A administração demissionária da Caixa Geral de Depósitos (CGD), liderada por António Domingues, fica no banco público até ao final do ano ou até a nova equipa tomar posse e ainda fará uma parte do plano de recapitalização de 5160 milhões acordado com Bruxelas..Ao que apurou o DN, esta equipa ainda vai estar à frente do banco público quando se der a conversão de 960 milhões de capital contingente (CoCo"s) em capital do banco, assim como a redução da participação da ParCaixa na Parpública, avaliada em 500 milhões de euros. Mesmo que o substituto de Domingues seja anunciado já nesta semana, como é intenção do primeiro-ministro, António Costa (ver caixa), a obrigatória luz verde do Banco Central Europeu (BCE) à idoneidade dos novos gestores poderá demorar semanas. "O BCE está à espera de receber uma proposta completa para o conselho de administração para que possa avançar e completar as avaliações, que são um requisito legal", diz ao DN/DV fonte oficial..Concretizada a primeira parte da recapitalização, fica a faltar o aumento de capital até 2,7 mil milhões de euros (o valor final será apurado com uma auditoria que está a decorrer), em simultâneo com a primeira tranche de 500 milhões de euros de uma emissão de obrigações altamente subordinadas. Estes dois passos deveriam ficar concretizados ainda neste ano, mas Mário Centeno, o ministro das Finanças, já admitiu que o processo só decorrerá em 2017. A administração da caixa decidiu fechar as contas rapidamente, de forma a que o banco possa ir ao mercado já em março. Ao que apurou o DN, a expectativa é que esse processo arranque só na segunda metade do mês..Enquanto isso, o plano de reestruturação acordado com a Comissão Europeia no âmbito da recapitalização continuará a decorrer, numa reestruturação que pode implicar o encerramento de 300 balcões e o corte de 2500 postos de trabalho através de pré-reformas. Bruxelas está a acompanhar o dossiê, mas para o comissário europeu Valdis Dombrovskis nada muda no projeto de reestruturação da CGD. Bruxelas "toma nota" das demissões e aguarda que seja proposta uma nova equipa de gestão; enquanto isso, "no que diz respeito à substância do nosso acordo de princípio devo dizer que ele continua em vigor". Apesar da serenidade de Bruxelas, os analistas contactados pelo DN/Dinheiro Vivo avisam que este novo atraso pode trazer riscos para o banco público. "Todo o impasse e ruído à volta da administração da CGD tem prejudicado a atividade e também o processo de recapitalização, nomeadamente na componente de colocação de dívida em privados", explica Filipe Garcia, economista da IMF. Isto porque "os potenciais interessados em ficar com a dívida a emitir estão naturalmente atentos à situação e tudo depende da solução que será encontrada"..Albino Oliveira, da Patris Investimentos, lembra que a recapitalização já tinha sido adiada para o primeiro trimestre de 2017, justificando "com a necessidade de fechar as contas de 2016 e fazer uma avaliação da qualidade dos ativos do banco. Agora, após ser conhecida a saída do presidente, existe mais um motivo para justificar a decisão de adiar a implementação do plano de recapitalização". Questionado sobre se a situação terá impacto na atividade operacional do banco público - que fechou o terceiro trimestre com prejuízos de 189,3 milhões de euros -, o analista refere que "no curto prazo pode ter um impacto negativo", já que continua a ser necessária uma administração que implemente a reestruturação..O adiamento do plano para 2017 é "uma má notícia", frisa Luís Bravo, da DIF. "É sabido que a banca acumula uma série de pontos de tensão que, se indevidamente geridos, poderão desencadear uma crise séria com repercussões que poderão estender-se ao resto da economia, com surpresas bastante desagradáveis", avisa, reforçando a importância de resolver "de forma célere o ruído em torno deste episódio político" e alertando para o risco de surgir novo adiamento depois de março, o que pode ser interpretado pelos analistas e agências de rating como um fator negativo. Henrique Dias, da XTB, tem a opinião contrária: "Não creio que a saída da equipa de gestão venha a atrasar o plano de recapitalização, pois este já deve estar bem pensado e desenhado." O analista considera que o impacto operacional na CGD é diminuto porque a atividade "não está comprometida".