"Agora já podemos começar a escutar o universo"

Uma simulação em computador ajudou os cientistas a explicar as ondas gravitacionais

Foram previstas há cem anos por Einstein, mas nunca tinham sido "ouvidas". As ondas gravitacionais aí estão, finalmente

Há cem anos, Einstein previu as ondas gravitacionais, uma perturbação no tecido do espaço-tempo causada por corpos de grande massa acelerados através do universo, mas até agora nunca ninguém as tinha "visto". Ontem, cientistas do observatório LIGO (Laser Interferometer Gravitational--Wave Observatory) anunciaram ter detetado pela primeira vez esses sinais de forma direta na colisão de dois buracos negros. Com isso venceram a última prova da verificação da teoria da relatividade de Einstein e abriram a porta a uma nova era na astronomia.

"Senhoras e senhores, detetámos ondas gravitacionais, we did it". Foi assim que o diretor do LIGO, David Reitze, abriu a conferência de imprensa em Washington (EUA), na qual a descoberta foi anunciada.

Os sinais, um pico sonoro num ruído de fundo indistinto, foram captados quase em simultâneo, a 14 de setembro do ano passado, pelos dois detetores do observatório, localizados em Louisiana e Washington, nos Estados Unidos. Esse som, que lembra um pio de pássaro, corresponde ao movimento cataclísmico de um buraco negro binário, ou seja ao momento que dois buracos negros colidiram entre si, nas profundezas do universo, há 1300 milhões de anos.

"Isto é só o princípio", disse feliz a cientista da experiência Gabriela Gonzalez. "Descobrimos as ondas gravitacionais e agora que temos os detetores e sabemos que os buracos negros binários estão lá, podemos começar a escutar o universo."

Antes de Einstein ter mudado a forma como percebemos o universo, graças à sua teoria da relatividade geral, pensava-se que o espaço e o tempo eram duas dimensões fixas e independentes. A sua teoria virou tudo do avesso, propondo um único modelo a quatro dimensões, o espaço-tempo, que não é fixo. Isso implica que um corpo com grande massa acelerado através do universo, ou dois buracos negros em rota de colisão, causam uma perturbação, as tais ondas gravitacionais, tal como uma pedra arremessada à superfície quieta de um lago provoca uma ondulação característica.

Há mais de meio século que os cientistas tentavam detetar esta "ondulação cósmica", algo extremamente difícil porque são sinais praticamente impercetíveis, e antes do anúncio de ontem houve até alguns falsos alarmes. O mais recente aconteceu em 2014, quando um grupo de cientistas captou no telescópio BICEP2, instalado perto do polo sul, um sinal que parecia mesmo as tais ondas gravitacionais, mas que veio a revelar-se poeira cósmica.

Agora parece que é mesmo. A equipa já publicou, aliás, os resultados na Physical Review Letters, e na conferência de imprensa os líderes da experiência garantiram que nos próximos meses e anos vão captar muitos mais destes sinais, até porque há novos detetores a ser instalados no mundo.

O britânico Stephen Hawking saudou a descoberta, sublinhando que ela "tem o potencial de revolucionar a astronomia", uma vez que a partir de agora, graças às ondas gravitacionais, "podemos esperar-se ver buracos negros ao longo da história do universo e, inclusive, os vestígios do universo primordial, durante o Big Bang".

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