Episódio 11. Um ministro entre Jane Birkin e Trump

Ferreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração)

De súbito, na geopolítica, um botão que se desaperta e logo surge apertado... O que tem a ver o gesto de Jane Birkin, no filme Blow-Up, de Antonioni, com o encontro no Palácio das Necessidades onde se discutia Trump? Nada, só este último é pornográfico

Lisboa, 15 de julho, 09.00. Era sábado, deu para estacionar o carro no Largo do Rilvas, na entrada do Palácio das Necessidades. No tempo do D. Pedro V, havia uma caixa à porta para o povo deixar mensagens para o jovem rei. A mensagem que Pedro Leite de Noronha trazia era demasiado bizarra, precisava de ser entregue de viva voz. "O ministro já o espera na Sala Azul, o senhor embaixador sabe onde é...", disseram-lhe na portaria. Dirigiu-se para a sala do despacho, ao lado do gabinete do ministro. No "andar do poder", como chamavam nas Necessidades, para contraste com o andar de cima, dos administrativos, o de arrastar as coisas.

A sala não podia ser mais azul, das sedas que estofavam as paredes aos estuques do teto, e Leite de Noronha teve vontade de dizer que se sentia em casa, ele que era belenenses, em contraste com o ministro, que deixava constar que era de alma salgueiral, vermelho intenso, talvez para sublinhar estar acima de futebóis. Mas o visitante conteve-se, trazia-o assunto importante demais para brincadeiras prévias.

Augusto Santos Silva folheava o Expresso, como quase sempre com vontade de o desfolhar, e levantou-se para o receber. O embaixador reformara--se ainda ele não era ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas eram da mesma área política e, no ano anterior, tinham preparado juntos a corrida de António Guterres a secretário--geral da ONU. "Leite de Noronha, estou em pulgas...", disse o ministro. O embaixador tinha-lhe enviado um sms: "Info sobre Trump, grave e diz-nos respeito." Santos Silva desmarcou a ida para o Porto com a família e pediu-lhe para ir ter com ele na manhã seguinte.

E lá estava. Leite de Noronha falou da festa do 14 de Julho e do discurso extravagante do embaixador francês. Lembrou as frases exatas e acrescentou: "Não vem nada nos jornais, sabes como eles estão..." Depois, falou do diplomata com quem tinha ido tomar um copo: "É um amigo meu antigo. É íntimo do Macron e da mulher, foi colega dela...", disse. Acrescentou: "Desconfio que o que ele me disse veio diretamente do Eliseu." E, enfim, passou ao recado que lhe deram: a França sabia que Trump ia causar um escândalo com a ONU. Por uma qualquer razão - "que desconheço, mas o Trump não é miudinho a escolher justificações" - as Nações Unidas iam ser desalojadas da sede de Nova Iorque: "Paris está convencida de que isso vai acontecer, e em breve."

O ministro pousou o olhar em Leite de Noronha. "Não tenho um pensamento fino e cínico que me permita adivinhar o que Trump vai fazer", disse, fino e cínico. O embaixador não fez suspense: "Tenho outra notícia. Paris quer que saibamos que tem uma candidatura para a sede da ONU: Lisboa." Santos Silva olhava o reflexo cintilante, no espelho, do magnífico lustre... "Quer dizer, não só temos de esperar que o destravado do Trump decida não sabemos o quê, como já sabemos que isso vai ter consequências para nós...", equacionou o ministro. O outro relativizou: "Sempre estamos melhor do que os mexicanos, que ainda não sabem que vão pagar o muro."

Não falaram mas estava implícito, o ministro iria passar às etapas seguintes. Fazer seguir a informação para o primeiro-ministro, que trataria com Belém. Na Sala Azul, ambos pensaram o mesmo: António Costa ia encarar com irritante otimismo a hipótese e Marcelo ia ficar convencido de que a política de afetos até já recolhia dividendos além-fronteiras. Leite de Noronha sugeriu que o embaixador em Paris pedisse já uma audiência ao Eliseu: "O pretexto seria a próxima visita do Costa, mas Moraes Cabral aproveitava para confirmar as intenções francesas..." O ministro concordou. Apesar da situação informal do embaixador reformado, o ministro sabia que iria precisar dele - e, sobretudo, nos estúdios televisivos e nas redes sociais.

Já estavam de pé. Santos Silva disse: "Começo a achar que Lisboa é a sede natural da ONU..." Antes de se despedirem, Pedro Leite de Noronha não resistiu: "Ontem, nos jardins da embaixada, vi-a", disse. O ministro alçou as sobrancelhas, intrigado. "A Jane Birkin. Já não te levava para o trotskismo...", disse o outro. A Sala Azul ouviu uma gargalhada, saída de quem precisava de descomprimir de uma grave crise internacional anunciada.

Há tempos, Augusto Santos Silva tinha escrito um artigo a que dera o título: "Como Jane Birkin me atirou para os braços do trotskismo." O ministro justificava o seu passado adolescente no esquerdismo assim: num filme, ele vira uma cena de Birkin a desapertar um botão, seguida de outra cena, imediata, a apertá-lo... No meio, acontecera a censura e isso levara Santos Silva até Trotsky. Talvez na ilusão de que este tinha desnudado Frida Kahlo por desejo de liberdade, ele foi por um momento adepto da revolução permanente. Agora, era ministro num mundo em crise permanente.

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