Cavaco avisa que ainda tem uma palavra a dizer na política

A vida política de Cavaco ainda não acabou. Quando publicar as suas memórias, vai haver revelações

No almoço realizado ontem em sua homenagem, no Pestana Palace, em Lisboa, o ex-chefe de Estado deixou mais uma vez um aviso que pode ser entendido como ameaça: "Há muita coisa que não se sabe do tempo em que exerci as funções de presidente da República."

O ex-presidente da República confessou que manteve "muita coisa reservada" de forma a "preservar o interesse nacional", mas não especificou, pois "este não é tempo de fazer revelações". Mas ficou o alerta: quando sair o livro de memórias dos mandatos presidenciais, vai haver matéria política.

Já antes Leonor Beleza (uma das organizadoras do almoço) antecipava que o ex-presidente da República já não tem um cargo político, mas vai andar por aí. A antiga ministra lembrou que "este ainda não é o tempo de fazer o balanço da sua atividade política".

Apesar do aviso prévio de que podem vir aí bombas políticas no futuro Cavaco Silva não revelou, no entanto, grande mágoa ou rancor no seu discurso. O antigo presidente apareceu sorridente e rodeado de velhos amigos, desde o grupo de Macau (Rocha Vieira), antigos governantes dos seus executivos (Leonor Beleza, Silva Peneda ou o próprio Nunes Libertao) ou antigos apoiantes (caso de Abdool Vakil).

Na intervenção Cavaco Silva considerou ser um "privilegiado e homem de sorte" no exercício de funções públicas. E aí destacou ter aprendido a ser político e estadista com o fundador do PSD: "Se Sá Carneiro não me tivesse ido buscar ao Banco de Portugal e à universidade, não tinha sido político."

Quanto ao tempo na presidência, admitiu ser "difícil e complexo", mas acrescentou que ainda bem que assim foi: "Questiono-me: que outro tempo teria sido mais útil para o país, em aplicar a minha experiência como primeiro-ministro e o meu conhecimento na área de economia e finanças que não este?" E conclui: "Foi o tempo certo para ser presidente."

Cavaco Silva disse ainda ter saído da chefia de Estado "satisfeito comigo próprio e com a consciência bem tranquila" . Lembrou as batalhas políticas para a Presidência, puxando dos galões das vitórias eleitorais: "Enfrentei candidatos de grande peso político." Esta afirmação quase podia ser entendida como uma indireta a Marcelo, que terá enfrentado candidatos sem grande currículo político.

O Presidente da República fez questão de estar presente antes do almoço e esteve alguns minutos numa conversa animada com Cavaco Silva. Fez ainda questão de falar aos jornalistas para se associar "à homenagem muito justa ao presidente Cavaco Silva, não esquecendo os anos em que foi primeiro-ministro, mas em particular como presidente".

Marcelo Rebelo Sousa fez a ponte com a "também muito justa homenagem ao presidente Mário Soares" que se realiza nesta tarde. Defendeu até que esta é "uma boa coincidência: quer dizer que dois antigos presidentes continuam na memória coletiva e ambos merecem ser homenageados". O atual Presidente revelou até ter pena de não ficar para almoçar.

Voltando ao discurso de Cavaco Silva, há pontos que podem ser entendidos como recados à esquerda. Isto porque não deixou de destacar feitos que podem ser vistos como contraponto à esquerda do PS. Além de ter dito que se sentia sortudo por ter partilhado tempos de governação com europeístas, Cavaco lembrou leis que marcam uma cisão ideológica com a esquerda. Desde a "legislação agrária que permitiu o fim de ocupação das terras" até "a lei de bases de saúde, que permitiu a entrada do privado nessa área" passando pela "redução do peso do Estado na economia".

Presente esteve ainda o comissário europeu Carlos Moedas, num almoço a que os jornalistas não puderam assistir. Passos chegou às 15.00, após um almoço de aniversário da JSD, mas não quis deixar de se associar.

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