Dívidas às costas: de Rans a Belém são milhares de euros de distância

Maria de Belém na noite das eleições

Há quem tenha de fazer empréstimos bancários para saldar dívidas e há quem já tenha pago tudo. Maioria dos candidatos às presidenciais não tem direito apoios do Estado

Entre Tino de Rans e Maria de Belém vai uma distância de milhares de votos (ela teve 196.673, ele teve 152.068), mas ainda maior de euros para pagar. Implacável, a lei de Murphy abateu-se sobre a antiga ministra da Saúde: viu-se sem o apoio do partido e sem o dinheiro do Estado, com o qual contava (tal como o DN noticiou já esta semana). A fatia imaginava pela candidatura de Belém apontava para os 790 mil euros, algo que nas suas contas era o equivalente a um resultado de 24% na primeira volta. Ficou-se pelos 4% e, com isso, nem um cêntimo do Estado. A possibilidade de contrair um empréstimo é ventilada, mas oficialmente nem uma palavra sobre o assunto.

Quando partiu para campanha, Vitorino Silva - que o país inteiro conhece como Tino de Rans - tinha um teto de 50 mil euros no orçamento, "porque era preciso dar um valor". O calceteiro da Câmara do Porto fez as contas todas, ao que iria gastar e também aos votos. De tal maneira que (diz agora ao DN) não ficou surpreendido com os resultados alcançados. "Pelas minhas contas teria uns 200 mil votos". Mas não chegou a tanto. Vitorino ficou em 6º lugar entre os dez candidatos, ganhou na terra dele e em muitos concelhos teve mais votos que os candidatos Edgar Silva, Marisa Matias ou Maria de Belém.

Por estes dias reúne as faturas que resultaram dessas semanas loucas de campanha, com a certeza de que "em dinheiro, gastámos muito pouco, deve andar à volta dos três mil euros". Em quê, afinal? "Em gasóleo e almoços. Mas muitas vezes fizemos piqueniques, e dormimos sempre em casa de pessoas amigas".

Pelo caminho, a candidatura foi recebendo alguns donativos, até chegar ao valor referido. " Por isso é que não precisamos de pedir empréstimos. Não fiz cartazes nem outras coisas caras, mas também não ficámos a dever nada a ninguém. A nossa sede foi sempre a rua". Na hora em que faz as contas, e nomeia de cabeça todas as pessoas que a ele se juntaram, em registo de voluntariado, Tino de Rans ainda aproveita para sublinhar que "se o povo não tem dinheiro, como é que podia gastar o que não tem?". Daqui por um mês, quando entregar "tudo direitinho", quer que o país saiba que lá na terra "somos pessoas de boas contas". De modo que nada no resultado foi surpresa para Vitorino, à exceção do tratamento que sentiu por parte dos media. "Eu pensava que iriamos ter todos direito ao mesmo, mas isso sou eu, que ainda acredito no Pai-Natal".

É no Porto (também) que anda Jorge Sequeira, o professor de Braga que também ficou abaixo dos 5% exigidos para ter direito a qualquer valor do Estado. Não foi além dos 13.765 votos , mas também não tem dívidas a ninguém. "Está tudo pago", garantiu ao DN o psicólogo, referindo-se aos 5.500 euros que lhe custou esta campanha. "Não vou pedir dinheiro a ninguém. Quando avancei para isto já sabia que me iria sair tudo do bolso. Aliás, parece-me que este meu caso deveria servir de exemplo ao país, a quem nos governa: não pedir nada a ninguém, fazer só o que pode, e com o seu dinheiro".

Neto paga do seu bolso

Quem também é conhecido por ser homem de boas contas é Henrique Neto, o empresário da Marinha Grande que acreditava num melhor resultado. Ficou-se pelos 38.935 votos e um 8º lugar na votação, e agora tem às costas um prejuízo na ordem dos 200 mil euros, tal como confirmou ao DN. "Ainda estamos a fechar as contas. Recebemos alguns donativos, de várias pessoas, ao longo da campanha. Mas é claro que não chega...o resto terei de ser eu a pagar". O staff era composto por várias pessoas que levaram uma parte desse orçamento, embora a maior fatia tivesse sido destinada aos tempos de antena. O resto gastou-se em viagens, combustível e hotéis. A contabilidade há-de ser feita nos próximos dias, antes da reunião da equipa da candidatura, a 16 de fevereiro.

Paulo de Morais pede donativos

Sem subvenção estatal, o antigo vice-presidente da Câmara do Porto, que não chegou aos 100 mil votos, traduzidos em 2,16%, chegou ao fim desta corrida com um défice na ordem dos 40 mil euros. Para cobrir o prejuízo, Paulo de Morais lançou um apelo aos apoiantes na sua página do Facebook. "Não é uma subscrição pública. É um apelo aos apoiantes. É diferente", disse ontem ao DN, embora remeta para a direção de campanha notícias sobre o eventual sucesso desse apelo. E se o dinheiro não aparecer? "Pago eu. Nem podia ser de outra maneira".

Fora desse imbróglio está o comunista Edgar Silva. A votação deixou-o abaixo dos 5% (obteve 182 mil votos, o equivalente a 3,95%), mas o partido que o apoia suportará a despesa. O orçamento global era de 750 mil euros, os comunistas previam 377,7 mil euros de subvenção estatal que não chegará, e por isso resta-lhes arcar com o prejuízo, além dos 342,2 mil euros que já estavam previstos.

No rol de candidatos abaixo dos 5% ficou, em último lugar, o médico Cândido Ferreira. Os 54 mil euros que custou a sua candidatura foram suportados pelo próprio, na íntegra. "Ninguém me viu pedir votos, também não ia pedir donativos", disse ao DN, certo de que "seis meses de salários chegam para cobrir esse valor, que já está todo pago".

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