Daesh. Secretas identificaram radicalizados em Portugal

O autoproclamado Estado Islâmico, na sua propaganda de terror e autopromoção, divulga, com frequência, vídeos bárbaros nas redes sociais na internet

Identificados portugueses que se radicalizaram no jihadismo islâmico. Número de casos duplicou em alguns países

Há portugueses que, a partir do território nacional, aderiram à propaganda terrorista do Daesh. A informação foi avançada pelo diretor do Serviço de Informações de Segurança, Adélio Neiva da Cruz, que, no entanto, não adiantou o número de radicalizados.

"Em Portugal, os casos identificados de radicalização são minoritários e a dimensão do problema não é comparável com o que se verifica em alguns países", disse Neiva da Cruz, perante uma plateia cheia, durante uma conferência pública na Universidade Nova.

Neiva da Cruz é diretor do Serviço de Informações de Segurança

É a primeira vez que um alto dirigente assume que este fenómeno de origem jihadista atingiu cidadãos nacionais em território nacional. E não apenas portugueses fora do país, como foram os conhecidos casos dos jihadistas de origem nacional que se juntaram ao ISIS na Síria e no Iraque, mas que se radicalizaram em Inglaterra e França.

Quantos são e quem são estes portugueses que cederam? Onde estão e quais as suas motivações? Que medidas tomaram as autoridades? Questões que ficaram sem resposta, apesar da insistência do DN nos últimos dias junto do SIS, Polícia Judiciária (PJ) e Procuradoria-Geral da República (PGR), estas duas últimas responsáveis pela investigação dos casos.

Tentando desvalorizar e recuar no impacto da revelação, Neiva da Cruz limitou-se a responder que as suas palavras no seminário "nada acrescentam" ao que está escrito no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2015, que na página 85 já mencionava: "...tendo sido identificados casos de radicalização e conexões entre cidadãos e/ou estruturas, e organizações jihadistas de cariz transnacional".

O DN consultou o RASI e nesse parágrafo, que fala sobre as "tarefas" desenvolvidas pelas secretas no "domínio do terrorismo", não está escrita qualquer referência a que esses casos tenham sido em território nacional. A PGR apenas confirmou a "existência de inquéritos a decorrer" sobre "factos relacionados com o denominado Estado Islâmico". Não adianta se estas investigações são apenas as que já tinham sido divulgadas, sobre os jihadistas portugueses radicalizados no estrangeiro, ou se foram acrescentados novos casos. A PJ não responde a nada.

Não deixa de ser irónico que as declarações de Neiva da Cruz tenham sido proferidas num seminário sobre "Estratégias de Comunicação no contexto de terrorismo", na qual vários participantes salientaram a importância da informação rigorosa para evitar especulações e alarmismos.

Segundo a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, está agora a ser "desenvolvido em sede da Unidade de Coordenação Antiterrorista um plano de comunicação". Está previsto desde a aprovação da Estratégia Nacional de Combate ao Terrorismo há quase 20 meses (fevereiro de 2015), mas na prática nada mudou.

O fenómeno da radicalização terrorista e do recrutamento de cidadãos europeus para as fileiras do Daesh ou para cometer atentados nos seus países, tem estado na agenda dos vários países da União Europeia. Diversos programas de prevenção estão em curso. Em Portugal também tem havido algumas discretas iniciativas, longe do grande público.

Segundo o diretor do SIS, "o fenómeno da radicalização consubstancia, em si mesmo, uma ameaça às sociedades democráticas baseadas nos princípios da tolerância e da supremacia do Estado de direito". Neiva da Cruz assinalou a "diminuição de partidas para a Síria, em mais de 50%, no último ano", uma situação que se pode explicar "pela atual perda de território que o Daesh regista e também devido às medidas de caráter judicial e securitário adotadas pelos governos europeus". No entanto, sublinhou, "o número de indivíduos abertos à mensagem do radicalismo transmitida por recrutadores continua a aumentar", tendo duplicado em alguns países . "Já não há apelos às viagens para a Síria", mas sim "à prática de atentados no próprio país".

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