António Costa: "É uma ilusão uma zona euro estável sem reforço de convergência"

O primeiro-ministro, em entrevista ao DN, revela um conjunto de prioridades bem diferentes das de Jean-Claude Juncker

António Costa não desvaloriza a agenda proposta por Jean-Claude Juncker, fala mesmo num "sinal positivo", mas nesta entrevista ao DN - que será editada na íntegra neste fim de semana - deixa cair que este tipo de ambição é natural e bem-vinda nestas ocasiões. "Os discursos do Estado da União são sempre marcados por um momento em que o presidente da Comissão procura vencer a capacidade de imaginar, libertar-se dos limites do razoável, para se fixar na vontade da ambição e acho que desse ponto de vista é um sinal positivo".

O primeiro-ministro olha ainda assim com alguma desconfiança para as propostas do luxemburguês, que é de uma família política diferente, o PPE. Costa considera que há um problema de estratégia e afirma que "não é possível lançarmo-nos em novas áreas sem consolidar aquilo que foi o projeto mais arrojado até agora idealizado pela União Europeia que é a união económica e monetária". Essa é a prioridade, até porque, no que toca à arquitetura da zona euro, nada do que esteve na origem da última crise está resolvido. "Mesmo estando os países a libertar-se do procedimento por défice excessivo, mesmo havendo uma melhor perspetiva em relação ao euro, os problemas dos pecados originais da criação do euro estão por resolver e têm de ser resolvidos."

Em São Bento, na varanda virada para os jardins onde decorreu a longa conversa com o DN, António Costa preferiu falar daquele que considera ser o tema essencial no atual momento da União: a convergência. "Não é possível termos a ilusão de que temos uma zona euro estável sem haver um reforço de convergência, e essa tem de ser a grande prioridade." E, mais uma vez, apontou notas positivas. "Há, hoje, sinais positivos, não só na atitude que o presidente Macron tem apresentado, na forma como o presidente Juncker se tem pronunciado e nos documentos da Comissão, como também, e muito importante, nas declarações que Angela Merkel fez recentemente numa conferência de imprensa no regresso de férias em que, apesar de estar no período eleitoral, pela primeira vez aceitou expressamente a existência de um orçamento da zona euro focado no investimento e visando suprir os défices de convergência." Só um orçamento robusto para a zona euro, argumenta o primeiro-ministro, pode ajudar a sustentar os caminhos da convergência entre economias ainda muito distantes. "O mais importante de tudo é podermos ter uma capacidade orçamental própria da zona euro que permita financiar a convergência económica e social entre as economias dos diferentes Estados membros."

"É esse o salto que tem dado", disse António Costa num outro passo da entrevista, retomando o tema e comentando duas das propostas ou ambições do presidente da Comissão - a existência de um ministro europeu da Economia e Finanças, alguém que faça um acompanhamento das reformas estruturais dos Estados membros, e uma zona euro com todos os Estados membros até 2019. "Devemos ter uma abordagem pragmática", avisa o primeiro-ministro português, acrescentando que "é cada vez mais difícil podermos coincidir todos para fazer tudo exatamente no mesmo tempo".

À insistência na pergunta sobre a ideia de juntar todos os Estados sob a mesma moeda, Costa - o dono do tal "otimismo por vezes irritante", na opinião de Marcelo - responde com algum ceticismo. "Se me pergunta se acho provável, não acho provável. O que acho essencial relativamente à zona euro é que ela seja reformada e seja completada. Desde logo fazendo o que está por concluir, no caso a união bancária, dotando-a de instrumentos que a crise demonstrou serem essenciais para prevenir as crises e para lhes responder." Aliás, António Costa relembra que, na zona euro, só está quem quer e que essa foi a fórmula certa para contornar a lentidão dos consensos. "As experiências que tivemos com a zona Schengen ou com o euro, soluções com base em geometria variável, mostraram que foi a forma de podermos avançar sem violentar as vontades democráticas de quem quer que seja, mas também sem ficarmos todos paralisados à espera de termos uma vontade comum."

Quanto à proposta de ter um ministro europeu da Economia e das Finanças, o primeiro-ministro deixa algumas questões: "Vamos ter um orçamento próprio da zona euro? Para que é que vai ser esse orçamento? Como é que se financia esse orçamento? Em função disso teremos de ver quais são as instituições que temos de ter para que isso exista. Agora, começar a discutir as instituições antes de se saber o que é que queremos fazer..." É a velha história da carroça e dos bois.

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