De estagiária da política a líder: as paixões de Cristas

Assunção Cristas, junto à Fundação Champalimaud

Entrou no partido por um debate na TV. Oito anos depois é a prospetiva líder. Retrato enigmático de uma política acidental.

"Se nada disto for verdade sou muito feliz assim." A frase, surpreendente na sua altiva mas simultaneamente vulnerável obstinação, é de uma conversa com Maria João Avillez na Capela do Rato. "Não me imagino sem fé, sem acreditar, sem esta adesão, que é feita essencialmente de desejo. "De conhecer mais, de fazer melhor, de estar mais próximo", prossegue, garantindo que aprendeu com os pais e sobretudo com a mãe a tentar ser benevolente (ou tolerante?): "Meninos, onde está a caridade?, perguntava-nos [eram cinco irmãos] muitas vezes a minha mãe."

A voz ligeiramente rouca soa clara, franca, sem hesitações, no tom sincopado, às vezes quase professoral, como numa arrogância subtil, que terá impressionado o então ex líder do CDS/PP quando a ouviu num dos debates que o programa da RTP Prós & Contras dedicou ao referendo do aborto, em 2007. Era a primeira prestação televisiva da então professora de Direito da Universidade Nova, surgida a propósito da sua participação num blogue criado para lutar contra a legalização da interrupção voluntária da gravidez e valeu-lhe um convite para entrar para o CDS quando mais tarde nesse ano Portas voltou a assumir a liderança.

"Não nos conhecíamos mas ele arranjou o meu número e mandou uma SMS a felicitar-me", contou Cristas em diversas entrevistas ao longo dos últimos anos. Meses mais tarde Portas ligou de novo e encontraram-se para um café numa esplanada no alto do Parque Eduardo VII. Perante a proposta, ela resolveu dizer-lhe o que a separava e a aproximava do partido. Por exemplo o facto de, apesar de católica praticante, defender o casamento das pessoas do mesmo sexo. E a adesão da Turquia à União Europeia. E não ter gostado da maneira como o de novo presidente centrista readquirira o controlo (enfrentando e derrotando Ribeiro e Castro num processo que ela considerou "confuso"). Portas encaixou e em vez de retirar o convite pediu-lhe "ajuda para melhorar o partido." Ela prometeu pensar. E foi ouvir pessoas. "Gosto de ouvir os outros. Mas posso seguir a minha intuição. No caso do CDS, segui. Tive amigos que me aconselharam: "Se queres ir para a política, ao menos vai para o PSD"", contou numa entrevista ao Diário Económico, em 2010, já deputada. "Um amigo, muito empenhado no PSD, dizia-me: "Queres que fale ao presidente do PSD [então Marques Mendes] para ele te convidar?". Eu dizia-lhe: "Repara, não estou a correr para um partido, estou a reagir a um convite". Não me fazia sentido ser convidada pelo CDS e ir para o PSD. Além de me sentir mais próxima do CDS. Não teria ido para nenhum partido se não tivesse sido convidada. Achei aquilo tão disparatado... Não ia dizer: "Vejam lá quem é que dá mais", como num leilão." E lá disse a Portas, assumindo-se como uma espécie de estagiária da política: "Não sei se gosto, não sei se isto faz sentido, não sei se isto é para mim, mas vamos experimentar."

Nascida em 1974, em Luanda, filha de uma médica e de um empresário, numa família que caracteriza como "católica não beata" e "de direita", casada com um militante do PSD que conheceu no liceu e com quem fez a faculdade (o jurista Tiago Machado da Graça), Cristas garante que nunca até ali pusera a hipótese de entrar para a política, apesar de ter estado de 2002 a 2005, a convite de Celeste Cardona (ministra da Justiça de Durão Barroso e dirigente do CDS), primeiro como adjunta ministerial e depois, até 2005, a dirigir o Gabinete de Política Legislativa e Planeamento.

O convite de Cardona terá surgido por via de relações desta com a família dos sogros, quando Cristas, já após uma experiência docente na Faculdade de Direito da Clássica, se metera a fazer o doutoramento na Nova, tendo obtido uma bolsa de dois anos e meio para trabalhar na sua tese em Direito Privado e planeava concluí-la rapidamente. Um objetivo que o trabalho no governo acabou por atirar para três anos depois, quando finalmente, aos trinta, defende a tese em janeiro de 2005 e passa a professora auxiliar contratada, naquele que é atualmente o seu "lugar de origem", na Universidade Nova de Lisboa (até agora, definia-se sempre nas entrevistas como "professora universitária"). Um posto onde esteve dois anos em exclusividade - o ponto em que está quando participa no célebre Prós & Contras. Nos dois anos seguintes, até ser eleita para o parlamento, abandonará a exclusividade e dará aulas no Instituto Superior de Polícia, atividade que abandona perante um convite para fazer advocacia na sociedade Morais Leitão. Isto tudo à mistura com o nascimento de três filhos (em 2001, 2003 e 2005; terá depois, já ministra, uma quarta, Maria da Luz, em 2013), facto que lhe garante ser confrontada com a sacramental pergunta feita às mulheres de perfil público -- "como compatibiliza?" - , a qual confessadamente lhe faz "urticária", respondendo habitualmente com um "por que é que nunca fazem essas perguntas aos homens?" Um combate aos estereótipos de género que choca com a visão mais tradicionalista da Igreja Católica e, somado à sua defesa das quotas (uma causa muito pouco apoiada à direita, apesar de ter em Leonor Beleza uma cavaleira e de termos agora ouvido Marcelo Rebelo de Sousa, em campanha, garantir ter sido sempre a favor), parece fazer dela - malgrado a oposição ao aborto por vontade da mulher -- uma feminista, apesar de nunca se ter reivindicado como tal. "Se calhar", diz.

Se calhar, não sabemos quem é Assunção Cristas. Desde logo, ideologicamente. Conservadora? Liberal? Definindo-se sobretudo como democrata-cristã e pragmática, disse ao Diário Económico, na citada entrevista de 2010, que é de direita "porque a minha família é de direita", mesmo se ressalva que "estas coisas não são exatamente como as dos clubes de futebol." Mas, questionada sobre que valores a colocam à direita, não é exatamente cristalina: "Um valor de direita, que também está associado à esquerda, é a liberdade individual. Uma liberdade que se impõe ao próprio Estado, que o Estado deve reconhecer e que não é o Estado que atribui. Quando olhamos para o modo como uma sociedade se organiza, e para o peso que o Estado deve ter, acredito menos naquilo que é uma matriz de esquerda: que o Estado tem o dever de tratar, organizar um determinado modelo. Mesmo que seja pelas boas razões. Não tenho disto uma visão maniqueísta."

E menos cristalina a vemos quando recordamos que, ministra da Agricultura, impôs aquela que ficou conhecida como "taxa Cristas", ou "taxa de segurança alimentar", taxando as grandes superfícies, às quais quis também estabelecer regras quanto às promoções para impedir "práticas comerciais abusivas", nomeadamente relacionadas com o hábito das grandes cadeias de obrigar os fornecedores a vender abaixo do preço acordado. É aliás a própria a reconhecer não ser fácil enquadrá-la "num catálogo de ideologias".

Pedro Mexia, escritor e comentador que é seu amigo desde a faculdade e com ela fazia parte de um grupo que se reunia para discutir literatura "como antídoto ao Direito", confirma: "Ela não é especialmente ideológica. É sobretudo cristã. E não lhe vejo nenhum interesse naquela discussão do liberalismo versus conservadorismo." Mas, garante, contrastará decerto com a anterior liderança. "É completamente diferente de Portas. Não tem muitos defeitos visíveis que conheça, mas certamente que as virtudes e defeitos de uma outro não são coincidentes. Paulo Portas tem um lado de eficácia e de frases que não é o estilo dela, que é muito mais sóbrio, mas também tem um lado sinuoso que ela não tem: é muito mais confiável."

Um contraste que não os impede de serem vistos como "muito próximos" e até amigos cuja relação sobreleva a política. Ainda assim, Ribeiro e Castro, opositor interno a Portas e crítico habitual do ainda líder, dá o benefício da dúvida à prospetiva presidente, mesmo se está certo de que "Portas interferiu na escolha do sucessor": "Ela é uma pessoa obviamente com qualidade, profissionalmente qualificada, inteligente e trabalhadora. Mas agora estou interessado em ouvir as ideias e propostas. O quadro metodológico e doutrinário em que se situa, as suas ideias para o País e Europa. Fez uma conferência de imprensa na quinta à noite em que não disse nada: dizer que é uma alternativa robusta ao governo radical das esquerdas não chega. Há uma necessidade de clarificação da matriz e das ideias, e é isso que é importante."

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