À hora marcada, oito da manhã, Rui Marques cruza as portas do Hotel Tivoli. O telemóvel numa mão e o iPad na outra conferem-lhe o ar de modernidade que os cabelos brancos, o fato escuro e a gravata de riscas conservadoras ajudam a desfazer. O agora coordenador da recém-constituída Plataforma de Apoio aos Refugiados já não é o "garoto" de vinte e poucos anos que em 1992 embarcou no Lusitânia Expresso rumo ao mar de Timor, mas mantém o mesmo timbre monocórdico na voz e o mesmo discurso conciliador e avesso a frases polémicas, nascido na militância católica e que ajudam à perceção de que é um "chato" e um "cinzentão". Rui Marques prefere outra formulação: "Sou um moderado e isso irrita muito algumas pessoas", diz a propósito da sua mais recente referência moral, o Papa Francisco. "É uma revolução completa, não só na Igreja. Aliás, o Papa tem uma capacidade de fazer a ponte e de ter uma relação com os não crentes, que às vezes me parece até maior do que com os católicos. Os não crentes veem hoje no Papa Francisco um líder mundial, ético, com um nível de adesão e de confiança extraordinário. É um homem notável"..O cerne da conversa há de andar à volta do assunto "refugiados". É por causa deles, aliás, que no último mês tem andado numa roda viva. E é por causa disso que tomamos um pequeno-almoço madrugador. Avançamos para o buffet. Frugal, o prato vem com uma amostra de ovos mexidos, uma fatia de bacon e outra de fiambre, que acompanha com uma salada de frutas, um sumo de laranja e uma chávena de café com leite..Direto ao assunto, Rui Marques incomoda-se com a fratura que o tema "refugiados do Médio Oriente" está a provocar na sociedade portuguesa e na Europa inteira. "Estou a ouvir coisas sobre este assunto, posições contra tomadas por pessoas que nunca imaginei que pudessem dizer ou pensar coisas como as que dizem. São pessoas envolvidas em causas de solidariedade e de justiça social e que estão a dizer coisas inacreditáveis. Não estamos só a falar da extrema-direita ou da visão xenófoba, não estamos só a falar da vox populi simplista, estamos a falar de pessoas cultas com níveis de formação superior que se deixaram condicionar por um conjunto de fantasmas que, entre a invasão e a islamização, entre o terrorismo e o estarmos em crise, perderam lucidez." É entre um quadrado de melão e um bago de uva que sublinha o esforço de consensualização que é preciso fazer na sociedade portuguesa. E por isso elogia os partidos por, em tempo de campanha eleitoral, não fazerem deste assunto "tema de combate político como acontece noutros países. Quanto maior for o consenso, mais fácil é incentivar uma estrutura de acolhimento"..Tento puxar o combate partidário e as eleições de 4 de outubro para a conversa, mas Rui Marques não deixa. "Estou completamente fora do debate político e partidário. Tenho opinião sobre o que se passou nos últimos quatro anos, mas não é útil exprimi-la neste contexto. Sobretudo porque tenho hoje a responsabilidade de dar um contributo no quadro da plataforma, e as opiniões que possa ter sobre a situação política nacional não são oportunas nem adequadas." É óbvio que o fundador do MEP, partido fugaz que se extinguiu em 2012 depois de se ter mostrado incapaz de entrar na Assembleia da República, quer evitar tropeçar em opiniões que comprometam a plataforma que integra gente de todos os quadrantes. Manda a prudência que se fique pelo terreno firme do drama dos refugiados..No início de setembro, os olhos do mundo esbugalharam-se em choque perante a imagem de Aylan Kurdi, o rapaz sírio de 5 anos morto à beira-mar de uma praia na Turquia. Rui Marques, como toda a gente, não ficou indiferente. "Todos pensámos o mesmo. Que aquela criança podia ser uma das nossas. Mas fui assaltado por um outro pensamento: o que é que tenho de fazer para estar à altura daquele pai." Foi também nessa altura que a Europa começou, apesar das muitas hesitações, a despertar do torpor em que se encontrava há mais de um ano, indiferente ao drama dos que desaguam nas ilhas gregas e italianas a fugir à guerra e à morte arriscando a vida. "Estas divisões não fazem nenhum sentido. E é provavelmente consensual dizer que estas decisões já deviam ter sido tomadas há um ano. Há aqui uma grande falta de sentido dos tempos e da importância de agir no momento certo ao nível europeu." Ainda assim, e apesar de tudo, as conclusões da cimeira extraordinária de meados desta semana são uma boa notícia. "O grande problema do projeto europeu nos últimos tempos é a perda dos valores fundamentais de solidariedade e interdependência. Para sermos rigorosos, não é só um fenómeno húngaro, eslovaco ou checo. Aquilo que todos fizemos nos últimos anos em relação à Itália ou à Grécia, o que é senão falta de solidariedade? É totalmente inaceitável dizer que este era um problema deles e por isso eles que resolvessem. Depois de meses de bloqueio, não houve hesitação em romper o princípio da unanimidade que vigorava, e avançou-se para a decisão por maioria. Porque era obrigatório decidir. O facto de haver quatro países contra não pode bloquear toda a União Europeia.".Rui Marques olha para o relógio. Tem de seguir para Penela, Coimbra, e depois para Tomar, antes de regressar a Lisboa. Tudo em nome da Plataforma. Socorre-se do Papa Francisco para, mais uma vez, apontar o dedo à Europa e suas divisões. "O princípio do acolhimento é inegociável. Claro que tem riscos, mas não é por ter riscos que vamos renunciar ao princípio. Porque é como ele diz: prefiro uma Igreja acidentada do que uma Igreja bafienta, uma Igreja que corre riscos, do que uma igreja que não faz nada porque está completamente tolhida pelo medo. E 160 mil pessoas é um número completamente ridículo para um conjunto de países que tem mais de 500 milhões de pessoas. Só o Líbano, um país pobre que não tem os recursos da Europa, tem 25% da população, cerca de um milhão de pessoas que são refugiados. A Jordânia tem 600 mil. E a Europa está a discutir 160 mil para os 28 países? Temos de ter a noção do ridículo das discussões que temos.".Aqui chegados, Rui Marques, que já foi alto-comissário para a Imigração, não tem dúvidas de que na Europa há hoje uma "inversão de valores" e reconhece que há uma total intolerância com quem tem défices financeiros mas uma total condescendência com os que incumprem no plano humanitário, como a Hungria. Estamos por isso numa encruzilhada e à beira do precipício. "A Europa está em risco, mas não é por causa da invasão. É por causa da sua reação. O que põe a Europa em risco é a forma como estamos a reagir a este desafio. E a questão é o que é que queremos ser contra um ISIS que mata: uma Europa que deixa morrer ou uma Europa que salva?".É já com dois cafés e a conta em cima da mesa, e algumas citações depois - Rui Marques gosta de frases, canta de memória ditos de Arquimedes, Paulo VI ou Soljenitsin -, que deixa cair um desabafo que o faz recuar mais de 20 anos e aos dias em que o Lusitânia Expresso foi barrado por fragatas indonésias, a 25 quilómetros de Díli no mar de Timor. À época, os "heróis de sofá" chamaram-lhe cobarde por não ter enfrentado as Kopassus, as tropas especiais de Suharto. "A grande vantagem de ter 30 anos de intervenção é que já nada me espanta. Sei perfeitamente com o que contar. Com esta intervenção na temática dos refugiados vai surgir um conjunto de vozes a dizer um conjunto de coisas, como surgiu sempre. Que estou à procura de protagonismo, que quero é um lugar político, que quero um tacho. Com todo o respeito, estou-me nas tintas.".É o momento para fazer balanços. Rui Marques licenciou-se em Medicina, "mas nunca exerci". Fez carreira na comunicação social. Primeiro na rádio Renascença e depois como fundador da Fórum Estudante e da revista Cais de apoio aos sem-abrigo. Ativista dos direitos humanos, organizou campanhas em defesa da causa timorense e do acolhimento de refugiados da Guerra da Bósnia, na década de 1990. Fundou um partido político e foi responsável pela execução das políticas de imigração em Portugal. O que é que lhe falta fazer? "Acho que nada. Se me acontecer morrer amanhã, posso dizer que fui um felizardo."