Ex-ministra vai trabalhar para empresa que ganha com falências

Maria Luís com Passos Coelho nas jornadas do PSD

Arrow Global compra carteiras de crédito malparado e assume a cobrança das dívidas. Maria Luís será administradora não executiva

Maria Luís Albuquerque trabalhou no instituto que gere a dívida pública portuguesa, o IGCP. E como ministra das Finanças também era essa a dívida que lhe passava pelas mãos todos os dias, os olhos postos nas oscilações das yields. Mas não é nessa mais nobre divisão que a hoje deputada do PSD vai trabalhar. Para simplificar, a ex-ministra vai tentar que a Arrow Global ganhe dinheiro com os desaires financeiros das famílias - cartões de crédito por pagar, crédito ao consumo, hipotecas a implodir. É sobre esses grandes pacotes, de que os bancos têm de se desfazer - assumindo perdas avultadas mas sem perder a totalidade do valor em dívida -, que Maria Luís Albuquerque terá de conseguir ganhar algum dinheiro.

Trata-se dos famosos NPL (non performing loans), um eufemismo financeiro para crédito malparado ou, mais simplesmente, calotes. Um negócio que abunda em Portugal, com o malparado na banca a rondar os 15%.

Sendo o lugar da ex-ministra das Finanças o de administradora não executiva, não lhe caberá estar diretamente envolvida nessas compras e negociações. As suas funções passarão por dar aconselhamento sobre o enquadramento macroeconómico e regulatório a nível europeu, ou seja, analisar as regras, os riscos e a situação económica dos países para clarificar que mercados podem ser mais importantes e gerar melhores resultados para a Arrow Global.

Cobrança agressiva

O que é que estas empresas de compra e gestão de carteiras de crédito podem fazer que os bancos não podem para recuperar dívida? Negociar agressivamente com os devedores, perdoando mais mas também pressionando mais para reaver algum capital. É um negócio duro. Uma espécie de ferro-velho do mundo financeiro em que quase nada se perde e tudo se transforma.

O modelo de negócio para a gestora de créditos é simples: compra barato o que é demasiado difícil de cobrar e depois maximiza o rendimento que pode espremer dos cartões de crédito, empréstimos pessoais, a estudantes, créditos para a compra de carro ou de casa que não foram pagos pelas empresas e pelas famílias clientes dos bancos de onde vêm as carteiras de crédito. Para os bancos, o negócio também é vantajoso porque se livram de uma fatia de malparado recebendo ainda que uma parte pequena de dívidas de que era quase certo nunca virem a ser ressarcidos.

Aposta em Portugal

Portugal foi o primeiro mercado estrangeiro da Arrow Global, a gestora britânica que trabalha com carteiras de clientes compradas a empresas e bancos. Mas a liderança em Portugal só chegou em 2015, quando formalizou a compra da Whitestar e da Gesphone. Esta operação foi o maior investimento da Arrow Global - 43,5% do total aplicado pelo grupo.

O país é visto como "bem posicionado para a Arrow apoiar a desalavancagem, durante vários anos, da banca, seguido de outras oportunidades" de negócio. Para já, a empresa britânica gere uma carteira de créditos no montante de 5,8 mil milhões de euros, tendo entre os seus clientes, além do Banif, bancos como o Montepio, Popular, Banco Invest ou mesmo o Millennium bcp. Fora do setor bancário, as companhias de seguros Açoreana e a Axa e a empresa de telecomunicações Vodafone estão entre os clientes.

Portugal é também apresentado como um mercado em "rápido crescimento", em que os testes de stress do BCE possibilitam uma "verdadeira alienação" de ativos de risco, que estão avaliados em 88 mil milhões de euros. A Whitestar, comprada pela Arrow Global por 48 milhões de euros, estará a avaliar a aquisição de alguns ativos da Oitante, veículo de ativos tóxicos criado na resolução do Banif, denunciou ontem a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua. Esta empresa de gestão de ativos de risco foi criada pelo Lehman Brothers em 2007 para o mercado português. Um ano depois foi colocada sob gestão da PricewaterhouseCoopers, na sequência da falência do banco norte-americano.

Em 2014, a CarVal acabou por entrar como acionista da Whitestar. A Gesphone, por seu lado, é responsável por serviços de cobranças telefónicas e de tratamento e aquisição de dívidas. Foi comprada pela Arrow Global também no ano passado, estando a conclusão da liquidação dos 8,3 milhões de euros prevista para 2019. Entretanto, a carteira de títulos já pertence à Arrow Global.

Com D.F.N.

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