"A solução é atacar o problema da biomassa acumulada"

Paulo Fernandes é professor e investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), e especialista em fogos florestais
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Tal como em Pedrógão, a região de Mação já não ardia há década e meia. Este incêndio, agora, não era expectável por isso mesmo?

Numa região que não ardia há 14 anos, como Mação, acumulou-se bastante biomassa, ou seja, combustível. De acordo com o tipo de vegetação, é a partir dos 12, 14, ou 16 anos que um sistema florestal atinge o máximo de biomassa, depois disso entra em equilíbrio. A partir daí, o máximo que pode arder já está lá e portanto, do ponto de vista do combustível, é expectável.

O que devia ser feito como prevenção nestas zonas?

Mação é apontado como um bom exemplo no que se refere à organização do território: tem pontos de água, acessos e algumas faixas sem combustível, para se responder o melhor possível a uma ocorrência de fogo. Mas esta situação mostra bem que isso, só por si, não chega, porque a solução fundamental é atacar o problema da biomassa acumulada. Depois destes fogos, a vegetação cresce toda ao mesmo tempo, as espécies mais competitivas ocupam melhor o espaço e a floresta fica muito mais homogénea, o que favorece o incêndio seguinte.

Favorece porquê?

A continuidade na floresta, ou na vegetação, favorece o incêndio porque não há nenhuma quebra ou variação que contrarie a sua progressão.

O que deve ser feito, então, concretamente?

Gerir a floresta e o combustível, o que é um trabalho lento e nunca pode parar. Requer investimento, mas se for feito a pouco e pouco chega-se lá. Se todos os anos interviermos em 5% do território, o que é razoável, em quatro anos tratamos 20%. Lentamente constrói-se uma paisagem mais heterogénea, com menos combustível e com áreas em que se pode fazer frente ao fogo. Neste tipo de florestas podem-se tratar faixas ou mosaicos do território, desramando árvores e subindo-lhes a copa, e eliminando arbustos, por exemplo, com técnicas mecânicas, entre outras estratégias.

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