produtos realmente entregues", sintetizou o juiz de instrução no relatório das primeiras detenções em novembro, "corresponde ao lucro a dividir pelos elementos do grupo". Só na base aérea de Monte Real, a investigação apurou que, em 11 meses, cinco militares com responsabilidades na gestão terão dividido 130 mil euros. O elevado número de militares envolvidos, aliás, levou o juiz de instrução a considerar existir um "en-raizamento da conduta por todos os elementos das messes".

O magistrado registou que o esquema de sobrefaturação era "universal" a quase todas as bases do país, com exceção para Ovar e Açores. Estas messes não quiseram alinhar e os envolvidos recearam que deitassem tudo a perder, quando fossem comparados os preços destas e das restantes messes. Isso só não aconteceu, sublinhou o juiz, porque houve um "acordo entre os responsáveis das messes", que faziam as aquisições, e "quem fiscaliza". Havendo quase um clima de aliciamento de militares para o esquema baseado na "obediência hierárquica solidamente instituída". Com C.R.L.

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