Antigos governantes recordam os seus primeiros dias de aulas

Maria de Lurdes Rodrigues, David Justino, Isabel Alçada e António Couto dos Santos

Maria de Lurdes Rodrigues estranhou separação entre rapazes e raparigas. Isabel Alçada descobriu um dia que a escola tinha "encolhido". David Justino esperou quase até ao Natal para a escola abrir.

Partilham a experiência de já terem sido ministro da Educação mas, muito antes disso, também foram alunos, também tiveram primeiros dias de aulas. E estes nem sempre ficaram na memória pelos melhores motivos.

Maria de Lurdes Rodrigues lembra-se bem do primeiro dia de aulas. Até porque essa recordação lhe permite apreciar o que o país mudou desde que tinha seis anos. "Quando entrei para a primeira classe, entrei para uma escola pública, na Ajuda, que tinha de um lado a escola das raparigas e do outro a dos rapazes. E lembro-me de isso me ter causado algum incómodo, por os meninos não poderem brincar todos juntos. Felizmente isso hoje já não é assim", acrescenta, "mas o meu primeiro embate, a minha chegada à escola primária é esse".

Lurdes Rodrigues explica que "os alunos não se misturavam nem nas aulas nem no recreio". Mas era neste último que "se sentia muito" a segregação: "Tinha sempre a sensação de que os rapazes se divertiam muito mais do que as raparigas."

As datas e os acontecimentos dos tempos de estudante já se confundem na memória de David Justino. Mas há um acontecimento que recorda com pormenor, pelo que este teve de surrealista: o ano em que esperou quase até ao Natal para ter aulas.

"Como aluno, o regresso às aulas mais importante que tive foi aquele em que comecei as aulas no dia 16 de dezembro, no meu primeiro ano de liceu, no antigo liceu de Oeiras, em 1962", conta. "Não havia salas, tiveram de se construir prefabricados e o primeiro período foi completamente perdido", recorda, lembrando que no 1.º período teve "dois dias de aulas e depois começaram as férias de Natal". Naturalmente, "não houve notas no primeiro período". "Um ministro da Educação que atualmente tivesse uma escola a começar o ano no dia 16 de dezembro estava demitido no dia seguinte".

Isabel Alçada estudou "toda a vida" na mesma escola: o liceu francês Charles Lepierre, em Lisboa. Por isso, diz, "o regresso à escola em primeiro lugar era rever os amigos de que me tinha separado no Verão, a alegria de os voltar a ver". Mas num percurso escolar tão homogéneo, houve um ano em que tudo lhe pareceu diferente: "Lembro-me de que, com 13 ou 14 anos, cheguei à escola e a achei mais pequena. Achava que a escola era enorme, que tinha um recreio muito grande, e um ano achei que a escola tinha encolhido. Na verdade era eu que tinha crescido. Tinha dado um salto muito grande nesse Verão", explica.

Do tempo de professora recorda "a preparação intensa do arranque do ano letivo", até porque esteve em cargos de direção e também ligada à formação de professores. "Ver o momento de concretizar o arranque era sempre uma alegria".

Natural de Esposende, António Couto dos Santos lembra que a escola da sua infância pouco tinha a ver com as instalações e recursos que hoje são oferecidas aos alunos do país. "Eram condições muito piores, não havia as condições que há hoje", recorda. No entanto, acrescenta, o primeiro dia de escola era sempre um motivo de felicidade. Porque sempre teve consciência do que ali estava em causa: "O meu dia de regresso às aulas era sempre um dia de grande alegria, porque via na escola o meu instrumento de formação de personalidade e de aprendizagem. Sabíamos que era a nossa formação que estava em causa". De Esposende viria para Lisboa, onde fez o equivalente ao atual ensino secundário no Liceu Passos Manuel, No Instituto Superior Técnico licenciou-se em Engenharia Química, antes de se lançar na política e nos negócios.

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